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Grupo de cidadãos quer monitorizar radiações nucleares junto à fronteira

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tiago miranda

Projeto desenvolvido por investigadores e empresários de Castelo Branco quer pôr a funcionar até outubro uma plataforma independente de medição dos níveis de radiação vindos da Central Nuclear espanhola de Almaraz

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Com o objetivo de “dar um passo em frente na participação cívica” e de “dizer ao Estado que as pessoas estão alerta”, um grupo de cidadãos ligado ao Instituto Politécnico e ao Centro de Empresas Inovadoras de Castelo Branco espera por a funcionar, até Outubro, um sistema independente de monitorização da radiação existente na zona raiana de Castelo Branco. O foco é percecionar as oscilações na radiação natural existente na zona potenciadas por qualquer percalço com origem na Central Nuclear de Almaraz, a cerca de 100 quilómetros da fronteira.

O projeto, denominado Tejo Seguro, precisa de um investimento de 2500 euros. Para reuni-los, um grupo de cidadãos juntou-se e avançou com uma recolha de fundos via 'crowdfunding' ( ver em http://ppl.com.pt/pt/prj/tejo-seguro).

“A ideia é adquirir uma sonda Geiger-Muller — um sensor de radioatividade 'low-cost' desenvolvido após o acidente nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011 e utilizado por cidadãos em vários pontos do mundo — e instalá-la junto à fronteira, em Segura”, explica ao Expresso Paulo Marques, professor no Instituto Politécnico de Castelo Branco. Paralelamente será desenvolvida uma plataforma digital para monitorização remota dos dados.

“Ciência cidadã”

Lançado há cerca de um mês, o projeto já reuniu 1550 euros. Faltam agora mais um mês e um dia para reunir os 950 euros que faltam e poderem adquirir o material para por o sistema de monitorização a funcionar.

“O Tejo Seguro é um exemplo de ‘ciência cidadã’, um conceito inovador, que ainda não está divulgado junto do público português, e que se baseia na participação informada, consciente e voluntária de cidadãos que geram e analisam grandes quantidades de dados, partilham o seu conhecimento e discutem e apresentam os resultados”, sublinha Paulo Marques.

A ideia emergiu após a grande manifestação anti-Central Nuclear de Almaraz, organizada em junho, em Cáceres. “Não somos ambientalistas, mas temos uma consciência ambiental e achamos que a monitorização ambiental é parte da nossa obrigação cívica”, esclarece João Borga, diretor do Centro de Empresas Inovadoras de Castelo Branco e responsável no FabLabCB, outro dos parceiros neste processo. E lembra que a central de Almaraz já passou o seu prazo de validade e tem um historial de pequenos acidentes.

Iniciativa aplaudida

“Este tipo de iniciativas é importantíssimo”, aplaude António Eloy, dirigente do Movimento Ibérico Antinuclear (MIA), lembrando que “é importante a mobilização e monitorização da sociedade civil, porque o Estado também tem de ser vigiado”. Com o impasse em Espanha face à constituição de um novo Governo “há receios”, diz, “de que um Governo interino do PP prolongue a vida da central de Almaraz para lá de 2020”.

Além disso, alerta o ativista, “é preciso estar atento a fenómenos naturais que acarretam riscos para a segurança desta central”. Ainda recentemente, fragmentos de um cometa foram detetados por investigadores da Universidade de Huelva a desintegrarem-se na atmosfera, a 85 km de altitude sobre Almaraz.

A Câmara Municipal de Castelo Branco ainda não deu o seu contributo financeiro a este projeto, mas o presidente, Luís Correia, encara “como muito positiva a iniciativa deste grupo de cidadãos”. E recorda que a Assembleia Municipal aprovou duas moções contra o funcionamento da Central de Almaraz, solicitando ao Governo que tome iniciativas junto do de Madrid para fechá-la.

Sistema oficial

Atualmente, a monitorização da radioatividade no ambiente é feita pela Rede de Vigilância em Contínuo da Radioatividade no Ambiente (RADNET), sob a tutela da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Questionada pelo Expresso sobre o Projeto Tejo Seguro, a APA explica que “a iniciativa não se constitui como uma rede de emergência, nem complementa ou integra a RADNET, criada ao abrigo da Convenção Internacional sobre Notificação Rápida em caso de Acidente Nuclear ou Emergência Radiológica”.

A rede oficial de monitorização é composta por 14 estações de medição de taxa de dose de radiação gama no ar ambiente, com detetores Geiger-Müller. Estão instaladas em Lisboa, Sines, Faro, Beja, Portalegre, Castelo Branco, Penhas Douradas, Bragança, Porto, Coimbra, Ponta Delgada, Funchal e Elvas. Segundo a APA “a RADNET encontra-se em fase de expansão”, existindo mais seis estações com capacidade espetroscópica em fase de teste.

A estação das Penhas Douradas é complementarmente “utilizada para estudos de intercomparação de dados com a rede espanhola REVIRA”, localizada em Talavera la Real, e controlada pelo Conselho de Segurança Nuclear de Espanha. Existe ainda uma outra sonda imersa na Barragem do Fratel, para “monitorização em contínuo da radioatividade na água do rio Tejo”, esclarece a autoridade nacional.

Os dados medidos a nível nacional são disponibilizados ao público em http://sniamb.apambiente.pt/Home/Default.htm. A nível nível europeu encontra-se mais informação em https://remap.jrc.ec.europa.eu/GammaDoseRates.aspx.