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“Temos de honrar a bondade de quem nos ajudou e seguir em frente”

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De mãos dadas, Geraldo e Maria José escolheram o cais do Funchal para falar e tirar a fotografia - era a vista que tinham de casa antes de o fogo a ter reduzido a escombros. Aos 50 anos e com três filhos, começam de novo

Marta Caires

Jornalista

Geraldo e Maria José Rodrigues começam de novo aos 50 anos, da casa ficaram só as paredes. A mobília, a roupa, documentos e outros papéis arderam há uma semana, quando o fogo consumiu o número 65 da Estrada dos Marmeleiros, no Funchal, uma das 300 casas destruídas pelos incêndios de acordo com o último balanço. “O mais importante ficou, estamos todos e unidos.” E todos são eles, os três filhos e a mãe de Geraldo, os mesmos que agora estão alojados num apartamento da Investimentos Habitacionais da Madeira na Cancela, do outro lado da cidade.

“Temos um teto e isso já é muito bom, não nos podemos queixar.” Geraldo, de 54 anos, funcionário da Empresa de Electricidade da Madeira, faz questão de agradecer toda a ajuda que tem recebido, até o relógio que traz no braço veio da solidariedade. O apoio tem chegado da família, de amigos dos filhos, de amigos de amigos e de pessoas que nem sequer os conhecem. “Não queremos ser ingratos, não queremos defraudar essas pessoas e todo o apoio que nos têm dado. Temos de honrar a bondade de quem nos ajudou e seguir em frente.”

gregório cunha

De mãos dadas, Geraldo e Maria José escolheram o cais do Funchal para falar e tirar a fotografia, era a vista que tinham de casa antes do fogo a ter reduzido a escombros. Os dois foram à baixa tratar de papéis, mudar a morada e tirar uma certidão do registo predial. Só assim podem suspender o contrato da água na Câmara do Funchal. “Todos os dias temos assuntos para tratar, vamos resolvendo conforme aparecem. Já fomos às Finanças tratar do IMI e já cortámos a luz.” Geraldo não esconde que quer reconstruir a casa onde cresceu, esse é o sonho, mas por enquanto é “preciso viver um dia de cada vez”.

A sensação de começar de novo é parecida com a que sentiram quando se casaram, faz em novembro 27 anos. “Vamos começar de novo, mas em vez de ser a dois, agora é a cinco”, explica Maria José num sorriso cheio de esperança. “Os bens materiais foram-se, é verdade, mas estamos todos. Só não queremos ser ingratos.” O apartamento tem mobília e uma marca conhecida arranjou o fogão, o frigorífico, a máquina de lavar, a televisão e até uma cafeteira elétrica. O essencial para acreditar que é possível voltar a ter aquela casa, na Estrada dos Marmeleiros, com vista para o cais do Funchal.

gregório cunha/lusa

“Fui trabalhar tranquilo e quando voltei já não tinha casa”

As marcas, essas, estão lá e não será fácil esquecer aquele amanhecer, aquela imagem das chamas a consumir primeiro a cozinha, quase num ápice, e depois o resto, devagar, sem deixar nada. “Só ficaram as paredes”, explica Maria José, que estava em casa com os filhos e a sogra quando o fogo os surpreendeu. Não deu tempo para levar nada. Geraldo fez o turno da noite na central da Vitória, central eléctrica da Madeira, e foi alertado por um telefonema da filha. A casa estava a arder. A princípio não percebeu como era possível, o fogo tinha começado em São Roque e tinha alastrado para Santo António. “Fui trabalhar tranquilo e quando voltei já não tinha casa.”

reuters

O vento, o calor e a baixa humidade propagaram o fogo de forma mais ou menos aleatória. Geraldo não foi o único a ser surpreendido por uma frente inesperada nas 48 horas em que as chamas queimaram mato, quintais, jardins e casas no Funchal, nas zonas altas e na baixa, sem que percebesse muito bem como ali tinham chegado. Como a família de Maria José e Geraldo, centenas de outras pessoas foram acolhidas temporariamente no quartel do Regimento de Guarnição 3. “Entrámos lá na terça de manhã, saímos na sexta à tarde.” O processo de realojamento foi rápido, a última família deixou o regimento a 16 de agosto.

Depois do fogo, a preocupação das chuvas

A cidade, depois dos dias de calor, fumo e do barulho constante das sirenes, começa também a erguer-se. Aqui e ali, nos terrenos abandonados, há homens a limpar mato e alguns proprietários começaram já as obras de demolição dos esqueletos das casas, outros chamaram os peritos dos seguros e empresas de construção para saber quanto custará voltar a construir. O Governo Regional e a Câmara do Funchal estão em reuniões técnicas com o Governo da República e já anunciaram que vão ceder material para a reconstrução.

Com a proximidade da época das chuvas, a grande preocupação é agora a instabilidade das escarpas e dos terrenos. O fogo destruiu a vegetação, o calor das chamas fragilizou as rochas e ninguém sabe o que irá acontecer em caso de chuva torrencial. Além da memória daquelas 48 horas, das marcas que deixou nas famílias das três vítimas e dos muitos desalojados, as consequências dos incêndios irão continuar a sentir-se por muitos meses no Funchal. E vão além das manchas negras na encosta, as que se avistam do cais, onde Geraldo e Maria José vieram falar e tirar a fotografia.