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Irmão mata irmão num treino de esgrima e 19 anos depois ganha medalha nos Jogos Olímpicos

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Capa da revista quinzenal "Tiro e Sport", de 31 de julho de 1909, em que é dada a noticia dos vencedores do Campeonato Nacional de Espada e a morte de Alexandre Paredes. Na foto a equipa nacional de esgrima, vendo-se Alexandre no meio, em pé, e seu irmão Frederico, à sua frente, sentado

Hemeroteca Digital, sítio da Hemeroteca Municipal de Lisboa

Frederico Paredes, atirador, como chamam aos praticantes de esgrima, treinava numa esplanada de Lisboa com um dos seus irmãos mais velhos quando o azar misturado com a imprudência causou a morte de Alexandre Paredes. Foi num mês de comemorações familiares, dois dias antes fizera anos o pai, na véspera a mãe, numa época em que a arte de jogar a espada anima festas e a República está a um ano de destronar o rei

O mestre disse-lhes para não irem treinar na esplanada da fábrica de cerveja, mas os irmãos Paredes fizeram-se moucos. São dois campeões da espada. A dada altura, o mais velho desafia o mais novo: “vamos fazer os três toques?” Num piscar de olhos, começam a esgrimir fortemente. Frederico, que há de ganhar uma medalha olímpica, leva o entusiasmo ao peito de Alexandre, perfura-o 12 centímetros. Em oito horas, o ferimento passará de “pouco grave” a fatal. E o caso a um segredo de família.

Alexandre da Cunha Paredes tem 23 anos, é mais velho três do que Frederico. Aos 18, conquistara o campeonato de espada organizado pelo Real Ginásio, que dará origem ao Ginásio Clube Português. Mas o mais novo não lhe fica atrás, com a mesma idade sagrara-se campeão amador de espada nacional, e nos últimos torneios começa a tomar-lhe a dianteira. “Era o mais terrível competidor do seu irmão”, dirão os jornais, referindo-se a Alexandre, que terminara a 17 de agosto de 1909 o tirocínio para alferes na Escola Prática de Infantaria, onde fora o primeiro na esgrima.

Há dois meses, os irmãos tinham estado na mesma esplanada, a participar na “Semana de Armas”. Frederico ficara em primeiro no Campeonato Nacional de Espada e Alexandre em segundo, classificação que este também obtivera no campeonato de sabre, ao lado de Jaime. Daí a dias, queriam fazer mais um brilharete na “Semana de Outono”, nos jardins do Sporting Clube de Cascais, e lutar pela taça oferecida pela duquesa de Ávila e Bolama e pela medalha de ouro que Alexandre já uma vez conquistara. Queriam sair de novo vencedores e, na certa, fazer figura perante as moças casadouras com quem dançariam na noite da entrega de prémios, como sucedera três dias atrás, no Casino Internacional, após o Campeonato de Espada do Estoril.

Recorte da revista "Tiro e Sport". Na foto, que mostra os intervenientes no Campeonato de Sabre, vê-se Jaime Paredes (o segundo a contar da esquerda, sentado) e o irmão Alexandre, o primeiro em pé (a contar da esquerda)

Recorte da revista "Tiro e Sport". Na foto, que mostra os intervenientes no Campeonato de Sabre, vê-se Jaime Paredes (o segundo a contar da esquerda, sentado) e o irmão Alexandre, o primeiro em pé (a contar da esquerda)

Hemeroteca Digital, sítio da Hemeroteca Municipal de Lisboa

Pouco antes do sucedido naquele fim da tarde de 30 de setembro de 1909, na Cervejaria Jasen, Frederico batera-se com outro dos seus irmãos mais velhos, o Jaime, de 34 anos, veterinário, militar, mais habituado ao sabre, homem forte que se gabava de levantar dois pesados bidões com as pontas dos dedos e que há de dedicar-se ao hipismo. No jogo da espada, ficaram ambos feridos, ligeiramente, o mais novo num braço e o mais velho num sovaco. Os três fazem parte da prole de dez — sete rapazes e três raparigas — do médico António Augusto de Campos Paredes e de Maria Augusta Soares da Cunha.

Jaime não assistiu ao assalto em que a “ponta da espada — contará 'O Século' —, apanhando o infeliz Alexandre no lado direito do peito e resvalando-lhe pelo músculo peitoral, cravou-se-lhe por tal forma, que ele teve que fazer um esforço para a arrancar do ferimento, caindo para trás, a esvair-se em sangue, amparado pelo tenente Alvares”, o único espectador do acidente que de pronto chama um trem para levar dali os dois atiradores.

História da Fábrica de Cerveja Jansen. A empresa do dinamarquês Henry Jansen quando passou a ocupar o antigo pátio dos duques de Bragança. Além de dar para a rua do Alecrim (imagem reproduzida), a esplanada tinha uma entrada pela António Maria Cardoso, rua em que, anos mais tarde, a ditadura instalaria a sede da sua polícia política, a PIDE

História da Fábrica de Cerveja Jansen. A empresa do dinamarquês Henry Jansen quando passou a ocupar o antigo pátio dos duques de Bragança. Além de dar para a rua do Alecrim (imagem reproduzida), a esplanada tinha uma entrada pela António Maria Cardoso, rua em que, anos mais tarde, a ditadura instalaria a sede da sua polícia política, a PIDE

captura de ecrã

O mais velho dos três já saíra do antigo pátio dos Duques de Bragança, que no final do século XIX se transformara na esplanada da Companhia da Fábrica de Cerveja Jansen. Aqui se fabrica e “vende a miúdo” a “belíssima Pilsener”, além de “xaropes, licores, gasosas, soda water e outros refrigerantes”, como se lê os anúncios à casa, que também proporciona concertos e variedades todas as noites. Cinco anos depois do acidente, no salão de “decoração cuidada”, reunir-se-á o grupo fundador da revista “Orpheu” e, em 1936, a cervejaria passará a ser “O Retiro da Severa”, lembra José Leite no site “Restos de Colecção”, dedicado à preservação da memória nacional.

O MESTRE DISSERA QUE, “ao menos, não usassem o ‘point d’arretet’”

António Martins, impulsionador do esgrima em Portugal e mestre dos irmãos, desaconselhara-os a esgrimirem naquele dia, na esplanada, “pretextando-lhes o mau tempo que fazia, e recomendando que, ao menos, não usassem o ‘point d’arretet’”, a pequena peça de metal com quatro pontas que se encaixa na espada, para tornar mais evidente o toque no adversário e cujo uso, “diga-se de passagem, não é permitido nos treinos que se fazem no Centro Nacional de Esgrima”, segundo o relato do “Diário de Notícias”.

Alexandre ainda conseguiu erguer-se e, amparado pelo irmão e pelo tenente Alvares Pereira, subir os degraus que davam da esplanada para a rua António Maria Cardoso (o salão tinha entrada pela rua do Alecrim). É metido na carruagem de aluguer e levado para casa, a uns dez minutos de distância, na rua da Oliveira ao Carmo. “Frederico está louco”, dirão os jornais. E “a inspirar os mais sérios cuidados” ficará também a sua irmã Margarida, de 30 anos, que lhe fará o penso, depois de o pai prestar os primeiros socorros. Pelas 18h30, questionada pelo “Diário de Notícias”, a família dirá que o “ferimento não apresenta gravidade maior”.

De um momento para o outro, o estado de Alexandre piora. “A pobre mãe do ferido chorava lancinantemente e fazia dó o seu estado, passando-se a noite em sustos”, escreverá o jornal “O Século”. Maria Augusta fizera na véspera 60 anos de idade, e António completara dois dias antes os 69; já perderam dois filhos, quando mais jovens. Em 1878, Álvaro morrera com apenas nove meses e em 1891 perecera Emília, com quatro anos. O médico decide chamar alguns colegas, entre estes Manuel Maria Bordalo Pinheiro, irmão dos artistas. A junta médica conclui que a espada “ofendera a pleura, mas não intercetara o pulmão”. Pelas duas horas e meia da madrugada, cheio de febre, “Alexandre falecia, com o corpo muito inchado e o rosto completamente desfigurado”, escreveria F. C. na edição de 24 de outubro de 1909, no jornal brasileiro “O Paiz”.

Recorte da revista "Tiro e Sport": noticias de esgrima e, na foto, o júri do campeonato nacional de espada de julho de 1909, na esplanada Jansen, em que se vê o mestre António Martins, sentado, no extremo direito

Recorte da revista "Tiro e Sport": noticias de esgrima e, na foto, o júri do campeonato nacional de espada de julho de 1909, na esplanada Jansen, em que se vê o mestre António Martins, sentado, no extremo direito

Hemeroteca Digital, sítio da Hemeroteca Municipal de Lisboa

Frederico Paredes, entre lágrimas, conta nessa mesma madrugada ao jornal “O Dia” que estavam a treinar para o campeonato de Cascais e que, a dada altura, o mais velho o desafiara: “vamos fazer os três toques?” Era como se tivesse dito vamos esgrimir a sério, já que as regras ditam esse número de toques por assalto. Conta ainda que o irmão foi o primeiro a dar-lhe um toque no braço. Passado tempo, os dois, “admiravelmente émulos um do outro”, encontram-se “num ‘coup de double’, isto é, contacto simultâneo das espadas”, conta o periódico confirmando o uso da ‘point d’arrete’.

A estocada foi muito violenta, mas Frederico, “como todos os esgrimistas nestes assaltos inofensivos, julgava encontrar uma defesa”… Não aconteceu, “o botão da arma perfurou o 'gilet' do irmão e intercetou o peito nada menos de 12 centímetros”, explicará “O Dia”, o único jornal a chegar à fala com o esgrimista e que será copiado por todos os outros.

Quatros dia antes da tragédia, Frederico ficara em primeiro lugar na taça Monte de Estoril e Alexandre em segundo, num torneio de espada muito concorrido, onde “os esgrimistas fizeram belíssimos assaltos de efeito, que despertaram entusiasmo na assistência que acompanhou com muito interesse todos os combates, devendo notar-se a animação das senhoras que ocupavam as cadeiras da primeira fila, dispostas no recinto reservado”, refere a revista “Occidente”, a 10 de outubro de 1909, na mesma edição em que dá notícia da “grande desgraça que fulminou uma família e não menos consternou todos os seus amigos”.

UM DOS TRÊS SEGREDOS DA FAMÍLIA CUNHA PAREDES

No dia 1 de outubro de 1909 e seguintes, os irmãos Paredes foram notícia nos jornais não pelos seus feitos no esgrima, como sucedia há seis anos, mas pela infelicidade de um se tornar fratricida. Apesar do caso ter sido muito falado por toda a Lisboa e alvo dos periódicos, a família calou o assunto. “É um dos três segredos dos Cunha Paredes”, diz um sobrinho-neto dos antigos esgrimistas que o Expresso encontrou na ilha da Madeira, onde representa a casa real portuguesa e preside ao Rotary Club do Funchal.

O arquiteto João Carlos Fino Igrejas da Cunha Paredes, de 60 anos, desconhece os pormenores da história passada com os irmãos do seu avô António, o sexto dos filhos do médico que, na altura, era bastante conhecido na capital, mas nascera e formara-se em Coimbra. António Augusto de Campos Paredes ainda não tinha trinta anos quando foi exercer para Góis, onde casou com uma menina de boas famílias, mais nova nove anos, e de onde teve de fugir para não levar um tiro de caçadeira de um marido ciumento, furioso por o doutor, já casado e com quatro filhos, pelo menos, ter um caso com a sua mulher.

O arquiteto João da Cunha Paredes, sobrinho-neto dos irmãos Paredes, numa rua do Funchal quando seguia com Duarte de Bragança, numa rua do Funchal, durante o Madeira Film Festival que ali decorreu no passado mês de maio

O arquiteto João da Cunha Paredes, sobrinho-neto dos irmãos Paredes, numa rua do Funchal quando seguia com Duarte de Bragança, numa rua do Funchal, durante o Madeira Film Festival que ali decorreu no passado mês de maio

DR

Campos Paredes, filho do juiz Manuel da Cunha Paredes, que foi presidente do Tribunal da Relação de Lisboa em 1870, casou aos 28 anos, em janeiro de 1869, e a primeira filha do casal, Maria Dagmar, nasceria em outubro. A meio desse ano, o seu irmão Manuel da Cunha Paredes júnior, estudante do quinto ano de medicina, tornou-se seu cunhado, ao matrimoniar-se com uma irmã de Maria Augusta. Os filhos do médico nasceram com uma cadência de dois anos, mais ou menos. E até Margarida vir ao mundo em 1879, serão todos batizados em Góis, tendo os restantes cinco já nascido em Lisboa, provavelmente.

Na capital, têm ótimas relações, a descrição que os jornais fazem sobre o velório na residência da família e o funeral no cemitério dos Prazeres são prova disso. Até o rei Manuel II, no trono há pouco mais de um ano, desde que seu pai dom Carlos e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assinados no Terreiro do Paço, lhes faz enviar um telegrama de condolências de Sintra, onde se encontra a passar uma temporada no Palácio da Pena: “Sua Majestade El-rei, meu Augusto amo, ordenou-me que em seu nome enviasse a v. exa. a expressão de todo o seu sentimento pela desgraça que tanto o aflige - Conde de Tarouca, camarista de serviço.”

DESVENDANDO MAIS UM… e o ESTIVADOR QUE FICOU COM UM DEDO DO PÉ NA MÃO

O rapaz mais velho, Carlos Eugénio, na altura com 38 anos e secretário da Associação de Melhoramentos da Amadora, seguirá a carreira autárquica. O mais novo, José Paredes, nascido em janeiro de 1891, será o único a seguir as pisadas do pai. Médico, pioneiro na ortopedia, aceitará ser o primeiro diretor do Serviço de Traumatologia dos Hospitais Civis de Lisboa, quando este deixa de ser o “anexo de fraturas” do Hospital de S. José, mas continua numas águas-furtadas sem quaisquer condições. O doutor Paredes terá sido o responsável pelo primeiro transplante em Portugal, ao implantar, na mão de um estivador, um dedo do pé, para substituir aquele que o homem perdera no trabalho, usando uma técnica que observara na I Guerra Mundial.

É o sobrinho-neto, que nasceu em Angola e é cônsul honorário do Brasil no Funchal, quem recorda este feito, lembrando ainda que o “tio José” faz parte de mais um segredo de família. O médico, aventureiro como o pai e os irmãos, apesar de nunca ter chegado a casar-se, teve uma ligação com uma namorada, dando, assim, origem a outro ramo. Só que, na altura, “chamava-se amante” e os parentes não aceitaram a situação. José não negará a sua descendência, mas os Cunha Paredes, apelido com mais de 250 anos, vão-se perdendo uns dos outros.

Concorrentes à Taça da Penha Longa, em 1929. Frederico Paredes, já depois de medalhado olímpico, é o quarto a contar da direita.

Concorrentes à Taça da Penha Longa, em 1929. Frederico Paredes, já depois de medalhado olímpico, é o quarto a contar da direita.

“Documento cedido pelo ANTT” Título: concorrentes à taça conde de penha garcia Código de Referência: PT-TT-EPJS-SF-001-001-0014-0937D

Do episódio de esgrima passado há 107 anos, João da Cunha Paredes tem “ecos muito distantes”, já que raramente se tocava no assunto, e soube mais “fora da família do que dentro”. Conta que antigamente “muita gente se lembrava” e foi sabendo do sucedido porque lhe perguntavam “é da família do Frederico Paredes que matou o irmão?” O arquiteto julgava até que Alexandre teria sido atingido no baço. Mas sabe que o seu tio-avô Frederico “largou a espada” durante uns dez anos.

Só em 1920, com efeito, torna a haver registos de Frederico. É quando integra a equipa que vai aos Jogos Olímpicos de Antuérpia, na Bélgica. Fica em quarto lugar. O mesmo acontecerá quatro anos mais tarde, ao participar nas olimpíadas de Paris, dir-se-á por ter sido prejudicado pelos árbitros. Mas a sua dedicação e dos seus companheiros de esgrima irá dar frutos na Holanda, quando ainda o dicionário de português não incorporou o vocábulo desporto, e as Olimpíadas “são a verdadeira loucura internacional do sport 'ao máximo', o sport dos 'records', o sport do 'esforço absoluto’”.

As palavras leem-se no “Diário de Lisboa” de julho de 1928. Justifica-as o jornal dizendo que “os resultados atingem o verosímil e já levaram um célebre professor de educação física a profetizar que os Jogos Olímpicos têm de acabar, pela impossibilidade física de se atingirem melhores tempos e melhores distâncias, ou têm que demonstrar que, atingidos os máximos, a humanidade, a manter-se os jogos, começará a mostrar a sua decadência física”. Que diria este “profeta” se tivesse visto Usain Bolt a bater o recorde dos 100 metros com 9,58 segundos, ou o nadador Michael Fred Phelps a ganhar 28 medalhas, mais do que Portugal obteve, desde a sua primeira participação nas olimpíadas em 1912 até às do Rio de Janeiro, onde a judoca Telma Monteiro conquistou a 24.º para o país.

Numa foto de 1929, estão quatro da equipa que ganhou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos: Jorge de Paiva (1); 2 - Frederico Parede (2); Henrique da Silveira (4) e João Sassetti (6). Veem-se ainda, António Mascarenhas (3) e Rui Mayer (5)

Numa foto de 1929, estão quatro da equipa que ganhou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos: Jorge de Paiva (1); 2 - Frederico Parede (2); Henrique da Silveira (4) e João Sassetti (6). Veem-se ainda, António Mascarenhas (3) e Rui Mayer (5)

“Documento cedido pelo ANTT” Título: Esgrimistas portugueses Código de Referência: PT-TT-EPJS-SF-001-001-0014-0757D

Depois de enumerar os 22 atletas que constituíam a representação portuguesa em Amesterdão, o “Diário de Lisboa” questionava: “Fará ela erguer alguma vez a bandeira de Portugal no Mastro de Honra, como a fez erguer duas vezes no foot-ball?” A equipa de esgrima fará: Frederico Paredes, Mário de Noronha, Paulo d'Eça Leal, Jorge de Paiva, João Sasseti e Henrique da Silveira ganharão a medalha de bronze, ficando atrás dos habituais vencedores, a Itália e a França. Quanto aos futebolistas, não trouxeram medalhas, o que aconteceu foi que a seleção nacional, no torneio realizado um mês antes, ganhou os dois primeiros jogos, contra o Chile e a Jugoslávia, e só não conseguiu vencer o Egito, segundo o jornalista Rui Tovar, especialista em desporto, a quem o Expresso perguntou de que vitórias falaria o jornal há 88 anos.

E, POR ÚLTIMO, UMA SURPRESA

Do professor Frederico Paredes, que em 1930 dará nome a uma taça de esgrima, encontra-se o último registo na Torre do Tombo, numa foto de “O Século”: em 27 de outubro de 1938, ao lado do primeiro comissário nacional da mocidade portuguesa Francisco Nobre Guedes e do embaixador em Madrid Pedro Teotónio Pereira, antes de viajar para Espanha, com um grupo da organização inspirada na juventude hitleriana, durante a guerra civil, quando as tropas de Franco se aproximam da capital. Solteiro, como as suas duas irmãs, morreu em 4 de novembro de 1972, aos 85 anos, em Lisboa. Margarida foi a última a partir na sua casa paterna do Carmo, com 95. A mãe morrera em 1930, o pai sete anos antes, e com eles quase que se esfumava o terceiro segredo da família.

João da Cunha Paredes diz ter sabido há muito pouco tempo que o guitarrista Carlos Paredes era seu primo, neto de António Augusto… A história ainda está por clarificar, mas parece que o pai do famoso músico, também ele compositor e intérprete de guitarra portuguesa, seria filho ilegítimo do médico fugido de Góis e que, por isso mesmo, e por meter o meio artístico, a família escondeu sempre o segredo bem escondido, pelos vistos, este mais do que os outros.