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A loja de cabelo postiço que era um banco de bairro

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Banco de Portugal emitiu um alerta sobre a loja Néné Fashion, situada no centro comercial junto à estação de comboios de Queluz

Luis Barra

Hawala Esquema financeiro foi detetado pelo SIS e travado pelo Banco de Portugal. Negócio semelhante fechado em 2015

Hugo Franco

Hugo Franco

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

São quatro andares de lojas fechadas ou quase às moscas. O cheiro a mofo, a luz mortiça, as infiltrações na parede não enganam: o centro comercial de Queluz, junto à estação de comboios, já conheceu melhores dias. Perto da entrada, a Néné Fashion é o comércio que atrai mais clientela. No pequeno cubículo vendem-se extensões de cabelo postiço a 300 euros, cremes alisadores, champôs e vestidos africanos. Paredes-meias funciona um cabeleireiro sob a mesma gerência. Mas havia mais para lá do que é visível ao público. Na pequena loja de Queluz terão sido transacionadas largas quantias de dinheiro, empréstimos e depósitos, com destino à Guiné-Bissau, num esquema que quase não deixa rasto, sem recibos, comprovativos ou remessas de notas, e que já motivou um alerta do Banco de Portugal. “Utilizavam o hawala, um sistema financeiro informal e ilegal”, que permite fugir a comissões bancárias e impostos, conta ao Expresso fonte da investigação.

Na loja, Jorge, o gerente de 24 anos, vai negando tudo com a cabeça. “Há duas semanas uns agentes entraram por aqui a dentro, desarrumaram a roupa toda e levaram da caixa uns 80 ou 200 euros, já não sei bem”, queixa-se o guineense. Sobre as acusações não dá respostas diretas. “Isso é o que a polícia diz... Há por aqui muita inveja da concorrência”, argumenta. O jovem garante que a mãe, Néné Quadé Sanhá, proprietária do negócio de beleza, é que poderia dar mais informações, mas não está nem deverá chegar tão cedo. Foi ao banco.

Vários clientes entram e saem com rapidez. Uma mulher leva um creme sem pagar e diz que faz contas mais tarde. Um casal pergunta por Nené — é só com ela. Dois rapazes sentam-se ao lado da pequena máquina registadora e nada dizem.

Jorge lá vai contando que o pai e os irmãos vivem em Bissau. Por ali, em Queluz, só fala da crise. “Deviam era escrever sobre este centro, que está cada vez mais f..., lixado, desculpem a linguagem”. Um estrondo perto da loja interrompe-lhe o discurso. Uma pequena estrutura do café vizinho desabou, sem atingir ninguém. “Estão a perceber? E ainda temos de pagar uma renda alta.”

Um salto à Western Union

Na semana passada, o Banco de Portugal lançou um alerta oficial contra Néné Quadé Sanhá, avisando que a cidadã guineense não está habilitada “a prestar serviços de pagamento em Portugal”, nomeadamente “de envio de fundos do e para o exterior, ou qualquer outra atividade financeira reservada às instituições sujeitas à supervisão do Banco de Portugal”.

Não é o primeiro caso de sistema hawala desativado em Portugal. Em maio de 2015 o minimercado Babok, em Odivelas, e o seu proprietário Joãozinho Urande Biai, foram alvo de um alerta idêntico da entidade reguladora, também por transações monetárias ilegais para a Guiné. E haverá outras lojas semelhantes à de Queluz sob monitorização. O Expresso sabe que nos últimos meses SIS e Banco de Portugal alimentam uma “partilha regular de informações” sobre o funcionamento deste esquema em território nacional.

“No hawala não há envio físico de dinheiro. Há um depósito de uma moeda num país e o pagamento noutro país, com a moeda local”, explica uma fonte próxima da investigação. Sempre que algum cliente do cabeleireiro queria enviar dinheiro para a Guiné só tinha de o entregar a Néné, que ganharia uma comissão pelo serviço. Depois, o processo seria muito rápido: um telefonema ou um e-mail para Bissau faria com que o lado de lá do negócio disponibilizasse um valor equivalente, em moeda local, ao beneficiário indicado, sem que qualquer quantia ‘viajasse’ entre os dois países. O mesmo tipo de serviços financeiros seria disponibilizado na Guiné.

O sistema baseia-se na confiança e na existência de um código só conhecido entre os clientes e os operadores, e que serve de garantia a todas as partes envolvidas.

Ao contrário do que sugere o gerente Jorge, nenhum concorrente os denunciou. A investigação iniciou-se depois de, “há alguns meses”, terem sido detetadas transações ilegais pelas autoridades. Neste momento ainda se tenta apurar o total do fluxo monetário que terá passado pelo cabeleireiro — um processo que pode vir a ser longo. “Para já, Néné Quadé Sanhá foi alvo de um aviso do Banco de Portugal. Mas pode ser aberto um processo de contraordenação”, diz uma fonte ligada ao caso. Ou seja, a família guineense pode ser multada e até indiciada pelo Ministério Público por crimes económicos.

Ao final da manhã, Néné surge na rua, em passo apressado. Jorge vai ao seu lado. Sorridente, a guineense não quer falar sobre o alerta que a associa a atividade financeira ilegal. Mas solta uma frase, como que para provar que os tempos de banqueira informal do bairro já pertencem ao passado: “Vou agora ali resolver uns assuntos à Western Union.”