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Capuchinho vermelho

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Rui Ochôa

Era esta a alcunha de Margarida de Sousa Uva nos tempos de estudante de Germânicas na Faculdade de Letras de Lisboa, já então militante do MRPP onde viria a conhecer Durão Barroso, com quem se casou, teve três filhos e que passaria a seguir até ao fim da sua vida, esta quinta-feira, vítima de cancro. Recorde este seu perfil publicado no Expresso em março de 2002, na semana em que o marido foi indigitado primeiro-ministro

Ninguém diria que já tem 46 anos. Mas quem acredita no destino dirá que o dia de nascimento - 25 de Novembro - marcou a vida política de uma mulher que integrou o mais "anti-social-fascista" dos movimentos de extrema-esquerda e que anos mais tarde estaria ao lado do vencedor das eleições que abalaram o PCP. Margarida Sousa Uva chegou à política em 1974.

Conta-se que entrou no MRPP porque o então líder Saldanha Sanches a mandou recrutar depois de reparar na sua beleza. E se ele hoje não se recorda do motivo, mantém pelo menos viva a memória de que "a Guida Uva" era uma cara bem bonita, sobressaindo mesmo na organização de extrema-esquerda que então tinha as mais bonitas militantes da área M-L.

Curiosamente, incumbiu a sua mulher, Maria José Morgado, de aliciar a jovem estudante de Germânicas a aderir à Federação dos Estudantes Marxistas Leninistas, braço estudantil do MRPP. Na mesma época, Maria José tentava captar para as suas hostes um jovem estudante de Direito de nome José Manuel e apelido Durão Barroso. As reuniões da FEML não serviram, pelos vistos, apenas para tarefas em defesa do proletariado e sob o olhar de Mao começou o namoro que haveria de levar ao casamento em 1980. Por essa altura já estava em banho-maria o sonho de leccionar na Faculdade de Letras, convite que declinou por ter preferido o de José Manuel para o acompanhar como bolseiro numa instituição suíça. Com ele estudou no Instituto de Estudos Europeus e ganhou o gosto pelo esqui.

Foi em Letras que se estreou a "falar às massas". Havia quem a conhecesse por "Capuchinho Vermelho", uma alcunha inspirada num agasalho e que reflectia a contradição do seu discurso: conseguia defender, num tom sedutor, as posições mais extremistas. Não citava O'Neill, mas deu-lhe experiência para estar à vontade, em Dezembro passado, em Oliveira de Azeméis, onde subiu pela primeira vez a uma tribuna laranja. Ao discursar para sociais-democratas já não sentia as angústias que a sua origem de classe lhe causava na juventude, quando se desdobrava em autocríticas, penitenciando-se por desvios burgueses - como aquele que teve quando foi a casa lavar o cabelo e se atrasou na redacção de um artigo para o "Guarda Vermelho". No apoio ao PSD manteve o radicalismo da juventude, que lhe valeu dois dias de prisão à ordem do COPCON, em Alcoentre e Tires. Passava as passas do Algarve com o pai, então militante do CDS. No almoço de Tondela, recitou o Sigamos o Cherne!, com o mesmo empenho que tinha nas reuniões de 1975. Desta vez teve melhor sorte.

Margarida de Sousa Uva com Durão Barroso nos corredores da Comissão Europeia, entre Martin Schulz e Herman Van Rompuy

Margarida de Sousa Uva com Durão Barroso nos corredores da Comissão Europeia, entre Martin Schulz e Herman Van Rompuy

Rui Duarte Silva

Mãe de três filhos, senhora de muitos "hobbies", entre os quais a fotografia, estuda pintura (elege Matisse, Balthus, El Greco, Graça Morais, Paula Rêgo) depois de ter tentado o jornalismo no "Semanário" e de ter passado pela Comissão dos Descobrimentos. Cozinheira de ementas alentejanas, gosta de reunir-se com os amigos à volta daqueles tachos. Bebe café na Biarritz vestindo calças de ganga sem bainha. A informalidade, em que aposta, ajuda-a a passar despercebida e não deixa adivinhar a enorme fé católica (interrompida nos anos quentes), cultivada no Colégio do Bom Sucesso e que um dia a fez acreditar que seria missionária.

Agora, a missão é outra. Adivinha-se-lhe a secreta esperança de não ter de recordar ao marido que O'Neill (um dos poetas que cultiva, ao lado de Ramos Rosa, Sophia, Pessoa, Ruy Belo e Herberto) também escreveu:

Tanta gente,/ tantos enredos/ até ficarmos para sempre/ quedos!/ Para sempre? Não!/ Que outros (mínimos) seres/ já trabalham na nossa remoção

Artigo publicado na edição do EXPRESO de 23 março 2002, tendo sido mantida a grafia de então

  • Uma mulher sem “preconceitos”

    Há três anos, numa altura em que a coadoção dividia os deputados em plena Assembleia da República, Margarida de Sousa Uva foi ao Parlamento participar numa conferência sobre apoio à criança, onde saiu em defesa da aprovação dessa lei. No dia da morte da mulher de Durão Barroso, o Expresso republica um trabalho sobre esses tempos