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Nice: as cicatrizes de um português

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No total, quatro cidadãos portugueses ficaram feridos no ataque terrorista do sul de França

Jean-Pierre Amet / Reuters

Um mês após o atentado, Mickael, filho do português atropelado em Nice, conta o pesadelo do sobrevivente

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Um camião do lixo entrou desgovernado, sem travões, pela Promenade des Anglais. Esta foi uma das primeiras frases que Mickael Soares ouviu da mãe pelo telemóvel, ainda antes da notícia do ataque terrorista em Nice, no sul de França, ter chegado a Portugal. Nesses primeiros minutos de “aflição”, “choque” e “incertezas”, Lurdes, de 50 anos, estava longe de imaginar que ao volante do veículo pesado estava Mohamed Bouhlel, um “soldado” com uma missão: matar o maior número de pessoas inocentes em nome de uma organização terrorista: o Daesh.

A portuguesa poderia ter sido mais uma das 85 vítimas mortais do franco-tunisino, se não tivesse sido empurrada pelo marido, António Soares, que se apercebeu a tempo do camião que seguia aos ziguezagues, e a grande velocidade, em direção ao local da marginal onde se encontrava o casal, que tinha acabado de assistir ao fogo de artifício do Dia da Bastilha. “O meu pai salvou a minha mãe mas não conseguiu escapar do camião”, conta Mickael Soares, de 25 anos, que no dia 14 de julho estava a dois mil quilómetros de distância dos progenitores.

Nessa noite, não conseguiu pregar olho. Os telefonemas entre a família e os amigos multiplicaram-se. A boa notícia é que os pais estavam vivos, a má é que o pai tinha ficado ferido com alguma gravidade na perna esquerda (“fraturas em três locais diferentes da tíbia”) e no pé direito (“cortes dos dois lados dos dedos”). “Não fui suficientemente rápido a tirar a perna”, terá relatado António Soares minutos depois do ataque que feriu mais três portugueses sem gravidade.

Um mês após a tragédia que matou 85 pessoas de várias nacionalidades que festejavam o Dia da Bastilha, o emigrante que trabalha há seis anos em Nice como ladrilhador não quer falar com os jornalistas. “Eles passaram por muito. Foram momentos duros”, justifica o filho. À família, António Soares confessa não ter “a certeza absoluta” se foi atropelado por uma das rodas ou outra parte do veículo. Há muitos espaços em branco ainda por preencher na memória, nos minutos seguintes à tragédia. “Foi tudo muito rápido. A minha mãe, por exemplo, nem se lembra como foi parar ao local onde se encontrava depois de ser empurrada pelo meu pai”, acrescenta Mickael Soares.

Morte espalhada pelo chão

Três pessoas festejavam o dia da independência de França, mesmo ao lado do casal português. Num minuto estavam a rir, a falar, a olhar para o céu coberto com a luz do fogo de artifício. No outro, eram três corpos caídos no chão, sem vida, no meio de tantos outros. Este foi para António e Lurdes o momento mais traumático de todos os que se sucederam em catadupa. “Os meus pais, que tinham ido sozinhos à festa, não os conheciam. Mas aquelas três mortes marcaram-nos muito”, revela o filho.

Apesar dos ferimentos na perna, António teve de esperar uma hora para ser assistido pelas equipas médicas que chegaram ao local. Na lista de prioridades estavam as pessoas que corriam risco de vida e foram alvo de várias manobras de reanimação, umas com sucesso outras nem por isso. No meio daquele “cenário de horror”, o casal português teve o apoio de um grupo de ingleses que também escapou ao atropelamento. “Entre os sobreviventes houve um grande espírito de solidariedade”, salienta Mickael Soares, que vai reconstituindo os episódios como se de um puzzle se tratasse. “Foi um milagre sobreviver em Nice”, remata.

Quase um mês depois de ter estado internado num hospital, António Soares foi operado à perna. A cirurgia correu bem e esta semana foi transferido, juntamente com a mulher, para uma casa de repouso. O filho viajou recentemente para França e visitou-os quando o pai ainda se encontrava no hospital. Gostou do que viu mas sabe que ainda faltam muitos passos até que a história tenha um final 100% feliz. “O meu pai está a reagir bem mas tenta dar uma imagem de força, muito por causa da minha mãe que está muito afetada psicologicamente”, conta.

O casal está a ter acompanhamento psicológico e a ser medicado. “Têm por vezes dificuldade em dormir por causa do que aconteceu na marginal de Nice. Receiam que tudo possa voltar a acontecer”, revela o filho que teme que a recuperação psicológica seja mais difícil do que a física.

São ainda muitas as reticências quanto ao futuro do pai. Neste momento, António Soares tem um ferro colocado entre o joelho e o tornozelo na perna esquerda. Os médicos já lhe deram a certeza de que “vai estar um mês e meio sem meter o pé no chão” e não garantem que possa voltar a trabalhar, pelo menos como ladrilhador já que se trata de uma atividade exigente do ponto de vista físico.

A família não tem queixas a registar das autoridades portuguesas, que “vão acompanhando o caso”. E ainda não ponderaram se avançam com algum tipo de processo legal contra o Estado francês. Estão neste momento a “tentar perceber” o que vão fazer as outras vítimas. “Estamos num impasse. Nem sequer sabemos se temos direito, ou não, a alguma indemnização em caso de atentado.”

Mickael Soares, que é vendedor imobiliário em Ourém, preferia que o pai regressasse a Portugal, país onde considera que estará mais seguro do que em França. “Quero acreditar que não vai voltar a acontecer um atentado em Nice. Mas hoje tenho a noção de que qualquer ponto do mundo pode ser alvo dos extremistas islâmicos.”

Desde o último dia 14 que passou a olhar para o fenómeno com mais atenção e tem até a sua própria teoria: de que o ataque estava planeado para o domingo anterior, caso a França tivesse vencido a final contra a seleção de Portugal. Se isso acontecesse estariam nas ruas de Nice ainda mais pessoas do que no Dia da Bastilha. “O terrorismo bateu à porta da minha família”, diz, com tristeza. Ainda assim não tem grandes dúvidas de que os pais tiveram “muita sorte” e o que lhes aconteceu às 22h40 daquela noite “foi um milagre”, no meio de tanta mortandade. Antes de terminar a conversa, deixa um desabafo: “Eles estão vivos.” E isso é bom.