Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A tragédia dos refugiados: um dia vão ouvir-nos pedir perdão

  • 333

FOTO GETTY

Correspondente sobre migração do “The Guardian”, Patrick Kingsley esteve em 17 países e entrevistou dezenas de refugiados, traficantes, passadores, agentes da polícia, guardas costeiros, marinheiros, ativistas e voluntários. Os relatos desses encontros dão corpo a “A Nova Odisseia: A História da Crise Europeia dos Refugiados”, um livro impressionante que, mais do que uma chamada de atenção, é um alerta.

Helena Bento

Jornalista

No outono de 2015, quando já não era possível continuar a fingir que a Grécia e a Itália podiam lidar sozinhas com os milhares de migrantes que todos os dias chegavam à Europa, a maioria dos governos europeus decidiu finalmente assinar um acordo para retirar 120.000 migrantes dos Estados da linha da frente e dividi-los pelos restantes países do continente. O entendimento foi aplaudido por Bruxelas, que o encarou como uma importante vitória. Depois de largos meses de negociações arrastadas e cimeiras e conferências inférteis, a União Europeia podia finalmente provar aos mais céticos que a solidariedade entre os Estados-membros, um dos princípios fundadores da UE e que muitos julgavam enterrada e bem enterrada, crescia afinal à superfície. Mas o acordo, como se percebeu imediatamente, não passava de uma resposta insuficiente e lamentável. É que esses 120.000 migrantes equivaliam a cerca de um nono do total das pessoas que chegaram a Itália e à Grécia em 2015.

Entretanto, continuavam a ser erigidos muros para impedir os refugiados de entrar na Europa. A Hungria foi o primeiro país a construir uma barreira e fê-lo ao longo do seu flanco sul. Quando as pessoas simplesmente se desviaram e rumaram à Croácia, os húngaros construíram uma segunda barreira ao longo da fronteira com a Croácia.

EM MOVIMENTO Um jovem refugiado sírio transporta os pertences no lado turco da fronteira com a Síria, em Akcakale, província de Sanliurfa

EM MOVIMENTO Um jovem refugiado sírio transporta os pertences no lado turco da fronteira com a Síria, em Akcakale, província de Sanliurfa

FOTO GETTY

Recentemente, falávamos com Rui Tavares, historiador e fundador do partido Livre, sobre a forma como a União Europeia tem respondido à crise dos refugiados. Ex-eurodeputado que teve em mãos, entre outros relatórios, um importante dossiê sobre a reinstalação de refugiados nos Estados-membros, apresentado no Parlamento Europeu, Rui Tavares dizia que se a UE tinha falhado na resposta aos refugiados isso devia-se “muito mais a alguns governos nacionais do que à própria União”. “Já desde 2009, 2010, tínhamos noção de que se estava a formar uma crise. O Parlamento Europeu fez tudo o que podia. E a Comissão, embora tenha cometido muitos erros, também esteve relativamente bem.” Mas que governos foram esses? Rui Tavares refere Alemanha, França, Hungria, Polónia e Bélgica. “A responsabilidade é deles. Foram avisados várias vezes. Quando a Bélgica assumiu a presidência rotativa da UE, questionei diretamente o Governo belga sobre o assunto e disse que, devido ao bloqueio imposto, o país era responsável pela morte de refugiados. Mais tarde, o governo viria a admitir que uma das maiores falhas da presidência belga foi não ter conseguido convencer os Estados-membros a aceitar a reinstalação de refugiados”, referiu ao Expresso Rui Tavares, terminando com uma frase que merece alguma reflexão: “As pessoas culpam a União Europeia como um todo, mas esquecem-se que a União Europeia é, em grande medida, aquilo que os nossos Estados deixam que ela seja”.

GRÉCIA Uma das muitas embarcações que chegaram à ilha de Lesbos nos últimos meses

GRÉCIA Uma das muitas embarcações que chegaram à ilha de Lesbos nos últimos meses

FOTO REUTERS

Em 2015, mais de 850.000 refugiados partiram das costas turcas seguindo, na sua maioria, pela rota dos Balcãs em direção ao norte da Europa, segundo números da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Ou seja, apenas 0,2% da população total da UE, que é cerca de 500 milhões de habitantes. Estes números são citados pelo jornalista britânico Patrick Kingsley em “A Nova Odisseia: A História da Crise Europeia dos Refugiados”, publicado em maio deste ano pelo “The Guardian”, jornal para o qual trabalha, em parceria com a editora Faber and Faber. Em Portugal, foi editado pela Relógio D’Água.

Patrick Kingsley refere estes números para concluir que a crise migratória, “que juntamente com os efeitos tóxicos da implosão da economia grega se tornou uma das maiores ameaças à coesão da União Europeia em toda a sua história”, foi uma crise “desnecessária”, causada em grande medida “pela nossa resposta aos refugiados” e não pelos próprios refugiados. Como é que um continente como a Europa, “que é o mais rico do mundo”, não consegue absorver aquele afluxo de migrantes? Porque é que deixou isso a cargo de países como o Líbano, em que uma em cada cinco pessoas é refugiada? Ou como a Turquia, com a qual assinou um acordo inédito e ilegal que, durante demasiado tempo, não garantiu aos refugiados quaisquer direitos no país, inclusive o direito a trabalhar?

FOTO GETTY

Em 2015, Patrick Kingsley, apresentado como o “primeiro correspondente sobre migração do ‘The Guardian’”, esteve em 17 países pertencentes à rota destes movimentos migratórios e entrevistou e encontrou-se com dezenas de refugiados, traficantes, passadores, agentes da polícia, guardas costeiros, marinheiros, ativistas e voluntários. São precisamente os relatos desses encontros, e de um em especial, com um sírio chamado Hashem al-Souki, que dão corpo ao volume “A Nova Odisseia”. O livro é essencialmente sobre eles. Sobre os refugiados que continuam a arriscar a vida em travessias perigosas no Mediterrâneo, enfiados aos molhos em botes frágeis que viram ao mais leve movimento, e sobre os passadores que os ajudam a fazê-lo, cobrando balúrdios e subornando os guardas costeiros e os grupos que controlam os portos. Sobre os voluntários que, em Itália e na Grécia, os alimentam, sobre as pessoas que lhes dão abrigo e sobre os polícias de fronteiras que os expulsam ou esperam, atrás de altas vedações de rede e arame farpado, que eles simplesmente virem as costas.

Mas é também, ao mesmo tempo, “uma crítica da gestão que a Europa faz da crise migratória e o argumento a favor de como poderia ser mais bem gerida”. Patrick Kingsley defende a reinstalação em massa dos refugiados a partir do Médio Oriente, que, por um lado, funcionará como um incentivo à permanência no Médio Oriente a curto prazo e, por outro, aumentará a confiança e “esperança” dos refugiados relativamente aos processos de reinstalação. Ao mesmo tempo, permitirá à Europa gerir as chegadas de uma maneira mais “metódica”. “Não podemos parar os refugiados; apenas podemos gerir a sua chegada de forma mais organizada.”

NOVA ROTA DOS REFUGIADOS Zeebrugge é o segundo maior porto belga, situado na fronteira com a Holanda e de onde partem ferrys diários com destino a Hull, no norte de Inglaterra

NOVA ROTA DOS REFUGIADOS Zeebrugge é o segundo maior porto belga, situado na fronteira com a Holanda e de onde partem ferrys diários com destino a Hull, no norte de Inglaterra

FOTO GETTY

Patrick Kingsley não poupa nas críticas à União Europeia e aos líderes europeus. A UE, escreve, foi incapaz de persuadir a Turquia a fazer mais para impedir as pessoas de deixarem as suas costas, quer garantindo aos refugiados o direito ao trabalho, quer controlando melhor as suas fronteiras. Já os líderes europeus, imobilizados pela inércia, nada fizeram para que evitar que a Itália, sobrecarregada devido a uma distribuição desequilibrada das responsabilidades, suspendesse uma operação de salvamento tão importante quanto a Mare Nostrum, que só em 2014 impediu que mais de 100.000 migrantes se afogassem no Mediterrâneo. E não só nada fizeram como apoiaram a decisão, alegando que qualquer operação de salvamento cria “um fator de atração não intencional”, incentivando mais migrantes a arriscar a perigosa travessia por mar.

O jornalista britânico critica ainda a resposta insuficiente da UE às redes de traficantes e aponta o dedo a grande parte dos governos nacionais, que durante meses olharam para o lado como se a crise dos refugiados fosse um problema para outros resolverem, e quando finalmente perceberam que não podiam continuar a fingir que não sabiam ou que a tragédia lhes era alheia, disponibilizaram-se para acolher um número “minúsculo e simbólico” de refugiados, mostrando que a solidariedade entre os Estados-membros, esse princípio basilar da União Europeia, continua, afinal, enterrada e bem enterrada.