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“Ter filhos não é fácil, devia haver mais tolerância”

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josé Caria

Entrevista a Gisa Guerra, a médica radiologista e mãe de três filhos

Raquel Moleiro

Raquel Moleiro

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Jornalista

José Caria

José Caria

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Fotojornalista

Pelo segundo ano consecutivo, Portugal regista uma subida da natalidade. No primeiro semestre houve mais 1551 partos, num total de 47.771 nascimentos. Depois de seis anos de instabilidade económica, as famílias que adiaram o projeto parental não podem esperar mais. A fecundidade tem deadline. Portugal continua, porém, muito abaixo da taxa de renovação de gerações (2,1 filhos por mulher). Mas há mais uma boa notícia: estão a aumentar os casais que “arriscam” o terceiro filho, maioritariamente famílias que a crise não afetou mas a quem a carreira profissional (outro travão demográfico) colocou pedras no caminho da decisão. Como Gisa Guerra, 40 anos, e Rafael Dias, 41, pais de José, 9 anos, João, 7 e Catarina, 8 meses.

Num país de filhos únicos, como é vista uma família com três?
Uma enorme exceção, quase um caso raro. Não me sinto como tal, mas é assim que nos veem. Quando me perguntavam ‘É o seu primeiro filho?, e eu dizia que era o segundo não comentavam. Agora digo que é o terceiro e é ‘Bolas! Corajosos!’. É uma diferença brutal.

É uma questão de coragem?
Todos os filhos são arriscar um bocadinho. O tempo é limitado para a carreira e para a família, e a gestão complicada. Tive a Catarina com 39 anos, porque foi uma decisão difícil de tomar. Tínhamos dois rapazes, queríamos muito uma menina, mas mesmo assim não foi uma vontade imediata, mas uma ideia que fomos amadurecendo. Entre o segundo e o terceiro passaram-se seis anos.

O que emperrou a decisão? Foram seis anos em crise.
Nunca teve que ver com a crise económica. Os ordenados baixaram um pouco, é verdade, se calhar não vão todos usufruir das mesmas condições — fez pensar mas não foram razões fundamentais. O que me preocupa é o fenómeno do radicalismo, do terrorismo, a incerteza do amanhã. Se um deles me perguntar hoje ‘Mãe, o que é melhor para mim quando for grande?’, eu não sei o que dizer. Antes era ser médico. Hoje em dia? Sei lá! É tudo uma incógnita. Acredito que isso também retrai as famílias.

Registos recentes revelam que há cada vez mais casais a arriscar o terceiro. Nota isso?
Não é um fenómeno expectável... era bom que se tornasse uma tendência.

Era bom. Mas é realista?
Dificilmente. As pessoas querem ter filhos mas só quando têm uma vida profissional estável, quando já atingiram os seus objetivos, e isso faz com que se adie a decisão para muito tarde. Eu sou médica radiologista, aos 40 anos a minha carreira ainda é ascendente, e tenho amigas que equacionam recorrer a métodos mais modernos como congelar óvulos e depois logo pensam nisso.

Ter filhos afeta necessariamente a carreira profissional?
Vou responder-lhe com um exemplo. O meu marido é diretor de vendas. Já tínhamos os dois rapazes quando iniciou uma carreira internacional. Foi sozinho para Barcelona. E correu mal. Não conseguimos viver à distância. Sem filhos, eu tinha ido também, arranjava uma bolsa, era fácil. Mas com filhos não. Ele regressou. E optámos. A carreira no estrangeiro, que era uma ambição dos dois, caiu por terra. Perdemos dois anos, sofremos um bocado, os miúdos também, mas percebermos qual era o caminho. Porém, nenhum prescindiu da carreira. Somos workaholics. E conseguimos conciliar.

Facilmente?
Fácil não é. Ter filhos não é fácil, e devia haver mais tolerância nas empresas, tanto para o pai como para a mãe. É muito complicado faltar ou sair do trabalho para ficar com uma criança doente. As pessoas dizem que têm mente aberta mas não têm. Eu nunca tive problemas porque tenho colegas excecionais. Tive uma gravidez de risco, oito meses imóvel em casa e mandavam-me os exames por teleradiologia para eu dar a opinião. Ainda hoje o fazem quando necessário. Mas não há nenhuma regra empresarial, é solidariedade. E devia ser institucionalizado. É como a licença partilhada. A medida é boa mas se um homem sai para ir cuidar do filho, e ficar em casa uns meses, olham de lado. E isto pesa na hora de pensar em filhos.

O seu marido tirou licença?
Não. Impossível. E eu ao terceiro mês já estava a trabalhar.