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”Nunca vi a televisão como o meu modo de vida”

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Maria de Lurdes Modesto

Não se arrepende dos 12 anos de televisão, mas desde que decidiu desistir recusou todos os convites que lhe fizeram para voltar. Aos 86 anos, Maria de Lourdes Modesto é uma mulher sem rancores, preocupada com o mundo, e com vontade de deixar algo aos portugueses

Carolina Reis

Carolina Reis

TEXTO

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

FOTOGRAFIAS

Fotojornalista

Os anos passaram e notam-se nas incontornáveis rugas. Mas fora isso Maria de Lourdes Modesto é, aos 86 anos, uma pessoa desta época. Recebe-nos com o tablet na mão e o ar de menina coquete com que se destacou na televisão. Recorda o passado, vai às profundezas da infância para explicar como era ser filha de uma mãe divorciada, e fala do ‘golpe de sorte’ que teve no Liceu Francês e que a levou à RTP. A televisão, que a tornou conhecida e reconhecida pelos portugueses, foi um meio que foi descobrindo e pelo qual se foi apaixonando, mas que nunca a deslumbrou. Continua a trabalhar e quer deixar aos portugueses as receitas da cozinha de família porque “o que é bom não passa de moda”.

Lembra-se da sua primeira experiência gastronómica?
Sou alentejana e fui alimentada com sopas de pão, mas não considerava isso uma coisa extraordinária. Só percebi que no Alentejo comíamos de maneira diferente do que se comia no Minho, por exemplo, quando vim estudar para um lar no Estoril. As minhotas gabavam imenso os seus rojões, que tinham aquela complexidade toda. Isso é que me despertou interesse para a cozinha alentejana. E que me levou a dizer que era a melhor cozinha portuguesa, agora digo que é a mais diversificada. Mas há uma aspeto muito importante na alimentação, que é o emocional. Nunca esquecerei as mãos da minha mãe a fazer os pastéis de massa tenra. E nunca esquecerei o sabor daqueles pastéis.

Nasceu em Beja e foi estudar para Lisboa na adolescência. Era um sonho?
Queria muito vir para Lisboa porque não gostava de viver na província. Tenho até achado muito curiosa a opinião das pessoas sobre do livro do Henrique Raposo, eu julgava que aquele Alentejo já não existia. Aquele Alentejo que ele relata eu conheci-o, só julgava que já não existia.

O que é que não gostava da província?
Leia o livro do Henrique Raposo. Um bocado falta de independência, de liberdade, a opressão. Eram meios muito oprimidos, onde tinha de se viver de acordo com um modelo e quando se fugia desse modelo criavam-se situações muito desagradáveis. Isso hoje já não é o meu Alentejo. Atualmente, só contacto com cidades que têm universidades, que viram do avesso assim que têm um polo universitário.

O seu modelo em casa era conservador?
Era alentejano. A minha mãe era alentejana, do Baixo Alentejo, nós éramos alentejanos, e vivíamos com as regras que regiam a nossa vida.

Quais eram?
Primeiro, não dar nas vistas. E eu vim para aqui e expus-me na televisão [sorri]. Já viu que era exatamente ao contrário do que eu sou. Realmente não se fazia aquilo que se queria mas o que se devia fazer para se ter paz.

Os seus pais eram rígidos?
Éramos um caso à parte, porque a minha mãe, aos 26 anos, teve coragem para se separar. Como deve calcular, num meio daqueles não era fácil, até porque ela não voltou a casar. Embora tenha um irmão — que só veio viver connosco aos 11 anos, porque ficou com a minha avó paterna —, não tenho referência masculina.

Que memórias tem da sua mãe?
Era uma mulher muito inteligente, muito voluntariosa, muito habilidosa de mãos. Embora eu seja fisicamente parecida com ela não tenho a sua maneira de ser. Era uma pessoa a quem muita gente recorria para pedir conselhos. Muito discreta, muito sábia.

Mas hoje também fazem isso consigo.
Pedem-me outras coisas. Regra geral o que me pedem são coisas profissionais: prefácios. É simpático pedirem-me.

CASA Saiu do Alentejo para ir estudar para um lar no Estoril, cumprir um sonho de menina. E foi pelo Estoril que deixou Lisboa

CASA Saiu do Alentejo para ir estudar para um lar no Estoril, cumprir um sonho de menina. E foi pelo Estoril que deixou Lisboa

A sua vida muda quando vem morar para o Estoril. Como é que conseguiu sair da província?
Primeiro vivi em Évora, onde estudei, e depois é que vim fazer um curso para um lar no Estoril. Era um secular, não era confessional, embora eu seja católica e o lar fosse dirigido por pessoas católicas. Era para pessoas da província que estavam cá a estudar. Houve uma altura em que, de repente, apareceram muitos cursos profissionais, muitas oportunidades, para assistentes sociais e auxiliares sociais, e eu fiz um nessa onda, de educadora familiar. Foi uma boa oportunidade para mim ter vindo, porque não gostava muito da vida na província. Tinha um certo jeito de mãos — talvez fosse culpa da minha mãe, éramos três, duas irmãs e um irmão, e a minha irmã mais velha era perfeita e eu fui considerada sempre a manual. Desde muito pequena que fazia trabalhos manuais que não estavam de acordo com a minha idade, eram muito avançados.

Especializa-se nisso?
Fiz aquilo que havia. Um curso de tecelagem manual, que foi também uma onda. Fui fazê-lo porque me convidaram para dar aulas a crianças deficientes, seria um bom exercício para essas crianças, que tanto podiam ter 7 como 20 anos.

É aí o seu começo na carreira de professora?
Foi o meu primeiro trabalho. Fui escolhida para ficar em Lisboa e fazer este trabalho. E como havia os lavores e culinária nos liceus, depois fui para o Filipa de Lencastre e comecei a diversificar o meu trabalho. Trabalhei num centro universitário e tive a sorte de nessa aulas me ter calhado o Liceu Francês e me terem convidado para professora de trabalhos manuais. E essa é que foi a grande reviravolta na minha vida. Não há duvida nenhuma de que o que despoletou todo o resto do meu trabalho foi isso.

Como é que o Liceu Francês mudou a sua vida?
Convidaram-me para ficar efetiva. Nessa altura nem sequer tínhamos descontos para a Segurança Social. Foi um grande salto, porque passei a ter um ordenado certo, que era coisa que eu não tinha. Ganhávamos consoante as horas que trabalhávamos. Se havia feriado já não trabalhava, logo já não ganhava. Também ao nível da abertura intelectual, proporcionou-me uma convivência com pessoas de grande qualidade intelectual, tinha um conjunto de professores notável e que me tratavam com muito carinho. Quando fui para a televisão — embora fosse a preto e branco na altura —, fizeram questão de ver se eu tinha as unhas numa cor que estava certa. Criticavam-me e aconselhavam-me. E davam importância ao meu trabalho, o trabalho manual agora sofreu uma valorização mas naquela época não era assim.

É também aí que tem oportunidade de conhecer pessoas de esquerda, em tempo de ditadura fascista.
Eram praticamente todos. E embora eu tivesse ligações à Mocidade Portuguesa feminina, porque não havia ninguém que fosse à escola e não as tivesse, nunca fui estigmatizada, antes pelo contrário.

Adquiriu consciência política?
Assinei muitas listas, muitas petições para libertação de presos políticos, sinceramente, só com o aval da minha consciência e não por posições políticas.

E é no Liceu Francês que a RTP a descobre.
Entrei com outros professores numa peça de Molière, que servia para estudo aos alunos de literatura, e como eu era a única portuguesa em palco isso fez com que me tivessem notado. A televisão foi fazer uma reportagem e uma pessoa que tinha a área da cultura convidou-me para trabalhar em programas culturais. Eu disse que não, não era a minha área, mas eles insistiram muito durante 15 dias. Tinha a minha vida muito bem organizada, muito estável, receava que a televisão — que era uma coisa que só havia há um ano e que ainda não se tinha percebido muito bem o que era — fosse desestabilizar. Levei algum tempo a aceitar. Mas toda a gente me dizia para o fazer e pus a condição de ir mas só se fosse para fazer alguma coisa para as mulheres. Aproveitaram-me para uma rubrica, fui eu que escolhi culinária. Havia uma coisa de que gostava muito e que os portugueses não usavam, as alcachofras, então resolvi mostrar como se preparava uma no primeiro programa. Mostrei como se comia, tirei uma pétala, passei no molho e comia-a. Como os franceses fazem. Foi a minha sorte. Ninguém se esqueceu desse momento.

E de um dia para o outro tornou-se famosa.
A televisão era muito formal. Eu não tinha bem consciência do que me estava a acontecer. Socorri-me da prática de ensino e fiz, exatamente, como numa aula, com naturalidade, com preocupação em falar bem português.

O Mário Castrim, que era um crítico muito contundente e temido, elogiou-a por saber falar bem em televisão.
Não só me ajudou a mim com as suas críticas, como a própria televisão, porque as pessoas podiam dizer que não ligavam mas isso não é verdade. Nós ligamos mesmo às críticas. E na altura ele fazia crítica diária, e nós líamos a crítica dele. Pode estar tranquilo com o trabalho que fez porque evitou, certamente, muitas coisas de mau gosto na televisão.

Porque escolheu culinária?
Senti que era uma coisa muito telegénica. Se reparar bem, quando começamos a ver um programa de culinária, temos um monte de farinha, um monte de manteiga, depois queremos ver qual é o passo seguinte. O programa de culinária tem essa virtude, espera-se sempre pelo momento seguinte.

Gostou de ser reconhecida na rua, numa época em que eram poucos os que iam à televisão?
Continuei a fazer uma vida normal, conheci o meu marido na televisão, casei, foi tudo sempre normal. Não tenho sequer álbum de recortes. O António Barreto quis falar comigo porque estava a fazer um trabalho sobre televisão e ficou muito surpreendido quando me pediu o álbum e eu não tinha. Foram 12 anos. Na minha casa nunca houve esse culto. A televisão foi sempre para mim uma passagem. Nunca vi a televisão como o meu modo de vida. Foi sempre uma coisa a mais que eu fazia. Ao mesmo tempo, fui trabalhar para uma empresa multinacional de produtos alimentares e deixei o Liceu Francês. Às vezes penso nas coisas que me aconteceram, as pessoas fantásticas que tive a oportunidade de conhecer, devo-o à televisão. Estou-lhe muito grata, mas não tenho nenhum tipo de deslumbramento.

Mas na altura sentia alguma adrenalina?
Gostei muito de fazer programas em direto. Desisti quando começaram os enlatados, os gravados e eu tive a possibilidade de me ver. Acho que ninguém gosta nem da sua voz, nem da sua imagem. E eu só via defeitos.

Costuma ver televisão ou já não lhe diz nada?
Vejo bastante. Tenho até no escritório uma televisão. E no quarto e na sala também. Sou uma consumidora, mas seleciono muito. Não vejo reality shows.

Não teve pena de desistir?
Não. Nem quis voltar. Até tenho pena, com tudo o que aprendi estava hoje muito mais preparada. Fui várias vezes contactada para regressar. Quando a Maria Elisa, uma pessoa por quem tenho grande admiração, foi diretora de programas fez o possível e o impossível para eu voltar. Mas eu não quis fazer mais do mesmo.

O que é que já não a atraía?
Não era a televisão, era a dúvida que eu tinha da minha capacidade para ser diferente daquilo que tinha sido. Não quis ser mais do mesmo.

Foi a televisão que a aproximou da culinária.
Completamente. Eu estava mais virada para o trabalho manual e foi o diretor de programas de televisão — o dr. Domingos Mascarenhas — que disse que eu não faria mais nada senão culinária. E eu reagi bem. Fiz o programa num dia, no dia seguinte apanhei, como de costume, um elétrico às 8h da manhã, e um rapaz que ia pendurado olhou para mim e disse: olha a alcachofrinha.

Nessa altura a gastronomia não tinha a importância que tem hoje. Como vê esta evolução?
Creio que esse passo gigante se deve muito ao Duarte Calvão [ex-crítico no “Diário de Notícias”). Na ‘Preguiça’ [suplemento do “Independente”] nós já falávamos fortemente de gastronomia, aliás foi uma pedrada no charco daquele genial Miguel Esteves Cardoso. Os chefes tomaram o palco e a plateia.

São estrelas nos media.
E isso tem vantagens e desvantagens. Mostra que não estamos atrasados em relação ao que de mais avançado se faz no mundo. Mas também há algum prejuízo, porque nem todos têm nem a preparação nem a vocação para fazer uma cozinha que se pode dizer é muito científica. Muitas vezes só aparece a parte artística, nem sempre bem conseguida no prato. Há muitos ganhos e algum prejuízo para as cozinhas tradicionais. Não sei durante quanto tempo é que nós poderemos dizer com verdade que a nossa alimentação é uma das formas da nossa identidade.

Estamos a perdê-la na gastronomia?
Não direi isso. Tem de haver alguma coisa que salve, realmente, essa cultura. A França teve sempre a cozinha de palácio e as suas 42 cozinhas regionais e tradicionais. Paris é uma cidade onde nós podemos comer estas cozinhas genuínas, muito bem feitas, em restaurantes regionais. Aqui há um bocadinho a tendência para misturar o tradicional com a inovação. Não sou contra a inovação, pelo contrário, apoio fortemente estes chefes bem preparados e que fizeram da profissão de cozinheiro uma profissão com uma dignidade como qualquer outra. O cozinheiro hoje não é aquele sujeito humilde, pobrezinho, que só podia fazer aquilo. Esta gente está a trabalhar por vocação, porque gosta muito e porque quer ir à frente, fazer bem e bom.

MEMÓRIA Maria de Lourdes Modesto guarda, religiosamente, todos os livros que editou. "As Receitas da TV" foram editadas em 1967

MEMÓRIA Maria de Lourdes Modesto guarda, religiosamente, todos os livros que editou. "As Receitas da TV" foram editadas em 1967

E são todos homens.
Também há mulheres. E hoje não há razão para que as mulheres não se batam da mesma maneira como os homens. Antigamente, era um trabalho que exigia um grande esforço físico, hoje já não é assim. Há maquinetas para tudo.

Viveu sozinha antes de se casar?
Vivi em lares ou em casas de pessoas que alugavam espaços para estudantes. Na altura, uma rapariga não podia de maneira alguma alugar uma casa para viver sozinha.

Não sentia isso como uma prisão?
Sim. Quando já estava na televisão, duas amigas alugaram uma casa para morar juntas e eu fiz o mesmo e convidei para minha parceira uma inglesa, porque queria praticar o inglês, que sempre foi uma língua muito difícil para mim. Mas estive pouco tempo a viver com a inglesa porque entretanto casei.

Era uma pessoa muito independente para a altura.
Sim, fui criada por uma mãe que teve a coragem de se separar. E que foi sempre uma pessoa responsável, respeitável. Não fez entrar ninguém estranho na nossa vida.

Como é que disse à sua mãe que ia trabalhar para a televisão?
Mandei-lhe um telegrama a avisar: ‘Veja televisão hoje, 9 horas’. E ela viu-me num café, na altura muito poucas pessoas tinham televisão em casa. A minha mãe não era de grandes manifestações, de grandes exteriorizações, a minha irmã sim. Depois, passaram a ter televisão e ela estava muito atenta ao que eu dizia e fazia, aconselhava-me. A minha irmã era uma pessoa muito inteligente e bondosa, era ela que me seguia mais de perto. Quando hoje me acontecem coisas boas é sempre nela que eu penso. Morreu há seis anos.

Foi a sua maior perda?
Foi a minha maior perda. Fixei uma frase que alguém me mandou, “só sabe o que é ter uma irmã quem já teve e deixou de ter”. É um familiar muito importante.

Ainda regressa ao Alentejo?
Enquanto tive a minha mãe viva fui com regularidade. Tenho lá um sobrinho que é meu afilhado, filho da minha irmã, de quem gosto muito, e ainda volto lá. Devo dizer que descobri o montado alentejano, pelo qual me apaixonei. Sou muito devota dos cogumelos e fomos fazer uma apanha num montado, que era coisa que eu não conhecia bem. Tive uma epifania. É o paraíso.

A cozinha portuguesa é emocional?
Muito. E faz-me impressão a displicência com que se faz cozinha tradicional, modificando-a, porque isso representa sofrimento para muitas pessoas. Quando escrevi o livro da cozinha tradicional portuguesa, levei 20 anos e a razão disso era o medo. O medo de não ser capaz, de não interpretar a coisa como tinha sido transmitida. As pessoas transmitiam-me as receitas com muita emoção, quase que era possível sentir o sabor. A cozinha tradicional tinha uma grande importância, era mais do que uma questão alimentar.

Esse livro só saiu quando teve um susto de saúde?
Quando tive o problema dos ouvidos, houve um médico que disse que eu tinha um tumor no ouvido. Pensei que ia durar pouco e pus-me ao trabalho porque achei que era indecente ter recebido tantas receitas e não fazer nada. Tenho de dizer que já estão todas digitalizadas e entregues na Associação de Cozinheiros.

Sei que a surdez é uma coisa muito dolorosa para si.
Tive uma depressão muito grande quando saí da televisão. E quando se tem uma depressão daquele nível fica-se sempre com aquilo. As dores são uma coisa que se sente muito, mas depois a gente esquece. Quase me esqueço que uso pacemaker, contudo, já não me esqueço da surdez. Sou um surda profunda, não parece assim a conversar consigo. A surdez trouxe-me grande prejuízos e penso sempre que foi uma partida que o altíssimo me fez. Muito do que sei foi-me transmitido via oral, penso sempre que já não aprendo mais nada porque já não consigo captar.

Mas está adaptada às novas tecnologias. Escreve no computador, usa o tablet e ainda está no ativo, a trabalhar...
O tablet é muito importante porque o “Diário de Notícias põe exatamente o mesmo que põe no papel e isso é muito bom. Só tenho pena de não ter tanto jeito como vocês, que já nascem a saber pôr os dedos nas teclas. Para nós custa mais. Mas aconselho a toda a gente de idade, sobretudo aos surdos, o uso do computador. Retomei amizades com pessoas que não via há 40 anos, mas com o computador foi como se nos tivéssemos visto na véspera.

E já aderiu às redes sociais?
Sim, mas não tenho jeito. Não acho graça às redes sociais, é uma coisa que não faz parte da minha vida. Não me interessa nada saber a vida das pessoas. Há algum exibicionismo que não me interessa. Sei que fui bastante falada quando me indignei com o pastel de bacalhau com queijo da serra, mas não me impressionei.

Não liga nenhuma ao que dizem de si?
Não é não ligar, sempre liguei. Aliás, é importante ligar às críticas e saber que houve essa reação, mas vejo a coisa pela positiva.

COMPANHIA Desde a morte do marido que a gastrónoma partilha a casa e o dia-a-dia com a cadelinha Mimi

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Como é que se adaptou às novas tecnologias?
Isso foi um bom encontro que eu tive, mais uma vez. Enquanto trabalhei na multinacional nunca me conseguiram convencer a usar o computador, porque parecia que ele ia dominar a nossa vida. E eu não me queria deixar dominar. Mas não resisti a um gesto, extraordinariamente generoso, de umas senhoras que conheci no slowfood, duas dietistas que perguntaram onde ia buscar tanta energia. Respondi-lhes que enquanto isto – e apontei para o ouvido – durar não paro. Elas acharam que devia aprender a trabalhar no computador, para não deixar de contactar, porque seria uma pena perder os meus conhecimentos. Uma delas ensinou-me a trabalhar no computador e eu achei que não tinha o direito de negar um gesto tão amável, por elas pensarem que o que eu sabia tinha valor e não se devia perder.

É uma pessoa muito agradecida aos outros.
Sim, mas tenho razões para isso. Há pessoas a quem tenho mesmo de estar grata. Quando se tem a idade que eu tenho não há tempo para recriminações.

É curioso que nunca tenha tido um restaurante.
Nunca fui mulher de negócios. O grande erro da minha vida foi não ter atualizado a “Grande Enciclopédia da Cozinha”, mas eu já estava com outros interesses, já estava na tal multinacional. E havia uma coisa que gostava muito de fazer, que era a publicidade, fazer fotografia para a publicidade é uma coisa fascinante. Também me convidaram para trabalhar na rádio. E isso contribuiu para que eu não tenha feito revisões sistemáticas para melhorar aquele livro, que, afinal, me deu tanto trabalho. Foram três anos em que deixei de ir ao cinema, deixei de sair. O Fernando Guedes [editor na Verbo] dizia-me: “Os seus livros são filhos que você abandona.” Fazer reedições era coisa que para mim não tinha importância, o que achava graça era fazer coisas novas.

É verdade que teve o projeto para ter em sociedade com a Amália?
Não gosto de me gabar de amizades. A dada altura alguém se lembrou que seria interessante um restaurante de nós as duas. Mas a coisa não aconteceu porque não encontrámos um sítio de que ela gostasse. O espaço que nos foi cedido tinha lá uma creche da Fernanda Ferro e ela disse, imediatamente, que nem pensar desalojá-la. A Amália era uma pessoa muito agradecida, e a Fernanda Ferro era a viúva do António Ferro, a pessoa que promoveu a Amália. E eu concordei e ainda bem, porque realmente não percebo nada de restaurantes, o que sei é de cozinha de família.

Come fora muitas vezes?
Ultimamente, não. Acho que vale mais comer o pão com queijo do que fast food.

E quando come, vai onde?
Aos bons cozinheiros amigos. Felizmente que se encontram espalhados pelo país, o que é garantia de que vamos encontrar boa comida.

Acha que o Avillez merece as duas estrelas Michelin?
Sim. Até merece a terceira. Como ‘avó’ dele [os dois tratam-se por avó e neto] receio muito por ele. Sei que as estrelas são uma grande pressão e eu quero-o saudável e a viver muitos anos.

Quais são hoje as suas prioridades?
Responder às solicitações que tenho. Acho que tenho de estar disponível. Há estudantes que me procuram, para teses, por exemplo, e se ainda sobrar algum tempo gostaria de deixar a cozinha de família que se fazia antigamente e que, quanto a mim, o que é bom não passa de moda. Gostaria de deixar aos portugueses a possibilidade de ter uma mesa de família como a que tive.

Costumavam-na chamar de menina coquete, por andar sempre muito bem arranjada. Parece que ainda tem essa preocupação.
Não me importo nada que me chamem isso. Antes pelo contrário, gosto que reparem que me cuido. Dentro do possível, sem exageros, tento manter um aspeto parecido ao que tinha quando as pessoas me viam na televisão. Não sou vaidosa, não tenho razão para o ser, porque o que vejo ao espelho não é o que gostaria de ver. Quando me dizem que sou bonita acho que estão a brincar. Mas quando vejo imagens minhas do passado na televisão penso até que não era nada mal. Diziam-me sempre que era exótica. Penso que é por ser velha e coquete.