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Esclerose múltipla: “É como se a doença ficasse parada”

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Ana Baião

Entrevista a Paulo Fontoura, a vice-presidente da Roche para a Neurociência

Aos 46 anos, o neurologista português Paulo Fontoura é vice-presidente da Roche, um dos maiores laboratórios mundiais, que se prepara para lançar um novo fármaco que garante ser um “virar de página” no tratamento da esclerose múltipla. O médico português doutorado nos Estados Unidos assegura que estamos a viver uma revolução no combate às doenças do cérebro.

Que avanço é que este novo fármaco representa para o tratamento da esclerose múltipla?
A esclerose múltipla é uma doença para a qual felizmente já existem muitos medicamentos aprovados. O que se passa é que até agora as pessoas foram forçadas a fazer uma escolha: ou são tratadas com medicamentos que são muito seguros mas que têm uma eficácia baixa ou com medicamentos de alta eficácia mas que têm riscos muito elevados. Afetam o sistema imunitário e podem causar uma infeção no cérebro que pode ser muito grave, pelo que são reservados para um uso mais tardio, ou seja, para uma fase em que a doença já está mais avançada. Desse modo, perde-se aquela janela de oportunidade ideal que é o início da doença, quando é mais fácil de controlar e os doentes ainda têm pouca incapacidade. Já o ocrelizumab tem uma eficácia muito alta, mas nos estudos que fizemos demonstrou ter também um perfil muito alto de segurança. Portanto parece ser o balanço ideal.

Podemos falar numa cura da doença?
Não. Infelizmente a esclerose múltipla é uma doença crónica, autoimune. Não sabemos o que é que a causa, nem como curá-la. O que se trata aqui é de pô-la em remissão durante muito tempo. De acordo com os estudos clínicos que apresentámos este ano na Academia Americana de Neurologia, quase 50% das pessoas tratadas com este medicamento durante dois anos estão em remissão, o que significa que não têm nenhum sinal de atividade da doença: não têm surtos, não têm progressão, nem têm novas lesões visíveis na ressonância magnética. Não reverte lesões anteriores, mas é como se a doença ficasse parada. Por isso, não tenho dúvidas de que é o maior avanço dos últimos anos. Foi reconhecido pela comunidade científica como um virar de página no que diz respeito ao tratamento da esclerose múltipla.

Como é que atua?
O ocrelizumab é uma substância que se liga a um determinado tipo de células do nosso sistema imune — os linfócitos B — e as destrói. É o primeiro fármaco que atua por este mecanismo. E os resultados dos estudos demonstram que eliminando estas células, que controlam grande parte da resposta imune contra o nosso cérebro, nós paramos a doença de uma forma muito mais robusta. Por outro lado, é o primeiro medicamento que serve para tratar também a forma progressiva da doença, uma forma mais rara, que atinge 10% a 15% dos doentes, que são casos muito graves porque acumulam muita incapacidade muito rapidamente e para os quais não havia nenhum fármaco eficaz até agora.

Como é administrado?
Através de uma injeção, que dura cerca de duas horas, e que é dada apenas duas vezes por ano.

Quando é que entrará no mercado?
Esperamos que a primeira aprovação seja ainda este ano nos Estados Unidos. Na Europa será aprovado no próximo ano e em Portugal em 2018.

Relativamente ao preço, estamos a falar de que ordem de valores?
Ainda é muito cedo para podermos dizer isso porque depende do próprio processo de aprovação, que na Europa é negociado quase país a país.

Continuamos a saber muito pouco sobre o que causa esta doença. Porquê?
Sabemos há mais de 50 anos que há uma desregulação do sistema imunitário, que normalmente combate doenças e infeções, que passa a comportar-se como se uma substância do nosso cérebro, chamada mielina, fosse estranha e, portanto, ataca-a e destrói-a progressivamente por surtos. Cada um desses ataques deixa uma cicatriz, chamada placa. Essas placas vão-se acumulando no cérebro e causando incapacidade, consoante o sítio onde se localizam. Se se localizarem no nervo ótico, há uma perda de visão desse olho; se for na medula, há perda de força nas pernas, etc.

Mas o que é que provoca essa desregulação?
Ainda há muito mistério à volta disso. Não é uma doença genética, no sentido em que é muito raro haver famílias que têm várias gerações com esclerose múltipla, mas sabemos que há um risco maior em pessoas que têm familiares diretos com a doença. Sabemos também que há determinadas zonas do mundo que têm mais risco do que outras: a Europa do Norte e a América do Norte têm um risco muito maior do que a Europa do Sul, que por sua vez tem um risco maior do que África ou Ásia, onde é muito raro.

Tem que ver com falta de exposição ao Sol?
Há muitos fatores que podem contribuir para isso, mas a exposição ao Sol e os níveis de vitamina D parecem, de facto, contar. Mas não há respostas simples.

Mistérios é o que não falta na área das neurociências. Como é que se explica que, depois de tantas décadas de investigação, a Medicina ainda saiba tão pouco?
As doenças do cérebro são, provavelmente, a última grande fronteira para a Medicina e para a Biologia. De facto, ainda sabemos muito pouco. Em primeiro lugar, porque o cérebro é, de longe, o órgão mais complexo do nosso corpo. Há mais neurónios e sinapses no cérebro do que estrelas no universo. E nós só conseguimos perceber numa percentagem muito pequena a forma como o cérebro está organizado e como é que se desenvolve ao longo da vida, porque está em constante mutação. Também por ser tão complexo, é um órgão frágil, pelo que há muitas doenças que resultam de um mau funcionamento do cérebro ou de acidentes que lhe acontecem. Mas estamos a viver uma época de esperança nesta área.

Acha que estamos a viver uma revolução no tratamento das doenças do cérebro?
Sim. Costumo dizer que estamos a viver nesta área um período muito semelhante ao que viveu a oncologia nos anos 80. Nessa altura, havia poucos medicamentos para o cancro e eram muito tóxicos e muito pouco eficazes. O cancro era praticamente uma sentença de morte e desde então tornou-se tratável e curável, em muitos casos. E todos os anos há novidades, medicamentos cada vez melhores e mais seguros e está-se a avançar para tratamentos personalizados que antes eram inimagináveis. Ora, as neurociências estão agora a começar esse percurso. Ou seja, estamos a passar de uma fase em que há poucos medicamentos e não muito bons, porque têm riscos muito elevados, para uma nova geração de tratamentos mais seguros e que começam de facto a ser eficazes.