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Christian Louboutin: “Sinto-me cada vez mais confortável em Portugal”

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FOTO FLORIAN SEEFRIED/GETTY IMAGES

O designer de sapatos mais famoso do mundo esteve em Lisboa e falou da sua paixão por Portugal, onde tem duas casas e passa “uns bons três meses” por ano

Nelson Marques

Nelson Marques

Entrevista

Jornalista

Um sapato nunca é só um sapato. Muito menos um Louboutin. O criador das famosas solas vermelhas, nascido em Paris há 53 anos, esteve em Lisboa para falar da colaboração com a loja francesa SportyHenri.com para criar os trajes de cerimónia da delegação de Cuba nos Jogos Olímpicos, mas acabou a falar de um amor maior: Portugal.

Em pouco mais de dois meses é o segundo evento que faz em Lisboa. Porquê?
Portugal é a minha segunda ou terceira casa. França, claro, é a primeira, e a segunda é a Itália, onde produzo os sapatos, passo lá muito tempo. Desenho aqui algumas das minhas coleções. Amo Portugal porque amo os portugueses. Não é possível gostar de um país sem gostar das suas gentes. Sou bretão, nasci na costa e encontrei o mesmo aqui, mas com tempo melhor. Tenho uma casa em Lisboa e uma no Alentejo [em Melides]. Fartei-me da Comporta.

Deixou de ser um segredo bem guardado?
Sim, tornou-se demasiado agitada, com muita gente.

Ainda se lembra da primeira vez que veio a Portugal?
Foi há muito tempo, quando tinha 20 e poucos anos. Tinha um amigo português que vivia em Nova Iorque e passava as férias aqui, na Comporta. Vim com ele.

O que fez com que se apaixonasse por Portugal?
A natureza. E os jardins. Nessa primeira vez fiquei também no Palácio de Seteais, em Sintra. Sempre adorei jardins e há algo nos jardins portugueses, são dos mais bonitos do mundo. Também adoro azulejos, por isso é um país feito à minha medida. Comprei a primeira casa, na Comporta, há uns 12 anos.

Portugal mudou muito nesses anos?
Diria que Lisboa mudou muito. Sempre gostei de Lisboa, nunca senti que precisasse de mudar, mas está a mudar aos poucos, a renovar alguns edifícios. Isso é bom.

Foi para o Alentejo para ter mais sossego, mas depois comprou uma casa em Alfama, uma das zonas mais movimentadas da capital. Porquê?
Em Paris, é preciso ver os telhados. No Rio de Janeiro, é preciso ver o mar, é um clássico. Aqui há a sensação das colinas, onde se vê esta luz irresistível. Não resisti a ter um espaço com esta luz. Quase comprei uma casa na Grécia, numa ilha, porque lá a luz no mar ao fim do dia é incrível. Estava dividido, mas fazia mais sentido aqui, porque é mais simples vir. Posso até vir por um dia apenas. E a luz também é lindíssima ao final do dia, especialmente quando se vê esta imensidão do Tejo.

Disse numa entrevista que não havia lugar no mundo onde gostasse mais de acordar do que em Portugal.
E é verdade. As pessoas são muito simpáticas e sinto-me cada vez mais confortável aqui. Estou em paz quando estou a desenhar cá. Consigo concentrar-me, estou num casulo que adoro. E a comida é ótima [risos].

FOTO Andrew Francis Wallace/Toronto Star via Getty Images

Que coleções desenha cá?
As de inverno. As de verão tenho desenhado no Brasil, no Rio de Janeiro. Não consigo resistir ao Carnaval.

Quanto tempo por ano passa em Portugal?
Uns bons três meses. O resto do tempo passo entre Paris, Itália e depois há muitas viagens. Sei de cor a minha agenda até ao Natal. Daqui vou dois dias para o sul de França, depois para Paris durante dois dias, a seguir Cuba durante nove dias, regresso a Lisboa e vou para o Alentejo durante uma semana, depois para o Rio para os Jogos Olímpicos, volto ao Alentejo a 25 de agosto e fico até 5 de setembro, depois um dia em Paris, daí para Itália durante uma semana, depois tenho uma semana pendente a meio de setembro, volto a Paris para a Semana de Moda, a seguir vou dois dias até Seattle, depois Vancouver, daí vou dois, três dias para Hong Kong, a seguir Xangai, de lá voo para Bombaim para o Diwali (o festival das luzes), depois vou para o Butão durante uma semana, regresso à Índia porque estou a colaborar com um designer indiano, a 11 de novembro vou para Londres porque estou a colaborar com os Prémios de Teatro do “Evening Standard”, volto a Paris durante uma semana, a seguir uma semana em Itália...

Decorou tudo?
Não preciso. A agenda é uma negociação constante, acabo por sabê-la de trás para a frente.

Onde pensa viver quando se reformar?
Provavelmente em Portugal, adoro a minha casa em Alfama. Mas não me vejo a ficar parado num sítio. Quero comprar uma grande mobile home, para poder visitar as minhas diferentes casas. Gosto das pessoas que trabalham lá e cuidam delas. Se não vou vê-las, sinto-me culpado. Volto a esses lugares não pelas casas, mas por causa dessas pessoas.

Que traços da marca Louboutin trouxe para esta coleção?
Quando desenho um sapato penso nas showgirls. Todas as mulheres têm um lado de showgirl. Os homens também têm um pouco de showmen. Tento transportar isso para esta coleção. Os atletas cubanos são ótimos desportistas, mas têm também esse lado do espetáculo. Desporto e espetáculo andam de mãos dadas. Até no Ballet Nacional de Cuba eles têm algo muito desportivo: são ótimos dançarinos, mas quando saltam fazem-no muito rapidamente, no tempo certo.

Porque é que pensa numa mulher nua quando desenha um sapato?
Um bom sapato não tira a nudez. Nos retratos do Helmut Newton não é bizarro ver uma mulher nua com sapatos. Se puser um chapéu numa mulher nua o retrato será “Mulher nua com chapéu”. Um chapéu afasta-nos da nudez. Um bom sapato, pelo contrário, celebra-a. Mas não funciona da mesma forma nos homens. Neles é um acessório.

Então, o que é que um bom sapato dá a uma mulher?
Dá confiança. E uma grande postura.

E o que têm os Louboutins que fazem deles, provavelmente, os sapatos mais desejados do mundo?
As mulheres percebem que tenho o maior respeito por elas e que as conheço bem. Fui educado por mulheres, sempre estive rodeado por elas. Conheço as suas necessidades, sei até onde posso ir. Como alguém que ama as mulheres crio sapatos que as vão favorecer sempre.