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Celebrar o final de tarde

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Dick's Bar

FOTO D.R.

Portugal sempre foi tímido em sair à rua depois de um dia de trabalho, mas de há dois anos para cá essa tendência tem sofrido uma inversão. A amizade agradece

Este género de textos, por norma, começa assim: “Agora que o verão chegou, os dias são mais compridos e às sete da tarde ainda há sol, nada como sair do trabalho e ir beber um copo antes de seguir para casa...” Neste, o caso não será esse. As palavras que se seguem serão, sim, uma ode ao ajuntamento com colegas e amigos num bar a seguir ao expediente, independentemente da estação do ano. É verdade que o verão ajuda, mas há exemplos por essa Europa fora a provar que o clima, o bom clima, é apenas uma pequena percentagem do que se pode tirar de proveitoso no ambiente pós-laboral. Neste texto não há frio, chuva, vento ou calor que impeçam de celebrar a amizade, “o sentimento de afeição e simpatia recíprocas entre dois ou mais entes” ou essa “relação de entendimento, concordância e afinidade”, segundo o Priberam.

Ingleses e espanhóis são reis e senhores no copo ao final do dia de trabalho. Bares em Londres, Manchester, Madrid ou Barcelona, por exemplo, enchem-se com trabalhadores que querem descomprimir das horas passadas em frente a um computador e sentados a uma secretária. Cultural, dirão alguns; perca de tempo, outros dirão. Inveja, dizem os que se esquecem do ‘Brexit’ e da expressão “De Espanha, nem bom vento nem bom casamento” e que tentam fazer a sua parte por cá. À imagem do hoje tão famoso gin tónico servido à espanhola, em copo de balão e com os botânicos à vista, de que não se gostava e se aprendeu a venerar, graças, entre outros, a Luis Carballo, um galego que fez de Portugal a sua casa e nos mostrou como se bebe gin do outro lado da fronteira.

O espumante português e o champanhe francês com um twist na Champanheria da Baixa contrastam com a calma do final de dia que se vive no Aduela Taberna Bar e a variada oferta de gin do Cockpit Bar

O espumante português e o champanhe francês com um twist na Champanheria da Baixa contrastam com a calma do final de dia que se vive no Aduela Taberna Bar e a variada oferta de gin do Cockpit Bar

FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

Este texto não é sobre gin tónico, mas sobre lugares onde se pode, também, bebê-lo. Portanto não é, mas também é, sobre gin e cerveja e cocktails e copos de vinho ou sangria. E é sobre água lisa ou com gás, sumos e petiscos, de olhos postos no rio ou sem vista. É, na sua génese, sobre convívio e felicidade, sítios com muito “boa onda” — não pretende fazer apologia ao consumo de bebidas alcoólicas de forma desenfreada. Quantas vezes, nos últimos meses, ouviu a palavra rooftop? Várias, certamente. Hiperbolicamente falando, todos os dias abre um bar/restaurante num terraço qualquer em Lisboa ou no Porto, uma esplanada banhada pelo Tejo ou pelo Douro e um gin/cocktail/wine bar. A oferta é tanta que a escolha se torna difícil. Mas é também motivo mais do que suficiente para que saia do trabalho e varie as opções.

Em Lisboa e no Porto há bares com ambientes (e preços) distintos, vistas de cortar a respiração e outros que valem por serem acolhedores (ou castiços). Dos inúmeros bares nas duas maiores cidades portuguesas haverá, certamente, algum que lhe encha as medidas e, quem sabe, se torne o seu bar de eleição para a bem conhecida, mas pouco praticada, after work drink. Em 2015, um estudo da Universidade de Copenhaga mostrou que beber um copo de vinho por dia pode ajudar a combater o Alzheimer. Não tanto pela bebida em si, apesar de vários estudos apontarem para os benefícios na saúde se o consumo for moderado, mas porque os pacientes foram colocados num ambiente social ativo que, dessa forma, ajudou a prevenir o declínio cognitivo. A cerveja, por exemplo, uma das bebidas alcoólicas mais consumidas em Portugal, também tem os seus benefícios (se consumida de forma moderada): diminui o risco de pedras nos rins e protege de ataques cardíacos — se for cerveja preta, fortalece os ossos e até pode servir para emagrecer, devido ao componente xanthohumol. Há outros possíveis benefícios, mas ficamos por aqui.

Aduela Taberna Bar

Aduela Taberna Bar

FOTOLUCÍLIA MONTEIRO

“A amizade não é apenas necessária, mas também nobre, pois louvamos os homens que amam os seus amigos e considera-se que uma das coisas mais nobres é ter muitos amigos. Ademais pensamos que a bondade e a amizade encontram-se na mesma pessoa.” Em “Ética a Nicómaco”, Aristóteles defende a amizade como uma virtude essencial à vida. Na ética aristotélica, a amizade está acima de conceitos como a justiça e varia de acordo com a idade. Para os mais novos como forma de evitar o erro, para os mais velhos como amparo para as suas necessidades. A amizade, a de bons amigos, é, aliás, uma das melhores formas para atingir a felicidade, segundo Aristóteles.

De há dois anos para cá, mais coisa menos coisa, Portugal tem feito o seu caminho no que aos copos do final de dia de trabalho diz respeito. Talvez por influência dos inúmeros turistas que visitam o nosso país e que, também eles, contribuem para alterar alguns hábitos. O turismo é uma espécie de troca de experiências, e ainda bem que assim é. Porque Lisboa e o Porto têm tudo o que é preciso para serem cidades onde há vida além do trabalho. Embalados pelo Euro-2016, que tantos seguiram e festejaram ao ar livre, em esplanadas e bares, os portugueses saem cada vez mais da concha para a rua, enchem esplanadas e rooftops, quando o tempo convida a isso, bebem e petiscam.

Cockpit Bar

Cockpit Bar

FOTO MÁRIO JOÃO

Se a inveja por povos de países mais tristonhos do que o nosso sempre foi uma constante, com a oferta que hoje existe, só por não gostar, não querer, não apetecer é que não se convive antes de se ir para casa. Também isso ajuda a contribuir para que as cidades portuguesas se tornem das principais na Europa. Pelo convívio, pela camaradagem e pela amizade. E pela bebida, sempre em doses moderadas. Porque um país faz-se de quem cá vive. E se quem cá está andar mais feliz, isso nota-se em tudo.

Copos à medida

LISBOA
18h Le Chat
Jardim 9 de Abril, Janelas Verdes, Santos (todos os dias, das 12h30 às 2h)
Acompanhe as chips de batata-doce com uma sangria, de olhos postos no rio Tejo

19h Terraço Chill-Out Limão — H10 Duque de Loulé Avenida Duque de Loulé, 81-83 (todos os dias, das 13h às 23h)
Se a vista sobre Lisboa que o 10º andar lhe proporciona não for suficiente, passe lá de quinta a sábado, quando há sessões musicais

20h Double9
Rua da Misericórdia, 78 (domingo a quarta, das 16h às 24h; quinta, sexta e sábado, até às 2h)
Antes de jantar, abra o apetite com a enorme lista de cocktails à base de infusões de chá

21h Cockpit Bar
Avenida Sacadura Cabral, 18C (segunda a sexta, das 18h às 2h; sábado, das 20h às 2h)
Hoje é um típico bar de bairro, mas já foi exclusivo para os tripulantes da TAP; a não perder o prego de atum

PORTO
18h Café Candelabro
Rua da Conceição, 3 (segunda a sexta, das 10h30 às 2h; sábado, das 14h30 às 2h; domingo, das 14h30 às 24h)
De uma antiga livraria na Baixa da Invicta nasceu um café/bar; pegue num livro enquanto bebe um cálice de vinho do Porto

19h Dick’s Bar
Hotel The Yeatman, Rua do Choupelo, Vila Nova de Gaia (segunda a quinta, das 9h à 1h; sexta e sábado, das 9h às 23h; domingo, o dia todo)
Escolha um dos 82 vinhos servidos a copo e aproveite a vista panorâmica sobre o Douro e a cidade do Porto

20h Aduela Taberna Bar
Rua das Oliveiras, 36 (terça a sábado, das 12h às 2h; domingo, das 14h às 24h)
É um lugar de convívio por excelência, ou não estivesse situado em frente ao Teatro Carlos Alberto; experimente as várias conservas portuguesas

21h Champanheria da Baixa
Rua da Picaria, 107 (segunda a quinta, das 17h às 2h; sexta e sábado, das 15h às 3h)
Beba espumante português ou champanhe francês num ambiente descontraído e acolhedor