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Dietas e produtos “milagrosos”: verdades e mentiras

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Mário Joao

Dietas detox? Suplementos alimentares? Dietas do Paleolítico? Depuralina? Laxantes? Diuréticos? Além do calor, o verão traz um sem fim de produtos nas montras de farmácias, ervanárias, supermercados e livrarias a prometer corpos perfeitos e menos 10 quilos num mês. Qual a sua efetiva veracidade? Falámos com especialistas: eis o que dizem as médicas nutricionistas Isabel do Carmo e Lilian Barros e o médico dermatologista Osvaldo Correia

Bebidas detox, Isabel do Carmo dixit
“As bebidas detox têm uma designação sem qualquer significado rigoroso. Nós não estamos em geral intoxicados por qualquer substância exterior que faça intoxicação aguda ou crónica, como o chumbo, o mercúrio, o cobre. E, se estivéssemos, não era a bebida detox que resolvia o problema. Também pode haver contacto crónico com substâncias nocivas como fertilizantes, inseticidas, parabenos e outras, que estão nos alimentos, no vestuário, nos plásticos. Mas também nesse caso as bebidas detox nada fazem. Se o organismo estiver intoxicado por mau funcionamento do fígado ou dos rins, a pessoa tem que se tratar, ter um regime alimentar especial. Mais uma vez, de nada lhe servirá o detox. Mas como são bebidas com vegetais e as pessoas apreciam, é uma forma de comerem esses vegetais.”

DR

Suplementos alimentares: “o grande engodo”, Isabel do Carmo dixit
“Os suplementos alimentares vendidos em farmácias, parafarmácias, ervanárias e pela internet não passam pelo Infarmed. Quando nos anos 90 do século XX a legislação dos EUA os retirou da vigilância da Food and Drug Administration (FDA), considerou-os herbs e passaram a constar dos produtos do Departamento de Agricultura. Depois, a União Europeia adotou legislação idêntica, que passou a diretiva nos vários países da EU, entre os quais Portugal. Esses produtos, que têm efeitos medicamentosos, passaram a ser considerados plantas e ‘naturais’. Estas designações tornaram-se aliás muito populares, mais uma vez de uma forma acrítica, pois há plantas boas e más, algumas tóxicas.

Quanto a ser ‘natural’, aí está um termo que está por definir. Trata-se de plantas nativas, sem intervenção da mão humana? De plantas cultivadas intensivamente porque a procura é muita? De extratos de órgãos de animais? Este é um bom tema para um trabalho académico. E de tal maneira em aberto que a FDA lançou um inquérito a este respeito.

Nos suplementos alimentares destinados a perder peso - que são a maioria -, há de tudo. Muitos têm ativadores, como a cafeína ou substâncias da mesma família. Podem ser perigosos porque podem causar taquicardia. Mas as utilizadoras sentem ‘muita energia’. Também podem conter laxantes, o que leva os intestinos a tornarem-se ‘preguiçosos’ quando esse estímulo não existir. E têm muitas vezes diuréticos, que fazem perder líquidos sem necessidade, tanto mais que no verão podemos desidratar-nos. Estas são substâncias que podem constar no rótulo, embora com a designação botânica e sem a descrição da sua ação.

Por outro lado, têm sido detetadas nestes produtos substâncias que não constam no rótulo e que são prejudiciais. No relatório anual de 2013 da Associação Americana de controlo de intoxicações, que recolhe os dados nacionais de intoxicações, publicado na revista ‘Clinical Toxicology’ de Filadélfia em 2014, é referido que os suplementos alimentares estão entre as 25 substâncias de topo mais envolvidas na exposição humana a tóxicos.

Nos EUA, quando há suspeita, a FDA pode intervir e analisar o produto - o que tem feito, aliás. Também grupos de investigação em toxicologia o têm feito. Em Portugal, o Infarmed não tem feito estas análises, mas pode fazê-lo. A Depuralina ou o Calcitrin são considerados suplementos, isto é, herbs, plantas, e portanto “naturais”. Nunca passaram pelo Infarmed.”

Drenantes e diuréticos, Lilian Barros dixit
“Na altura do calor, a tendência para a retenção de líquidos vê-se aumentada, especialmente nas mulheres com má circulação. Nestas situações, as misturas líquidas para juntar à água que bebemos ao longo do dia multiplicam-se. Há opções para todos os gostos e marcas. Na maioria dos casos, estas misturas envolvem elementos naturais à base de ervas e algas. Devem ter atenção pessoas com problemas de saúde que possam interferir com a multicomposição destas soluções. É o caso específico de alterações da tiroide e o consumo de algas, ou tensões altas e a presença de chá verde ou outros estimulantes como café/cafeína ou guaraná. Entre optar por infusões de ervas caseiras em detrimento destes xaropes, é muito mais económico e os resultados são igualmente evidentes.
Não se esqueça que o peso perdido em água não é sinónimo de emagrecer. Com os drenantes e diuréticos conseguirá baixar o valor na balança, mas não a perda de gordura.”

Estimulantes, termogénicos e queimadores, Lilian Barros dixit
“Existem alguns suplementos que ‘garantem’ a perda de peso e a queima de gordura por alteração do metabolismo sem que seja necessária uma grande alteração alimentar. Normalmente, estes estimulantes potentes obrigam o metabolismo a trabalhar de forma mais acelerada, o que pode deixar a pessoa em estado de alerta, mais agitada e com perturbações da qualidade do sono.
É desaconselhado a pessoas com problemas cardíacos, como hipertensão arterial ou taquicardia, epiléticos, com alterações da função tiroideia e com perturbações do sistema nervoso.
Desaconselho este tipo de suplemento por todas as questões de saúde mencionadas, mas também porque acaba por induzir a pessoa a acreditar que é possível perder peso sem alterar hábitos - o que não é verdade. Não aprendendo a comer para o seu ‘verdadeiro’ metabolismo, qualquer resultado que se consiga atingir não será passível de manter, conduzindo a uma dieta ioiô e à recuperação de todo o peso perdido.”

Bloqueadores e inibidores de absorção de gorduras ou hidratos de carbono, Lilian Barros dixit
“Com diferentes origens e composições, estes suplementos prometem excessos alimentares sem culpas no cartório. Na sua grande maioria, esse efeito não é totalmente verdadeiro e por isso mesmo não têm um impacto tão significativo na balança - podem acabar por incentivar o excesso e a falta de controlo sem peso na consciência. O pensamento de ‘posso comer o dobro porque estou a tomar um bloqueador’ pode provocar um descontrolo de consumo alimentar, com consequências num aumento na balança. Desincentiva a educação pela alimentação e vai contra aquilo que defendo diariamente em consulta. É preferível moderar, assumir e tentar compensar com dias mais rigorosos de dieta.”

Saciantes e inibidores de apetite, Lilian Barros dixit
“Entre eles existem dispositivos médicos (obesimed), crómio (saciante para doces e hidratos) e misturas de fibras alimentares que parecem ter poucas contraindicações e que podem ser uma ajuda quando seguir um plano alimentar se torna muito penoso em termos de estabilidade de apetite. Não é milagroso, não atua por si só isolado de um plano alimentar equilibrado, mas pode ser uma bengala que ajuda a alcançar uma educação de alimentação equilibrada.”

Laxantes, Lilian Barros dixit
“Alguns suplementos alimentares apresentam laxantes que iludem o emagrecimento com a perda de peso. Se é verdade que quem sofre de prisão de ventre pode beneficiar da toma de suplementos de fibra (por exemplo), o mesmo não se justifica para quem tem um trânsito intestinal saudável, podendo mesmo provocar diarreias, desconforto abdominal e habituação. Evite qualquer suplemento que apresente sene, rico em heterósidos hidroxiantracénico. Tente hidratar-se corretamente, comer mais fibra, experimente a ingestão de frutas, vegetais e cereais integrais e pratique atividade física antes de pensar num laxante.”

Reuters

Dietas da moda, Isabel do Carmo dixit
“Há muitas ‘dietas’ regimes alimentares para emagrecer que continuam a ser moda, apesar de serem antigas. É o caso das dietas Atkins, da South Beach, da Weight Watchers. Mais recentes são a dieta sem hidratos de carbono, a do paleolítico, a sem lactose e a sem glúten. Estudos recentes compararam o regime convencional para perder peso (hipocalórico, com 1.200 a 1.800 kcalorias diárias, conforme o peso inicial, equilibrado nos vários nutrientes) com a dieta Atkins, a South Beach e a Weight Watchers, aplicadas a grupos diferentes mas equivalentes de pessoas com obesidade. Nos resultados foi observada maior perda inicial, sobretudo na Atkins, mas resultados finais idênticos.

O mesmo resultado tem sido encontrado nas dietas de muito baixo valor calórico inicial (cerca de 500 a 800 kcalorias), seguido de ‘desmame’ até às 1200 kcalorias. Estas dietas têm, no entanto, a qualidade de entusiasmarem inicialmente as pessoas que as fazem, o que pode ser necessário para alguns casos. Também podem e devem ser usadas quando há necessidade de uma perda de peso rápida, por exemplo antes de cirurgias ortopédicas ou de cirurgias abdominais em que há necessidade de diminuir em algumas semanas o volume de um fígado gordo.

A dieta Atkins é idêntica à do Paleolítico e à da exclusão dos hidratos de carbono amiláceos. Estas últimas são remakes da Atkins. Felizmente que qualquer delas não retira a fruta e portanto entra a frutose como combustível. Mas os cereais do pão, da massa, do arroz fazem falta, porque contêm vitaminas que se encontram dificilmente em outros alimentos. E a batata é rica em vitamina C.

A dieta South Beach reclama ser idêntica à Mediterrânica e ter origem numa zona da Califórnia com os mesmos produtos do Mediterrâneo. De facto é parecida, mas pode ter o mesmo problema do que a Mediterrânica levada à letra. Quando se diz “saudável”, não se está a dizer “para perder peso”, visto que esta última tem de ser hipocalórica e a Mediterrânica é isocalórica. O uso despreocupado do azeite e dos frutos secos impede que o regime seja hipocalórico, porque o azeite tem tantas calorias como a manteiga. É bom para a saúde em geral, é mau para o peso.

A dieta Weight Watchers é semelhante à convencional, mas tem preparados comerciais e pode requerer acompanhamento terapêutico. Outras dietas ainda mais na moda são as “sem lactose” e “sem glúten”. Nada pode ser mais disparatado, porque retirando os alimentos sem lactose e/ou os alimentos sem glúten, não é por isso que o regime passa a ser hipocalórico e a permitir perda de peso. A verdade é que há pessoas que se consideram intolerantes à lactose, ao glúten e a tantas outras coisas que acabam por só poder comer meia dúzia delas e de facto perdem peso…

Quem pensa que é intolerante à lactose deve fazer um teste de tolerância à lactose (idêntico ao que se faz para a glucose) e, no caso positivo, retirar o leite ou alimentos em que este entra. Os iogurtes e o queijo têm muito pouca lactose. Quem pensa que é intolerante ao glúten deve fazer uma análise de pesquisa dos anticorpos antiglúten e, se for positivo, retirar os alimentos com glúten - que são uma lista grande, porque incluem confeção. Mas geralmente estas pessoas são magras.

Há mulheres, verdadeiramente preocupadas com a saúde e com a perda de peso, que logo de manhã bebem detox, excluem da mesa todos os laticínios e os hidratos de carbono, tomam suplementos porque são bons ‘para a retenção de líquidos’ e fazem ‘diminuir a barriga’. E depois não emagrecem… Além de culparem a tiroide ou as hormonas em geral, o que é corrente, esquecem o que fica oculto e de que nós todos gostamos: o chocolate, os sumos de fruta, o vinho, a cerveja e as bolachas ‘sem glúten’’.

E os cuidados com o sol?
Todos os anos, estima-se que haja 12 mil novos casos de cancro de pele por ano em Portugal. E o número destas neoplasias no mundo tem aumentado nos últimos anos. Não são só os veraneantes que têm de ter cuidados, mas todas as pessoas que trabalham ao ar livre ou que praticam regularmente desporto ao ar livre (jogging, vela, surf...) Também nesta área existe um sem-fim de produtos a prometer o melhor dos bronzes com a melhor das proteções. Há autobronzeadores, protetores que supostamente “reforçam o bronze”. O que diz um dermatologista? Osvaldo Correia, secretário-geral da associação portuguesa de cancro cutâneo e professor da Faculdade de Medicina do Porto, responde.

“A exposição solar moderada e gradual é benéfica se a horas corretas e com proteção adequada. Optar pelas horas em que a nossa sombra é maior do que nós próprios (antes das 11h e depois das 17h) e evitar a exposição direta intencional a essas horas, sobretudo nos dias de UV elevados (como os dos últimos dias de junho e início de julho, em que estiveram entre 9 e 10, numa escala até 11+ ) é o comportamento correto”.

AFP

Protetores solares, Osvaldo Correia dixit
“A melhor proteção solar é aquela em que utilizamos o vestuário adequado - chapéu, de preferência de abas largas; camisola, idealmente que nos cubra os braços, antebraços e decote; de textura não porosa, eventualmente de cor escura nas malhas mais finas (apesar de aquecer, protege mais dos UV que os tecidos claros).

Poderemos, no vestuário, estar atentos à proteção UV, através do UPF (fator de proteção UV) pelo menos mais de 40, mas deverá ter atenção à proteção complementar com filtros ou ecrãs protetores solares nas áreas não protegidas, sobretudo quando temos as crianças a brincar, frequentemente entre a água e a areia, quando o protetor solar rapidamente desaparece e a incidência dos UV é não só direta mas adicionalmente também pela reflexão dos UV na areia que, quando molhada, é maior, pode atingir os 40%.”

Marcos Borga


As crianças antes dos 3 anos não devem ter exposição solar intencional, sobretudo entre as 11 e 17 h. Antes de completarem um ano, estão particularmente vulneráveis e o melhor é evitar o sol direto. Nos mais pequenos e na pele hipersensível ou alérgica, os protetores solares minerais, que refletem, são os mais adequados. Os filtros químicos são os mais usados nos protetores solares e existem múltiplos que, quando combinados, em concentrações adequadas, conferem hoje uma capacidade de proteção UV bastante eficaz.

Kevin C. Cox

Proteção solar UVA e UVB:
Mas há que estar atento a protegermo-nos não só dos UVB (que induzem vermelhidão ou queimadura solar rápida e que devemos evitar pois favorecem vários cancros da pele) mas também dos UVA (que induzem a cor morena, mas também são responsáveis pelo aparecimento de novos sinais, manchas, rugas e hoje claramente demonstrados na predisposição para vários tipos de cancros da pele...). “Em condições normais e legais, um protetor solar é testado em laboratório quanto à sua eficácia antiUV, numa concentração de 2 mg/cm2. Na prática, esta quantidade corresponde a texturas de creme, espesso. Mas raramente utilizamos estas texturas”, alerta o dermatologista. Isso significa que “quanto mais fina for a textura de um protetor solar, menos provável a proteção real que se obtém”. “Quanto mais fluído for um protetor solar, mais vezes se tem de renovar na mesma área para obter a proteção que vem no rótulo. Aconselhamos protetores solares com índice de proteção solar 30 ou superior (SPF ≥ 30) mas de texturas adequadas, creme ou leite. São pouco aconselháveis, como protetores solares, as texturas muitas fluidas, ditas extremas, e completamente desaconselháveis os ditos transparentes, em sprays ‘invisíveis’ ou óleos, mesmo que indiquem que têm proteção 30 ou 50, pois na prática as pessoas colocam muito pouca quantidade de protetor solar ‘por cm2’, o que significa que podem obter uma proteção solar às vezes inferior a 10...”

DR

Bronzeadores, autobronzeadores e “favorecedores de bronzeado”
Cuidado com os protetores solares que se afirmam como protetores e que ‘favorecem’ o bronzeado. Tal não é possível se falamos em segurança. Uma coisa é termos um autobronzeador para induzir uma cor estética que não tem nada de proteção UV e depois complementar com proteção solar elevada, em texturas adequadas. Na verdade, poderemos ter um protetor solar com proteção adequada antiUVB (que não permitem queimadura solar, mas deixam passar “em quantidade generosa” os UVA, indutores de pigmento, que, como tal, dão a aparência de moreno), mas envelhecem a pele, favorecem vários tipos de cancros de pele à distância e são os principais responsáveis por fotoalergias medicamentosas (com alguns antibióticos, anti-inflamatórios, medicamentos cardiovasculares para a depressão, obesidade, etc) e das cada vez mais frequentes “alergias ao Sol”... Não existe um bom protetor solar que permite ao mesmo tempo um bronzeado significativo.

Tristan Fewings

Qual o meu fotótipo?
Convém “não esquecer o tipo de pele de cada um (o fotótipo)”. Os de fotótipo mais baixo (1 e 2), que desenvolvem muitas sardas, rapidamente ficam queimados e raramente bronzeiam, pelo que têm de ter cuidados muito maiores com o Sol. Mas os de fotótipo mais altos (3 e 4), que raramente ficam vermelhos ou que bronzeiam rapidamente apesar de menos sensíveis, também têm de se proteger, pois o facto de não ficarem vermelhos não significa que não tenham de se proteger e mesmo com proteção elevada.

Não esquecer que os protetores solares não devem servir para prolongar o tempo de exposição ao Sol. Ao fim de 1h30m a 2 horas de uma adequada aplicação, raramente existe proteção suficiente antiUVB e antiUVA, mesmo que se digam resistentes à agua. Deveremos procurar uma sombra e/ou vestir roupa adequada e não esquecer: o ideal é evitar a exposição intencional entre as 11h e 17h. Uma mensagem particular para os trabalhadores ao ar livre e para os praticantes de desportos ao ar livre: “usem roupa adequada, não se esqueçam de chapéu, renovem o protetor solar nas áreas mais difíceis de proteger com vestuário e procurem a sombra”.

Nota: as imagens usadas neste artigo são meramente ilustrativas, não significando qualquer apreciação, positiva ou negativa, dos produtos em causa.

Artigo publicado na edição do Expresso diário de 10/08/2016