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“Vi os meus vizinhos deitados no chão por não conseguirem respirar. Tinham a vida a arder”

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DUARTE SÁ / Reuters

A Madeira está em chamas há quase 48 horas e são já cerca de mil as pessoas desalojadas. Os seus testemunhos começam a aparecer. Tatiana Oliveira vive no Funchal e também ela teve de fugir de casa, logo na noite de segunda para terça-feira. A madeirense de 24 anos conta ao Expresso como viveu duas madrugadas que não mais esquecerá. Um testemunho na primeira pessoa

texto de Tatiana Oliveira (depoimento recolhido por Flávia Tomé)

Parecia um dia perfeito para aproveitar a praia. 15h30 e o sol no céu. Vi um pouco de fumo e por momentos pensei que fosse uma fogueira. Não era. Foi o início do que viria a ser uma noite para esquecer.

O caos começou a consumir as zonas altas de Santo António, no Funchal. Em poucas horas alastrou-se e chegou perto das nossas casas. Carros de bombeiros com pressa e as sirenes ativas e polícias começaram a subir a minha ladeira, porque as labaredas tinham chegado ao meu “monte”.

Nos bolsos, nas malas, nas mãos, os telemóveis começaram a tocar sem parar. Familiares e amigos queriam saber se tudo estava bem. Na rua, ouviam-se alto e bom som pedidos de socorro. Com filhos ao colo e mochila nas costas, as pessoas começaram a abandonar as suas casas sem tempo para pensar. Algumas fugiam só com a roupa que tinham na pele.

Os bombeiros entraram-me pela casa dentro a dizerem-nos que tínhamos que sair dali. Imediatamente! Estava a ser ameaçada. Pegámos nos cães e fugimos sem levar nada, além do telemóvel e do que tínhamos vestido.

Era quase impossível respirar: no ar criou-se uma nuvem de fumo gigantesca. Escura. Enquanto descia, vi os meus vizinhos a chorar, a gritar, deitados no chão por não conseguirem respirar. Tinham os seus terrenos e casas em chamas. Uma vida a arder. Todos tossiam por causa do fumo e da cinza. E nem um pingo de água corria nas torneiras. Foi o pior cenário em que já estive. O terror.

Fugimos para casa de familiares e esperámos que tudo melhorasse durante a noite. Não melhorou. O vento piorou. As labaredas estavam em todo o lado e envolviam as casas. Os bombeiros exaustos, a tentar salvar tudo e todos.

O fogo ainda está por todo o lado. A imagem que tenho da minha ilha é horrenda. Uma coisa tão linda a ser destruída por causa de um ato irresponsável.

Agora resta-me ficar na varanda de vigia. Tenho de estar atenta e pronta para agir: vou passar a noite a controlar os focos de fogo ainda ativos, a ouvir explosões e de olho nos possíveis incêndios que ameacem o meu monte. Não posso demorar mais. Tenho de ir para a varanda.