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“Água não se recusa a ninguém”: entrevista ao casal que deu de beber a centenas na A1

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LUCILIA MONTEIRO

Paulo Pereira e Lucinda Borges tornaram-se um exemplo de civismo e de boa vontade pelo gesto espontâneo. Sem esperar nada em troca, ofereceram mais de mil litros de água às pessoas retidas durante horas na autoestrada por causa de um incêndio que cortou a circulação. A fama alcançada é para o casal uma surpresa

A história de um casal de Avanca, em Estarreja, continua a sensibilizar o país. O caso não é para menos. Este domingo, Paulo Pereira, de 44 anos, e Lucinda Borges, de 33, ofereceram mais de mil litros de água, comprados do próprio bolso, a muitos condutores que estiveram retidos durante várias horas na A1, no sentido Porto-Lisboa, devido ao corte na autoestrada motivado por um incêndio. O gesto de espontânea bondade foi registado num vídeo amplamente divulgado nas redes sociais e rapidamente o acontecimento atingiu proporções que os Pereira nunca imaginaram.

Em entrevista ao Expresso, Paulo, o homem que durante várias horas ajudou a matar a sede a centenas de pessoas, afasta o estatuto de herói. Sabe quanto pagou mas recusa divulgar esse montante. “Muita gente quis pagar-nos, mas nós não aceitámos nem um cêntimo. Água não se recusa a ninguém”, afirma.

Durante a tarde de domingo aperceberam-se da extensa fila de automóveis concentrados naquela zona da A1. “Nós moramos mesmo ao lado da autoestrada e vimos muita gente parada. Até pensámos que seria algum acidente”, conta Paulo. Ao aperceber-se do que realmente motivara a o corte da via, o casal pegou em quatro garrafões e algumas garrafas de água para levar ao local.

Um gesto que primeiro se estranha e depois se entranha

Quando se aproximaram da estrada, chegados do meio do mato, foram recebidos com relativa desconfiança. Rapidamente repararam em crianças, idosos e várias grávidas que, debaixo de uma temperatura ambiente abrasadora, penavam no local.

“Quando começámos a distribuir água, toda a gente veio a correr. Parecia o fim do mundo. A água foi toda em segundos”, conta Paulo Pereira. Apesar disso, no meio de tanta procura, houve quem torcesse nariz à oferta. “Eu não quero água, se ainda fosse uma cerveja”, lamentou alguém à dupla benemérita, enquanto outra pessoa lhes oferecia dinheiro para que lhe trouxessem uma sandes. “Não, amigo, não posso trazer quase três mil sandes”, respondeu Paulo.

Esgotadas as escassas reservas iniciais de água que tinham levado, o casal decidiu então deslocar-se de automóvel até ao hipermercado mais próximo, a seis quilómetros de casa, para comprarem dezenas de embalagens de água, cada uma com com seis garrafas de litro e meio de água. Esse percurso foi repetido cinco ou seis vezes, em viagens sucessivas, de cada vez que a mala da viatura ficava vazia.

O carro, conta Paulo, ia sempre completamente cheio com várias dezenas de embalagens. “Foram mais de mil garrafas de litro e meio. Eu nem fiz as contas, foi sempre a carregar. O hipermercado até ficou sem água”, acrescenta agora entre risos.

“Não conseguia acreditar no que estava a ver”

Pedro Ladeira foi uma das muitas pessoas que ficaram retidas durante mais de cinco horas na A1. Viajava numa carrinha de nove lugares, onde seguiam também duas pessoas idosas, e a única garrafa de água de que dispunham já tinha acabado há muito.

Ao Expresso, este condutor explica que durante a longa espera debaixo de um sol abrasador, e com os termómetros a marcarem 42º, “as pessoas fizeram de tudo”: umas estenderam toalhas na berma da estrada e deitaram-se, outras montaram mesas e cadeiras.

“As pessoas estavam sem água e completamente abandonadas”, conta Pedro Ladeira, que no momento em que viu um automóvel estacionar junto à vedação e um casal começar a distribuir garrafas de água pensou: “Só faltava isto, virem agora fazer negócio para aqui”.

Afinal, o motivo que levou Paulo e Lucinda a sairem de casa e comprarem água para as pessoas sedentas não tinha qualquer finalidade comercial. Para surpresa de todos os retidos, estavam ali apenas para ajudar e evitar possíveis casos de desidratação. “Nem conseguia acreditar no que estava a ver”, confessa Pedro Ladeira, assumindo que esse foi um gesto que o “tocou profundamente”.

Para este condutor, não existem palavras suficientes para classificar o gesto de “heroísmo espontâneo”, realçando o “ato de profundo civismo e mérito” do casal.

Já o casal Pereira continua surpreendidos com a mediatização que o caso adquiriu. “Não estávamos à espera de nada. Nunca na vida pensei que isto pudesse ser tão falado”, diz Paulo. “Recebemos comentários positivos e outros negativos, de pessoas que dizem ser impossível transportar mil garrafas de água. Mas quando algum comentário menos bom aparece, logo outros confirmam que é verdade aquilo que fizemos”, explica, Paulo, satisfeito com o reconhecimento: intensos e meritórios aplausos dos condutores quando, após uma longa espera e já ao início da noite, a circulação rodoviária foi reposta.