Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Praia Maria Luísa: um susto de 1000 toneladas

  • 333

Catarina Guerreiro

Tudo começou com um grito de “fujam!, fujam!” e acabou em alívio. Na praia Maria Luísa, onde em 2009 morreram cinco pessoas, todos os anos há três desmoronamentos. Um deles aconteceu este domingo, mas a operação noturna para a retirada das pedras confirmou não existirem vítimas

“Fujam!, fujam!”, gritou uma das mulheres do grupo que cerca das 12h45 deste domingo passeava à beira-mar, junto às rochas, mesmo na ponta da praia Maria Luísa, no Algarve. Parte da arriba estava a cair com força e estrondo. Além do barulho, viu-se fumo pelo ar.

Sem perceber bem o que acabara de acontecer, o grupo de dois casais afastou-se da zona enquanto desabafava a todas as pessoas com que se cruzava: “Tivemos uma grande sorte”. E nem calculavam quanto. A derrocada que ali aconteceu foi uma das maiores dos últimos tempos. Foram 1000 toneladas, segundo adiantou ao Expresso Sebastião Teixeira, diretor regional do Algarve da Agência Portuguesa do Ambiente – APA. Foi um desmoronamento cinco vezes maior do que aquele que sucedeu em 2009 na mesma praia e que causou cinco mortes, de acordo com a avaliação técnica já feita por este organismo do Ministério do Ambiente. O mais comum é ocorrerem quedas de 50 a 100 toneladas, acrescenta Sebastião Teixeira.

Apesar da dimensão, as autoridades acreditaram desde o início que não havia vitimas. No entanto, este domingo, às 21h, uma escavadora e duas retroescavadoras entraram pelo areal para remover os escombros e descobrir se havia alguém soterrado ou se tudo não tinha passado de um grande susto.

A conduzir um destes veículos estava José Agosto Silva, que no acidente de 2009 foi chamado também àquela praia para retirar pedra, tendo sido ele quem encontrou o único sobrevivente. Esta madrugada, passavam 14 minutos da meia-noite quando o seu trabalho terminou e as autoridades deram por concluída a operação. Tinham passado quase 12 horas desde que tudo começara.

Medo e confusão

Poucos minutos depois do desabamento da arriba a confusão instalou-se na praia. Os banheiros correram para o local do acidente e aos poucos surgiram os bombeiros e os agentes da polícia marítima.

À entrada da praia estavam três ambulâncias e uma viatura do INEM para o caso de serem necessárias. Começou a circular a informação, em vários meios de comunicação social, de que estavam quatro pessoas debaixo dos escombros e que havia vários feridos. No areal, a polícia marítima pediu aos banhistas que evacuassem a zona e deixassem um corredor livre no meio, para que os bombeiros e as escavadoras pudessem passar. Apesar de alguns garantirem que estava gente debaixo das rochas, os nadadores-salvadores duvidaram desde o início desse cenário. “Falámos com as pessoas que estavam lá e parece que não havia ninguém”, diziam a quem lhes ia perguntar se havia vítimas.

Entre os banheiros estava Celestino Monteiro, de 70 anos, e que há 34 toma conta desta praia. A sua tranquilidade foi acalmando muita gente, que ainda se lembra de o ver a correr a tentar ajudar e retirar as pessoas que em agosto de 2009 ficaram debaixo das pedras que caíram de uma outra arriba na mesma zona. Ele está habituado a ver derrocadas na ‘sua’ praia e conhece os sítios mais perigosos. Por isso, quando este domingo os jornalistas estavam no local a filmar, foi avisar os elementos das autoridades marítimas que os afastassem dali por estarem ao pé de uma arriba com uma grande racha.

Celestino Monteiro, que foi condecorado pelo ex-Presidente Cavaco Silva, é o banheiro da praia recordista neste tipo de acidentes. Segundo dados oficiais da APA, a Maria Luísa, na Balaia, concelho de Albufeira, é a praia com mais derrocadas do Algarve. Todos os anos há em média dois a três desmoronamentos.

Os números da APA, a que o Expresso teve acesso, revelam ainda que, por ano, a taxa média de recuo das arribas algarvias é de dois centímetros – na Maria Luísa é de 20 centímetros. Aqui, o tempo médio de vida de uma arriba é de 15 anos, enquanto a média nas outras praias é de 500. Mas o principal problema está na zona poente do areal, no local onde este domingo se viveu um dia de sorte – por debaixo das mil toneladas de rocha, não estava mesmo ninguém.