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Quando a política vai a banhos

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Todos os anos, a classe política despe as vestes formais e apresenta-se aos (e)leitores numa versão mais distendida. Mas as férias nem sempre são sinal de descanso

ILUSTRAÇÃO Alex Gozblau

E de repente o ministro das Finanças aparece em tronco nu na capa de um diário. Está na praia, dentro de água, a ajeitar os calções. Dias depois de terem sido notícia por poderem atrapalhar os trabalhos da comissão parlamentar de inquérito à recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, as férias de Mário Centeno tornam-se notícia por aquilo que são: férias. Com a família, na praia do Cabeço, no Algarve. A informalidade da imagem causa alguma estranheza a quem se habituou a reconhecê-lo apenas de fato e gravata. Mas chegamos a esta altura do ano e o cliché faz o seu caminho: os políticos vão de férias e isso (também) é notícia.

É um clássico. Estival e editorial. E como clássico que se preze, deixou já um imenso acervo de memórias visuais. Mário Soares e os seus banhos e passeios presidenciais no Vau e em Alvor; Francisco Pinto Balsemão, então primeiro-ministro, a jogar à bola na praia; Cavaco Silva a ser entrevistado pela RTP à beira-mar e em tronco nu; António Guterres a sair da praia com a sua cadeira desdobrável debaixo do braço; José Sócrates a repousar à beira da piscina do Pine Cliffs; Passos Coelho a circular de calções e polo pelas ruas de Manta Rota com os sacos de plástico das compras de supermercado ou a sair do mar após um mergulho com a mulher, Laura.

Em comum, estes líderes políticos têm não só o pormenor de serem apresentados — como Centeno — numa versão menos formal, mas também o facto de terem escolhido o Algarve como destino de férias. Outro clássico: entre finais de julho e meados de agosto, as praias desta região tornam-se o epicentro do país. Do povo em geral e dos políticos em particular. E este ano não será diferente: mais de metade dos políticos que aceitaram partilhar com o Expresso os seus destinos de férias têm a totalidade, ou pelo menos parte, do seu tempo de descanso reservado para a região mais a sul de Portugal. E os jornalistas lá estarão para tentar mostrar como foi.

SUL Passos Coelho, que há vários anos goza férias com a família em Manta Rota, no Algarve, chegou a pedir aos seus ministros, em 2012, que tivessem “bom senso” e “recato” nas escolhas dos seus destinos de férias. Durante o mandato como primeiro-ministro o líder do PSD fez aliás questão de deixar-se fotografar, nas férias de verão, em várias situações que o colocavam ao nível do turista comum (com exceção dos seguranças que acompanhavam, à distância, os seus movimentos).

SUL Passos Coelho, que há vários anos goza férias com a família em Manta Rota, no Algarve, chegou a pedir aos seus ministros, em 2012, que tivessem “bom senso” e “recato” nas escolhas dos seus destinos de férias. Durante o mandato como primeiro-ministro o líder do PSD fez aliás questão de deixar-se fotografar, nas férias de verão, em várias situações que o colocavam ao nível do turista comum (com exceção dos seguranças que acompanhavam, à distância, os seus movimentos).

FOTO PEDRO SIMOES

As férias e o jogo político

Embora o noticiário sobre as férias dos políticos esteja tradicionalmente mais relacionado com fait-divers ou páginas do social, também já aconteceu este período de pousio entrar no argumentário do debate político. Não há muito tempo, aliás, em junho de 2011, o primeiro Governo liderado por Passos Coelho foi notícia por ter decidido, logo após a tomada de posse, que nenhum dos ministros gozaria férias nesse verão, de forma a aproveitar os primeiros meses em funções para pôr em marcha “o essencial das decisões” relacionadas com a adoção do programa da troika. Uma promessa que não impediu o próprio Passos de gozar alguns dias de descanso no início de agosto desse ano. Numa casa alugada no local do costume: Manta Rota.

Ao mesmo tempo que nos remete para uma ideia de descanso, o nome desta localidade algarvia — Manta Rota — sugere também de forma subliminar a ausência de luxo. E esse foi outro mote para, em 2012, as férias do Governo PSD-CDS entrarem novamente na agenda mediática. Agora pelas sugestões de “recato” e “bom senso” nas escolhas dos destinos de férias. As viagens para o estrangeiro terão sido mesmo formalmente desaconselhadas nesse ano, numa reunião do Conselho de Ministros. A intenção foi evitar críticas ao Governo, numa altura em que aquilo que os portugueses mais sentiam na pele não era o sol, mas sim as medidas de austeridades adotadas ao abrigo do resgate financeiro de que o país fora alvo.

Mas houve também casos em que as férias dos governantes irromperam pelo debate político devido a acontecimentos que não estavam na agenda. Foi o caso, por exemplo, das primeiras férias de José Sócrates na condição de primeiro-ministro, em 2005, quando decidiu viajar com os filhos para o Quénia, para fazer um safari. O problema não esteve no destino, mas sim no facto de durante essas férias Portugal ter sido assolado por uma das maiores vagas de incêndios da sua história.

Sócrates estava a 10 mil quilómetros, não interrompeu as férias e foi acusado pela oposição de virar as costas a um país que “estava a arder”. José Sócrates, que então se fez representar no acompanhamento dos incêndios pelo seu ministro de Estado e da Administração Interna, António Costa, acusou os partidos da oposição de “demagogia” e “mesquinhez”. Até porque, garantiu, esteve sempre contactável e a acompanhar a situação pelo telefone. Quatro anos depois, em agosto de 2009, tanto Sócrates como Cavaco interromperam as suas férias para acompanharem no local os familiares das cinco vítimas mortais resultantes do desabamento de uma parte da falésia na praia Maria Luísa, no Algarve.

Noutro plano, menos trágico e mais cómico, ficou também para a história a manchete do jornal “Independente” no início da década de 90, com uma foto do então primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva com a sua mulher, Maria Cavaco Silva, a caminho da praia e o título “Afastem-se”. Por baixo da imagem, na primeira página, o jornal então dirigido por Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso escrevia: “É um espetáculo policial. Quando Cavaco Silva chega à praia do Barranco, sete seguranças armados abrem caminho. A estrada é cortada e ninguém pode sair nem entrar. Na areia e na água, os veraneantes são ‘convidados’ a debandar para Sua Excelência se bronzear e nadar. A reportagem surpresa sobre os novos hábitos de uma família que já foi humilde.”

SUL António Guterres também teve no Algarve um dos seus destinos habituais de férias. A foto ao lado foi tirada em agosto de 1995, a cerca de dois meses das eleições legislativas que o levariam a assumir o cargo de primeiro-ministro

SUL António Guterres também teve no Algarve um dos seus destinos habituais de férias. A foto ao lado foi tirada em agosto de 1995, a cerca de dois meses das eleições legislativas que o levariam a assumir o cargo de primeiro-ministro

FOTO RUI OCHÔA/EXPRESSO

SUL Mário Soares teve na sua casa na Praia do Vau, em Portimão, um destino habitual de férias e descanso, independentemente da altura do ano.

SUL Mário Soares teve na sua casa na Praia do Vau, em Portimão, um destino habitual de férias e descanso, independentemente da altura do ano.

FOTO RUI ÔCHOA/EXPRESSO

Relaxar Cavaco Silva e Maria Cavaco Silva, em agosto de 1990, na ilha do Príncipe, em São Tomé

Relaxar Cavaco Silva e Maria Cavaco Silva, em agosto de 1990, na ilha do Príncipe, em São Tomé

FOTO LUSA

E como vai ser este ano?

Talvez para evitar acompanhamentos mais arrojados como o do “Independente” — e até porque, diz, o seu conceito de férias não inclui a presença de jornalistas —, o atual primeiro-ministro António Costa preferiu não explicar ao Expresso onde ou quando iria passar as suas férias este verão. À agência Lusa, fonte do gabinete de Costa adiantou apenas que as férias do primeiro-ministro constarão de “uns dias na primeira semana de agosto”, na companhia da família e “no Sul de Portugal”. Leia-se Algarve. O Algarve será também o destino do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que ali passará, como habitualmente, cerca de 15 dias, em família, entre os dias 10 e 24 de agosto. Por lá andará ainda a ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques, nas duas primeiras semanas de agosto.

Na quinzena seguinte será a vez do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, rumar a Vilamoura, para cumprir a tradição de ali passar parte das suas férias com a família. Segundo o ministro, de resto, a única diferença que o exercício de funções governativas impôs nas férias deste verão foi a redução do tempo passado em Vilamoura. Quanto a planos para o descanso, estes incluem a leitura de “vários romances a escolher mais perto da data” e, acima de tudo, “tirar partido do único momento em que é possível conviverem as quatro gerações da família”.

Igualmente pelo Algarve vai estar Passos Coelho, que cumpre assim a tradição de passar a primeira quinzena de agosto com a família na Manta Rota, antes do tradicional comício de rentrée do PSD, no Pontal. Durante este período de descanso, Passos coincide ainda em terras algarvias com a líder do CDS, Assunção Cristas, que passará as segunda e terceira semanas do mês de toalha ao ombro, com a família, naquela região. Mais à esquerda, Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, andará também pelo Sul do país “com a família, de fim de julho ao princípio de agosto”. A sua ‘companheira’ de ‘geringonça’, Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, vai circular entre o Norte do país e os Açores na primeira quinzena de agosto. No arquipélago açoriano pode bem dar-se o caso de Catarina se cruzar com Carlos César, que depois de passar uns dias de férias com amigos em Lagos — no Algarve, lá está... — voará para São Miguel para uns dias de férias que já se deverão misturar com compromissos políticos. Para um pouco mais longe irá voar o primeiro deputado do PAN, André Silva, que se prepara para uma viagem de três semanas entre Tibete, China e Nepal. Uma pequena digressão que, conforme explicou à Lusa, terá por objetivo descansar e fazer um balanço das reviravoltas da sua vida desde as legislativas de 2015 e ter “um contacto profundo com a natureza”. Nas duas primeiras semanas terá a companhia da mulher, mas a terceira semana de viagem, rumo ao Nepal, será feita a solo.

Já Heloísa Apolónia, do PEV, irá repartir o período de descanso, em agosto, entre Lisboa, o Algarve e a Costa Alentejana. Também na Costa Alentejana vai estar o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, que explicou ao Expresso passar férias há 30 anos “sempre na mesma praia e na mesma casa alugada junto ao rio”. Companhia? “A família próxima e alguns amigos que passam por nós no Sudoeste”, diz. Como sempre. “A única diferença em relação aos anos passados é que as férias desta vez serão mais curtas.” Governo oblige.

Mais habituado às contingências governativas, o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva, também assume que, ao contrário de verões mais recentes, “este ano as férias concentram-se num único período e foram ajustadas às funções e responsabilidades inerentes ao ministério”. A ‘concentração’ ocorrerá nas segunda e terceira semanas de agosto, na companhia da família e no destino habitual: a região do Oeste, entre Peniche e Aveiro. Quanto a planos, o grande objetivo é fazer aquilo que o tempo não permite no resto do ano. “Dar uns passeios, ler romances, cozinhar, dormir um pouco mais e tomar tantos banhos de mar quanto o clima muito especial daquela região o permitir.”

Relaxar o então comentador e professor universitário Marcelo Rebelo de Sousa, em agosto de 2007, na praia do Gigi

Relaxar o então comentador e professor universitário Marcelo Rebelo de Sousa, em agosto de 2007, na praia do Gigi

FOTO JOÃO LIMA/CARAS

Relaxar Jorge Sampaio e Maria José Ritta nas férias presidenciais de 2000

Relaxar Jorge Sampaio e Maria José Ritta nas férias presidenciais de 2000

FOTO ANA BAIÃO/EXPRESSO

A liberdade de não governar

Se para os atuais governantes o gozo de férias está limitado pelo exercício de funções, em sentido contrário há este ano quem se sinta pela primeira vez mais liberto para organizar o descanso. É o caso de um protagonista político ‘acidental’ dos últimos anos, o ex-presidente do Tribunal Constitucional, Joaquim Sousa Ribeiro, que vai “finalmente ter férias”, depois de largos anos com direito a apenas uma semana de descanso.
Mas, duas semanas depois de ter deixado o cargo, o destino ainda é uma incógnita. “Costumo decidir de véspera. Não sei ainda para onde vou este ano. Até porque não sabia ainda se a substituição ficava mesmo decidida agora”, explicou ao Expresso, sem pressas para decidir. “Em agosto faço 70 anos, vou jubilar-me, portanto vou ter tempo para longuíssimas férias”, resumiu.

No plano político, deputados como Maria Luísa Albuquerque (ex-ministra das Finanças), Paula Teixeira da Cruz (ex-ministra da Justiça) ou Pedro Mota Soares (ex-ministro da Solidariedade, Trabalho e da Segurança Social) foram unânimes em eleger como principal diferença entre as férias dos últimos quatro anos e as deste verão o pequeno privilégio de terem agora “mais tempo” para as gozar. Já sobre o onde, quando ou com quem, a reserva de privacidade foi palavra de ordem. “Olhe, vou passá-las fora do ministério, o que já é bom”, diz Mota Soares.

O antigo ministro da Defesa Aguiar Branco — que depois de deixar o Governo se ‘vingou’ numas férias com todos os filhos, “o que já não acontecia desde 2011” — voltará este ano “ao Algarve, destino habitual, com mais tempo para descansar”, na companhia da família. Na mala levará os livros “O Que Resta da Esquerda”, de Nick Cohen, e a “A Felicidade Paradoxal: Ensaio sobre a Sociedade de Hiperconsumo”, de Gilles Lipovetsky.
Menos reservado — apesar de sublinhar que a pergunta do Expresso sobre a companhia de férias “já está nos limites da invasão de privacidade —, Miguel Poiares Maduro, ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional no Governo PSD-CDS, assume que passará as suas férias sobretudo com família e amigos”. “Sobreviveram à minha passagem pelo Governo. E até fiz amigos novos, por incrível que pareça! Não sei é se mais ou menos que os inimigos feitos”, ironiza.

Sobre o destino de férias é que Poiares não tem ainda certezas. Como sempre. “Quer antes, quer durante, quer após o Governo não tendo a planear as férias com grande antecedência. É um pouco ao sabor do momento. A única diferença é que tinha bem menos tempo e flexibilidade durante o período no Governo”, justifica. Durante o verão, o professor universitário muda a sua ‘base’ de Florença para Lisboa e será a partir daí que partirá para alguns dias de descanso, entre a Figueira da Foz e o Algarve. “Quanto ao resto, nada previsto para já. Como o meu trabalho me leva a viajar muito e por todo o mundo, a preocupação principal nas férias está mais em descansar do que em viajar”. Porque, diz, “certas viagens de férias podem ser mais cansativas do que trabalho”.

Assumindo-se como “um enorme consumidor de filmes, séries e documentários” e entusiasta do Netflix — “no geral, vi mais séries boas este ano do que filmes” —, o antigo ministro vai aproveitar este período. Na literatura, as opções recaem sobre “vários livros sobre processos de decisão: o que determina as escolhas que fazemos e porquê” e “textos programáticos históricos do PSD”, para preparar a aula que dará na universidade de verão dos sociais-democratas.

E conselhos para um ministro em funções que esteja a planear férias? Há? Sim: “Que não as organize”, porque “terá, seguramente, que alterar os planos que fizer”. “O melhor é aproveitar o tempo livre durante o verão para dormir e descansar! O país agradece: tomam-se piores decisões quando se está cansado...”