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Os mistérios da orelha de Van Gogh

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Retrato de Van Gogh por Emile Schuffenecker patente nesta exposição

Retrato de Van Gogh por Emile Schuffenecker patente nesta exposição

Heleen van Driel

Os acontecimentos que Van Gogh protagonizou na atribulada noite de finais de dezembro de 1888, que terminou com a mutilação da sua própria orelha, viveram quase sempre toldados por incertezas e versões com pontos de vista diferentes.

Sabe-se que, depois da chegada, algum tempo antes, do colega Paul Gauguin a Arles, e de alguns ensaios de trabalho conjunto, a relação entre ambos os pintores começou a deteriorar-se. E, nessa noite, as tensões que ali se juntaram e as suas consequências são agora as peças centrais de uma exposição e um novo livro que, mais do que nunca até aqui, procuram esclarecer o que de facto aconteceu.

Com o título “On the Verge of Insanity”, a exposição que acaba de inaugurar no Museu Van Gogh (em Amesterdão), ficando ali patente até 25 de setembro, procura não só averiguar os acontecimentos dessa noite como juntar contribuições que permitam determinar a doença psiquiátrica de que o pintor padecia e tentar compreender as razões do seu suicídio, em julho de 1890.

Algumas importantes contribuições para o que a exposição agora revela surgiram de estudos de Bernardette Murphy, que editou há poucos dias o livro “Van Gogh’s Ear: The True Story” (Chatto & Windus, 336 páginas). Ao apresentar as suas conclusões aos responsáveis do museu holandês, o entusiasmo partilhado abriu caminho a esta exposição. No seu livro, Bernardette Murphy conta que, num acesso de loucura, Van Gogh cortou ele mesmo a sua orelha e deixou-a num bordel perto da casa onde vivia. Entregou-o nas mãos de uma jovem que ali trabalhava, especulando a autora que esse pormenor terá representado um gesto nobre do pintor para com a rapariga, agindo o pintor em nome da sua saúde. A autora não só localizou os familiares da jovem como, através dos registos clínicos, chegou a um retrato mais detalhado sobre o modo violento como o corte foi efetuado.

Os registos do Dr. Felix Rey, que acompanhou a convalescença de Van Gogh, foram achados por Bernardette Murphy num arquivo americano. Foi entre esses documentos que ficou claro que a intenção de Van Gogh era a de cortar a orelha por inteiro (o que não aconteceu), tal e qual o descreve e esboça numa nota que o médico redigiu em 1930 para o escritor Irving Stone e que hoje integra o acervo da biblioteca Bancroft da Universidade da Califórnia. Nesta nota o médico desenha o que restou do lóbulo após o corte. O livro, tal como a exposição, nota, contudo, como as próprias descrições do médico não são sempre coincidentes. E recordam uma outra descrição sua, datada de 1922, onde menciona que, de toda a orelha, Van Gogh só não cortou o trago. Se a intensidade violenta do golpe passou a ser uma certeza com estas descobertas, já a precisão do trajeto da lâmina é uma dúvida ainda em aberto.

Perante as revelações feitas pelo livro e pela exposição, um jornalista do “The Art Newspaper” partiu em busca dos documentos que lhe permitiram avançar com a única revelação que o livro deixara por fazer (e que a autora justifica em função do que garantiu aos seus familiares): o nome da jovem a quem Van Gogh deu a orelha cortada. O trilho levou-o ao nome de Gabrielle Berlatier, filha de um camponês que havia sido mordida por um cão raivoso e que, para pagar os tratamentos, trabalhava, como empregada de limpeza, no bordel na Rue du Bout d’Arles onde, pelas 23h30 do dia 23 de dezembro de 1888, Van Gogh cortou a orelha. Gaugin deixaria Arles no dia de Natal.

Gabrielle fez depois silêncio sobre aquela noite durante toda a sua vida.

Sobre o diagnóstico psiquiátrico de Van Gogh a exposição levanta depois pistas mas não tira conclusões. Essas deixa-as para um simpósio sobre este mesmo tema que ali reunirá especialistas desta área entre 14 e 15 de setembro. A exposição inclui ainda o revólver achado num campo perto do castelo de Auvers-Sur-Oise apenas em 1960 e que se crê ter sido a arma com a qual o pintor se suicidou. O tipo de revólver usado ajuda a explicar as características do ferimento que só causou a morte a Van Gogh cerca de dois dias depois de disparado o tiro fatal, ficando a bala alojada no seu peito. Está ali também patente um abaixo-assinado dos moradores de Arles (achado nos arquivos municipais), que pedia que o pintor fosse obrigado a deixar a Casa Amarela onde residia em 1888.