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Chegou o futuro infeliz

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FOTO CHAD BATKA/GETTY IMAGES

A resistência de muitos republicanos a Trump não é ideológica. É por ser um outsider. Ele apanhou os republicanos perdidos numa deriva identitária e direcionou-os para um populismo pragmático: nacionalista, securitário, anti-imigração e protecionista. Um populismo que entra mais no eleitorado democrata e independente do que o fanatismo conservador e religioso que hoje domina o seu partido, representado pelo vice que escolheu para compensar a sua moderação em matéria de costumes. Trump não radicalizou os republicanos, escolheu um radicalismo diferente. Deu voz a um país frustrado com a política, paralisado em Washington e dividido pelo ódio. E Hillary é, por tudo o que representa, a adversária ideal. Antes de partir para Filadélfia estive em Cleveland, durante a convenção republicana. Assustei-me. Mas recordo que isto não começou agora. Vou longe, ao final dos anos 60

O hio City é um dos bairros mais antigos de Cleveland. Os cafés da Market Avenue, com as suas simpáticas esplanadas à sombra, costumam ser movimentados. Mas o encerramento da ponte que permite atravessar o rio Cuyahoga para o centro da cidade deixou o bairro às moscas. Margaret, já perto dos 60 anos, empregada do único lugar onde se pode beber um café aceitável, lamenta a causa da debandada. Ela apoia Hillary desde sempre e, como a maioria dos americanos com que falei e que não pensam votar em Trump, parece estar tão à nora como qualquer europeu. É como se parte da América se tivesse tornado estrangeira para a outra parte.

“O país está totalmente polarizado. Os políticos não falam uns com os outros. Ted Cruz gabava-se, há uns temos, de ter paralisado o Governo num tema qualquer. Como se isso fosse motivo de orgulho. Como se negociar fosse mau. Temos de ter algumas coisas em que nos entendemos, bolas!” E Margaret reconhece que a mudança foi rápida. Lembra-se da resposta que um McCain assustado com o que estava a acontecer à América deu a uma apoiante que dizia que não confiava em Obama por ele ser árabe: “Ele é um homem de família, um homem decente. Um cidadão de quem discordo em assuntos fundamentais, e esta campanha é sobre isso.” Hoje, este gesto seria impensável. E só passaram oito anos. Mas porquê Trump, pergunto? Pensa, hesita. “Talvez as pessoas se sintam mais poderosas ao ouvir aquelas coisas. Estão todas com tanto medo.”

Quando saio do café aventuro-me a atravessar a ponte Carnegie. Há uma semana estava muito diferente. Os Cleveland Cavaliers foram campeões nacionais de basquetebol e mais de um milhão de pessoas invadiu a cidade. A ponte ficou cheia até se temer que cedesse. Agora não há uma única pessoa. Só um carro da polícia. Uma hora depois chego à Prospect Avenue, onde fica uma das portas para os delegados entrarem para a zona restrita que os levará à Quicken Loans Arena, o pavilhão dos Cavaliers onde está a decorrer a convenção republicana.

Uma apoiante de Trump beija uma cruz no exterior onde decorria a Convenção do Partido Republicano

Uma apoiante de Trump beija uma cruz no exterior onde decorria a Convenção do Partido Republicano

FOTO ADREES LATIF REUTERS

A confusão de gente é total. Delegados, jornalistas e americanos vindos de todos os cantos, com cartazes com as mais variadas e delirantes mensagens. Num estúdio exterior da MSNBC um ecrã gigante transmite a conferência de imprensa do responsável pela investigação do FBI aos assassínios de polícias em Baton Rouge, Luisiana. Depois de uma sucessão de casos mediáticos de negros desarmados mortos por polícias, houve vários casos de ataques a polícias por negros. Na rádio local, nas televisões locais, nos jornais, em todo o país, só há um assunto: os crimes, o terrorismo e o medo.

E este é o momento em que ando para trás, para perder algum tempo com um episódio que, não sendo fundamental para a compreensão da história dos Estados Unidos, marca o início de uma nova era na política norte-americana. Aconteceu num tempo com alguns paralelismos com este. Corria o ano de 1968 e preparavam-se as convenções republicana e democrata. Em Miami, a primeira, em Chicago, a segunda. Os democratas tinham como candidato o vice de Johnson, Humbert Humphrey. Um homem que não concorrera às primárias mas que, com o assassínio de Bobby Kennedy, acabara por ser o escolhido pelos delegados. Os republicanos elegeram Nixon enquanto brilhava uma nova estrela: o governador da Califórnia, Ronald Reagan. Desde a candidatura de Barry Goldwater, quatro anos antes, iniciara-se uma deriva conservadora no partido. A América rebentava pelas costuras. John Kennedy estava morto, Bobby Kennedy estava morto, Martin Luther King estava morto, Malcom X estava morto. Todos assassinados. Vivia-se em cima de um barril de pólvora racial, a juventude rebelava-se contra a guerra do Vietname, e o americano médio assustava-se com o que lhe parecia ser o fim dos tempos.

À direita, um jovem intelectual, arrogante, provocador, talentoso, afetado e que fazia o seu conservadorismo parecer revolucionário dava nas vistas na televisão: William Buckley Jr., que dirigia a “National Review”, falharia como político mas seria o ideólogo irrequieto do movimento conservador iniciado por Goldwater. À esquerda, um intelectual assumidamente homossexual, arrogante, velhaco, talentoso, afetado e que fazia o seu liberalismo parecer patriótico dava nas vistas na literatura: Gore Vidal. Falharia como político mas viria a ser o biógrafo oficial da América. Apresentado o cenário e os dois atores, falta o palco. A ABC era o patinho feio dos canais nacionais de televisão. Dizia-se, por piada, que se a guerra do Vietname fosse transmitida por eles seria cancelada ao fim de poucas semanas. Sem recursos, tentou inovar. Em vez da cobertura convencional das convenções, teria dez debates entre estes dois intelectuais que à partida representavam tudo o que o americano médio detesta. Inovou mais do que previa.

Os dois eram demasiado parecidos para não se odiarem. E representavam duas ruturas que desafiavam a América a mudar de vida. Eles sabiam que os verdadeiros debates políticos são debates culturais. Até de estilos de vida. Assistir aos combates que os dois protagonizaram durante as convenções é perceber que andamos todos a discutir as mesmas coisas há meio século: a guerra e o imperialismo, a segurança e a desigualdade, a raça e a pobreza. A direita ensaiava o mesmo discurso de hoje: já então a retórica da “lei e ordem” disfarçava a opressão racial e social de um país profundamente desigual e racista. Buckley traduziu: a liberdade produz desigualdade. E isso implica o controlo violento, se necessário for, dos excluídos. Buckley dirigia-se, com o seu descaramento, aos brancos (não obrigatoriamente privilegiados) transidos de medo com a revolta negra, com as suas marchas, com os seus motins. E dizia-lhes que a direita, por não ser suficientemente de direita, não os representava. Assim ia nascendo um movimento interno na direita norte-americana que rapidamente se tornaria hegemónico e cada vez mais radicalizado.

FOTO CHAD BATKA/GETTYIMAGES

A lei e a ordem

É perante esta direita que Donald Trump sobe ao palco da Quicken Loans Arena, no último dia, e afirma: “Eu sou o candidato da lei e da ordem.” A partir daqui, está tudo ligado: imigrantes indocumentados, construção do muro, refugiados, acordos comerciais internacionais. Toda a sua intervenção incendiária mas muitíssimo bem estruturada — tontos são os que continuam a desdenhar Trump — foi, da economia à imigração, digna de um qualquer líder de extrema-direita: a criminalização dos excluídos e a infantilização dos restantes, prometendo protegê-los dos males do mundo. De uma forma mais crua e direta, não é muito diferente do que dizia o jovem intelectual afetado: a desigualdade é inevitável, vamos protegê-la da fúria dos bandidos.

Como também é comum, Trump escolheu representantes das minorias para fazer o discurso contra as minorias. David Carke é xerife de Milwaukee County, no estado de Wisconsin. Fardado, subiu ao palco da convenção para falar do “colapso da ordem social” e colar Hillary Clinton aos que estão do outro lado da lei. E para repetir a mesma palavra de ordem que vi em muitos crachás usados por delegados: “Blue life matters”. A frase (o azul é a cor das forças de segurança) é uma resposta ao Black Life Matters, um movimento cívico especialmente ativo desde as revoltas contra a violência policial em Ferguson, há dois anos. A criminalidade, os abusos policiais, o racismo e a segurança entraram no debate político e seria de esperar algum cuidado. Mas não em Cleveland, não com os republicanos. Rudy Giuliani, antigo mayor de Nova Iorque, conhecido pela tolerância zero contra o crime na cidade, não hesita em aproveitar os assassínios para pôr sangue nas mãos dos democratas: “Todos os polícias aqui em Cleveland vieram dizer-me: ‘Eu tenho um alvo nas minhas costas.’ Pergunto: quem o pôs lá? Vem de cima!” Já próximo do fim da convenção, numa entrevista à Fox News, Donald Trump responsabilizaria o Black Life Matters pelos assassínios de polícias. De um lado os polícias e os republicanos, do outro os criminosos, o Black Life Matters e os democratas. Pouco interessa que os homicídios tenham passado de 5,4 por cem mil habitantes em 2008 para 4,5 em 2014. Quem quiser usar o crime numa campanha ganha sempre. Porque o que conta é a perceção.

General Michael Flynn, antigo diretor da Defense Intelligence Agency (DIA)

General Michael Flynn, antigo diretor da Defense Intelligence Agency (DIA)

FOTO GARY CAMERON/REUTERS

O mesmo se faz com o terrorismo. A tarefa coube ao general Michael Flynn, antigo diretor da Defense Intelligence Agency (DIA), nomeado e afastado por Obama. Resumo: o ISIS é responsabilidade de Hillary Clinton. A guerra do Iraque não interessa, o que interessa é que nasceu durante o seu turno. Flynn, que muito provavelmente será um homem forte numa administração de Trump, representa sem falhas o estilo belicista e voluntarista de Bush e é do agrado do establishment republicano.

À entrada da convenção, Roger Farina, um delegado de Harnett County, Carolina do Norte, filma tudo o que vê. Até me filma a mim enquanto falo com ele. Viveu a sua infância em Nova Iorque e sempre acompanhou Trump com devoção. Um homem de sucesso que mudou a cidade. Um homem que sabe construir e negociar. E é isso que fará na América. E é isso que fará com a parceria comercial transpacífico, tema com que Trump, na sua intervenção final, piscou o olho ao eleitorado de Bernie Sanders. É verdade que Trump herdou a fortuna, mas num país onde o capitalismo é a religião ser rico e ter sucesso vale mais do que qualquer currículo político. Toda a propaganda de Trump baseia-se na ideia de oferecer um excelente CEO aos Estados Unidos. Berlusconi fez o mesmo em Itália.

Mas não chega o sucesso. Roger tenta explicar-me, com visível emoção, o que o liga a Trump: “Quando ele fala, sinto que sou eu a falar. Com as mesmas palavras, as mesmas ideias. E sei que ele vai consertar a América.” E consertar a América é, antes de tudo, resolver o problema da imigração ilegal. Roger é descendente de italianos e casado com uma canadiana que “gastou muitos anos e muito dinheiro a legalizar-se”. O problema dele são “os ilegais, que usam os recursos dos americanos quando há mendigos que precisam de ajuda”. Por isso, venha o muro na fronteira com o México, que Trump diz que serão os mexicanos a pagar. É difícil de construir? Este militar reformado, que esteve duas vezes no Iraque, também esteve na China e viu a muralha. Se eles conseguiram, os EUA também conseguirão. Quando se fala de imigração e de segurança é impossível ouvir os republicanos e não pensar em Marine Le Pen e Nigel Farage (que esteve na convenção). E se há assunto que une o partido é o muro com o México. Trump apenas dá cores mais berrantes à coisa.

Marine Le Pen

Marine Le Pen

FOTO © HEINZ-PETER BADER/REUTERS

Mary Ann Mendoza é mãe do sargento Brandon Mendoza, morto por um imigrante ilegal que conduzia alcoolizado. Como o xerife de Milwaukee com os negros, é um membro da comunidade latina a fazer o papel de acusador. É acompanhada por mais uma mãe e um pai. Todos perderam familiares às mãos de indocumentados. Para quem não percebesse a mensagem — os “estrangeiros ilegais” matam os nossos filhos —, Mary Ann Mendoza deixou o propósito político da sua intervenção bem claro: “Votar Hillary é pôr as vidas dos nossos filhos em risco.”

Cá fora, converso com Louis Murray, que me desfaz a caricatura que não queria encontrar. É de Quincy, Massachusetts. Trabalha para uma seguradora, tem 51 anos, é calmo, simpático, bastante informado e foi o responsável financeiro pela candidatura na sua cidade. É a primeira vez que participa numa convenção. Acredita que Donald Trump tem um olhar para a América: “Aqui, em França, no Reino Unido, os povos estão a voltar a pensar na sua própria identidade e a defendê-la.” E dá o exemplo do ‘Brexit’ para apoiar a sua posição. Apesar dos temas típicos (imigração, segurança, protecionismo, liderança forte), recusa a ideia de que Trump seja de extrema-direita. Não cabe nessas gavetas. É um moderado nos costumes e um “populista e nacionalista” que quer “guardar as nossas fronteiras”. Não explora o medo das pessoas? “Todos os políticos o fazem, de alguma forma. Mas ele é um construtor, tem uma atitude positiva, quer fazer coisas.” “America safe again” e “America great again” são as duas grandes mensagens da convenção. Mas “America first” foi das expressões mais usadas em várias intervenções, incluindo a de Donald Trump. Coincide com o nome do movimento isolacionista que se opôs à participação na II Guerra Mundial e que tinha claras simpatias pelos nazis. Ninguém parece dar por isso.


Separar as águas

O extremismo não é perigoso quando parece extremista. Só se torna perigoso quando parece normal a pessoas normais. E para chegar a esse ponto é preciso que todo o país se tenha radicalizado e não sobrem pontes entre as partes. Isso implica um confronto cultural longo. Começou nesse tempo em que Vidal e Buckley mudaram a forma de discutir política em televisão. Quando se deu o último debate entre os dois, já a convenção democrata ia avançada, Chicago era o retrato extremado do país: manifestações violentas, repressão brutal, bandeiras vietcongues nas mãos de jovens americanos. Com Arthur Miller e Paul Newman, Gore Vidal foi para a rua assistir ao espetáculo e, como muitos americanos, ficou chocado com o grau de violência das forças policiais. No dia seguinte, o tema tomou conta do confronto entre os dois intelectuais, que se concentravam quase exclusivamente na destruição da credibilidade um do outro. Com venenosos exercícios de estilo, de uma qualidade impossível de ver hoje na televisão, nenhum queria convencer ninguém do lado de lá. Aquele confronto era para separar as águas. Prós e contras, como foi depois repetido como modelo geral em debates televisivos caricaturais sobre tudo, onde brilharam os mais insensatos idiotas. Aquilo era um confronto identitário, não um debate. Para matar.

FOTO © JIM YOUNG/REUTERS

Indignado com o que dizia sobre a repressão policial em Chicago, durante a convenção democrata, Vidal chamou “criptonazi” a Buckley. Este fez um esgar de ódio e disse o indizível, pelo menos em 1968: ameaçando partir Vidal ao meio, usou a expressão “queer” (“maricas”) numa televisão nacional. Na régie, conta-se no documentário “Melhores Inimigos” (pode ver-se na Netflix), um responsável pela ABC perguntava: “Eles podem dizer isto na televisão?” “Já disseram”, responderam-lhe. E as coisas nunca mais seriam como antes. Os alegres guerreiros, como mais tarde se definiu Vidal, ainda com o sabor do ódio na boca, tinham chegado para ficar. A novela durou até ao fim da vida de Buckley, com processos judiciais pelo meio e escritos cruéis de parte a parte. Este debate fora o prenúncio de um futuro infeliz, diz alguém no documentário. Esse futuro já chegou, digo eu.

Porque a América regressou à desigualdade dos anos 30 ou porque já nem sequer vê, como em 68, as mesmas televisões, quebraram-se os laços. A direita levou a incomunicabilidade ao extremo e cresceu dentro dela uma franja radical, liberal na economia até à insanidade e conservadora nos costumes até ao criacionismo, com raízes fortes numa América que não se conhece em Nova Iorque ou em São Francisco. Essa extrema-direita fortemente identitária quebrou todos os tabus e partiu a espinha aos republicanos que ainda estavam agarrados aos consensos do passado e a uma certa maneira de fazer as coisas. Terminou o serviço, pode dizer-se, quando o honrado McCain foi obrigado a convidar a analfabeta Sara Palin para sua vice, mostrando como era refém e garantindo a sua já provável derrota. Mas fez um caminho longo: começou nos anos 60, continuou com Reagan, foi mais longe com Bush e rematou com o Tea Party. Trump é apenas o dia seguinte.

Trump Show

Pessoas protestam com cartazes a nomeação de Donald Trump

Pessoas protestam com cartazes a nomeação de Donald Trump

FOTO © ANDREW KELLY/REUTERS

No cruzamento da Prospect Avenue com a East 4th Street, há fanáticos religiosos que prometem o inferno ou a salvação, humoristas anti-Trump, militantes pró-Trump, t-shirts a pedir a prisão de Hillary, cartazes que declaram o seu amor ao capitalismo... Jornalistas de sites obscuros entrevistam militantes de organizações ainda mais obscuras. Juntam-se ali todos os malucos da América. E se há coisa que não falta à América são malucos. Nas ruas à volta há manifestações diárias de pequenas organizações radicais de esquerda. A relação entre polícias e manifestantes é claramente favorável aos primeiros, e a relação entre jornalistas e eles todos é esmagadora. Mas assisti, na Public Square, relativamente perto da convenção, a um momento que me deu esperança. Um anarquista empunhava uma bandeira americana insultuosamente virada de pernas para o ar. Um membro do Bikers for Trump indignava-se. O que discutiam? O primeiro defendia a Primeira Emenda, que lhe garante, entre outras coisas, a liberdade de expressão. O segundo defendia a Segunda, que lhe permite andar armado. Em que país do mundo um confronto de rua entre um anarquista e um extremista de direita acaba num debate constitucional? Talvez seja isto que salve a América: com todos os excessos, ninguém se atreve a pôr em causa, pelo menos de forma clara, a democracia. Apesar de tudo, têm uma coisa decente a que se agarrar.

Dentro da Quicken Loans Arena, o início da convenção foi marcado por gritos e incidentes estatutários. Isso permitiu que a generalidade da comunicação social explorasse a ideia de que os republicanos estavam divididos. E estavam. Mas a divisão não é programática ou ideológica. Quanto muito resultará do estilo, que pode assustar um eleitorado que não aprecia a sonoridade fascista de Trump e dos seus apoiantes. Mas incomoda muito mais o facto de Trump ser um outsider, sem currículo político.

Robyn Coran é delegada do Colorado, assessora de um congressista e foi eleita por Ted Cruz. Acha que Donald Trump trabalhou na frustração das pessoas: “As pessoas precisam que lhes digam a verdade.” E disse? “Concordo com muito do que defende, o problema é não bater certo com o que fez.” Lá se vai a esperança de um partido moderado que resiste ao populista. Esperança que, no dia seguinte, Ted Cruz se encarregaria de enterrar definitivamente. Toda a sua intervenção repisou os grande temas de Trump: o muro, a imigração, a insegurança, o protecionismo. É impossível dizer que ele é mais moderado do que Trump. Será apenas mais polido. Foi aplaudido todo o tempo, até rejeitar, na prática, o apoio ao candidato. Só aí foi vaiado. Não há nenhum cisma programático no Partido Republicano. O problema para o establishment republicano não é o que Trump defende, é ser ele a defendê-lo.

O vice escolhido por Trump, o governador Mike Pence, é ultraconservador e ultrarreligioso, responsável por uma lei que permite a empresas ou estabelecimentos comerciais de Indiana recusarem-se, em nome da liberdade religiosa, a atender homossexuais. A escolha feita por Trump foi elogiada por unir o partido. O que quer dizer que ele terá tomado de assalto um partido dominado por ultrarreligiosos de extrema-direita, que são hoje o seu mainstream. Ou seja, Trump não é mais radical, é de um radicalismo de natureza diferente. Teve três mulheres, e, no último dia da convenção, Peter Thiel, fundador da PayPal, disse o impensável a uma sala com milhares de republicanos: “Tenho orgulho em ser gay, tenho orgulho em ser republicano e, acima de tudo, tenho orgulho em ser americano.” É verdade que o disse para explicar que estes temas não são prioritários. Mas fez história.

Socorro-me de uma boa ideia do linguista britânico George Lakoff: Trump é um conservador pragmático. Dirige-se a um eleitor pouco ideológico que, mais do que o poder de Deus, se interessa pelo seu próprio poder, mais do que o mercado livre, se interessa pelo seu pequeno negócio, pelo qual a globalização pouco ou nada faz. Este eleitor gosta de um Governo forte quando lhe é útil, quer um Governo fraco quando o atrapalha. Todas as posições de Trump, na saúde, na educação ou na imigração, resultam deste pragmatismo que os eleitores conseguem compreender. Claro que as suas propostas são absurdas. Porque Trump tem uma experiência política nula. Mas fala do que é visível e tem uma relação direta (e não sistémica) com os problemas: se há muitos imigrantes a virem do México, constrói-se um muro para os travar; se se perdem empregos por causa da Ásia, cria-se uma taxa aduaneira; se há problemas com os muçulmanos, impede-se muçulmanos de entrar no país, resume Lakoff. E Trump tem a vida facilitada. A incorreção política passou a ser um sinal de rebeldia e liberdade. O problema é que a franqueza politicamente incorreta tem custos. No caso de Trump, alienou o eleitorado hispânico, cujo voto é necessário para ganhar as presidenciais. Tudo era mais fácil para Trump se o eleitorado americano fosse mais homogéneo, tão simples como a sua retórica. Não o sendo, Trump tentou, no seu discurso à convenção, reparar o estrago, apontando as baterias apenas para os imigrantes ilegais. Esses não votam.

“Lock her up!”

A convenção foi, como são as suas empresas e será, apesar das esperanças de muitos republicanos, a sua candidatura, uma festa familiar, com filhos, mulher e empregados a discursar. Mostrando que o partido pode querer unir-se mas Trump se está nas tintas para o partido. “Isto é a convenção de Trump”, explicou aos jornalistas o diretor de campanha, Paul Manafort. O caso do plágio da sua mulher, com várias passagens iguais às do discurso que Michelle Obama fizera na convenção democrata de 2008, deixou claro que dirigir empresas não é o mesmo que fazer política.

Melania Trump e Michelle Obama a discursarem na convenção dos seus partidos

Melania Trump e Michelle Obama a discursarem na convenção dos seus partidos

FOTO MIKE SEGAR/REUTERS

Fora o espetáculo mais ou menos falhado de Trump, a convenção foi um festival de ódio. O governador de New Jersey, Chris Christie, aproveitando o seu passado de procurador, apresentou a “acusação” a Hillary Clinton, passando pela Líbia e pelo caso da violação das normas de seguranças na utilização do e-mail pela secretária de Estado. No fim de cada ponto, perguntou: “Culpada ou inocente?” Os delegados responderam: “Culpada!” E remataram, aos gritos: “Lock her up! Lock her up!”

Patricia Smith foi mais uma oradora a falar em nome de um filho morto. No caso, um militar que morreu em Benghazi. Apesar de uma comissão do Congresso não ter encontrado responsabilidade da candidata na morte de quatro militares na Líbia, a mãe, com sofrimento visível, afirmou: “Culpo Hillary Clinton, pessoalmente, pela morte do meu filho.” “Yheeee!”, gritou a assistência. E exigiu: “Hillary para a prisão, ela merece andar de riscas.” Ninguém terá ficado chocado com a utilização desta tragédia pessoal num comício. No meio da bebedeira de ódio, ninguém parece estar sóbrio na sala.

Talvez este ambiente geral ajude a moderar o nosso choque com as tiradas de Donald Trump. O seu discurso, carregado de ódio e ressentimento, com toda a retórica da extrema-direita, é mais fácil por ter havido a crise em 2008. Por Obama ter falhado (não percebemos porque a Europa falhou ainda mais). Porque, tal como Bernie Sanders, dirige-se a um profundo mal-estar da América e sabe que Hillary Clinton será a última a conseguir responder-lhe — nem parece querer, a julgar pela escolha que fez para a vice-presidência. Porque a Fox News, sem a qual é difícil perceber o que se passa com a política americana, diz coisas parecidas todos os dias. Mas, acima de tudo, porque o tal futuro infeliz anunciado pelo final dos debates entre Buckley e Vidal já chegou. Já não há mínimos de entendimento que o confronto sem diálogo não tenha destruído e não há barreiras que o politicamente incorreto — essa autoestrada para a alarvidade onde nem o bom senso nem a civilidade sobrevivem — não tenha derrubado.

Presidente do Congresso Paul Ryan encerra a Convenção do Partido republicano, em Cleveland

Presidente do Congresso Paul Ryan encerra a Convenção do Partido republicano, em Cleveland

FOTO © MARIO ANZUONI/REUTERS

A isto tudo junta-se Washington. Desde que Obama chegou ao poder que os republicanos paralisaram a governação do país. Há uns tempos, o presidente do Congresso, Paul Ryan, disse que “as pessoas olham para Washington e veem o caos”. A revista “Atlantic” completou esta frase com a de Jeb Bush, um dos candidatos derrotados: “Donald Trump é o candidato do caos.” Não o criou, nem sequer se pode dizer que o tenha alimentado. Resulta dele. Chegou a um partido de tal forma perdido que estava disponível para ser liderado pelo primeiro milionário populista que lhe aparecesse à frente. Mesmo que perca — e isso já foi mais provável do que hoje —, ele é o tal futuro infeliz.

Atravesso de novo a ponte, de regresso a Ohio City. Continua fechada ao trânsito e vazia. Vazia não está. Um casal de velhinhos vem no sentido oposto, debaixo de um sol inclemente. Ele carrega uma enorme cruz. No meio de uma estrada vazia, estão a manifestar-se contra os dois candidatos. Queixam-se de que ninguém mais quis vir. Depois de me falarem de uma previsão divina sobre uma guerra com muçulmanos, lá me explicam o que os move contra Clinton e Trump: são dois pecadores. Ela porque apoia o aborto, ele porque foi casado três vezes. Despeço-me, com um abraço sincero, dos dois simpáticos velhinhos. Estou tão cansado. Nem imagino como está a América