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Um adeus romântico ao VHS

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FOTO GETTY

Pedro Miguel Oliveira

Pedro Miguel Oliveira

Exame Informática

Jornalista

Não me esqueço do dia em que o meu pai entrou em casa com ele. Trazia-o numa caixa já aberta. Afinal, na loja de eletrodomésticos do bairro – no início dos anos 80, um bairro a sério tinha de ter uma loja destas – o sr. Neves já lhe tinha feito uma visita guiada completa. Este eletrodoméstico era muito complexo. O “vídeo” (VCR – gravador de vídeo) permitia algo incrível: gravar os programas que passavam na televisão. O meu era VHS, o vencedor da primeira grande luta de formatos de vídeo. Haveria outras. A mais recente pendeu para o lado do Blu-ray e acabou com o rival HD-DVD.

Mas regressemos ao fantástico VHS que derrotou o Betacam. Foi uma vitória motorizada pela indústria pornográfica, que viu no VHS um formato mais barato de trabalhar e aberto – o “Beta” tinha mais qualidade, mas isso não bastou para vencer a corrida da massificação.

O primeiro conteúdo que gravei foi um concerto dos Dire Straits. Passava naquela noite na RTP1. Perdi horas com o meu pai a perceber como é que se programava a gravação. Lá conseguimos e, a partir daí, o “VHS” tornou-se o centro das atenções na sala de estar. Vivíamos uma época sem lei da cópia privada. Passava tardes inteiras em casa de amigos a usar cabos e técnicas de gravação para conseguir passar filmes de Beta para VHS e, claro, de VHS para VHS. As minhas mesadas eram gastas em cassetes virgens onde guardava os meus filmes preferidos. “Os Salteadores da Arca Perdida”, “Goonies”, “Rambo”, “ET”…. E gravava muita TV. Aliás, havia cassetes que já estavam “riscadas” de tanto gravar e regravar.

“Rei” incontestável até 1997

Um pouco de contexto para os que não viveram esta época. Na altura, só víamos filmes nas salas de cinema ou nos horários em que a RTP os passava. Ah! E não havia Internet. Por isso, o gravador de vídeo era tão importante. Aliás, num dado momento, estava em todas as salas de estar portuguesas. Os clubes de vídeo proliferaram e juntaram-se às tais lojas de eletrodomésticos, da padaria e do café da esquina.

O VHS reinou intocável até 1997. Esse foi o ano em que o Digital Versatile Disc (DVD) surgiu. O digital vinha para acabar com a fita. A cassete ia desaparecer, para dar lugar a um pequeno disco. Mas não foi tão rápido quanto todos antecipámos. Foram precisos 20 anos para dar o golpe de misericórdia no VHS. Foi anunciado agora no Japão, como pode ler AQUI. A Funai Electric Company avisou o mundo que vai deixar de fabricar leitores de vídeo. Era a única empresa do mundo a fazê-lo.

É a extrema unção a um dispositivo e a uma tecnologia que sobreviveu, respeitosamente, ao DVD, ao Blu-ray e, principalmente, à Internet.

Formatos que morrem, um após outro

É verdade que não me lembro da última vez que liguei o leitor de vídeo, que está perdido na arrecadação. Aliás, nem sei onde estão as cassetes. Mas o mesmo se passa com os DVD. Não vejo um filme nesse formato há uns três anos. À semelhança de milhões espalhados por todo o mundo, tudo o que vejo é em formato digital. Seja nos serviços de streaming pagos, seja utilizando as capacidades dos serviços de televisão disponíveis em Portugal.

Para mim, e para toda uma geração, o VHS será sempre mais importante que o DVD ou o Blu-ray. Pelas barreiras que quebrou e, até, por nos ter criado alguma apetência pela tecnologia (ligar cabos, perceber de formatos). Mas, no fim romântico ao VHS, a indústria do entretenimento vê espelhado o que vai acontecer ao DVD e, até, ao Blu-Ray. Formatos que ainda vemos nas lojas, mas que perdem mercado de ano para ano, como pode verificar NESTE TEXTO.

“Donos precários” dos conteúdos

Sim, o futuro é o streaming. Esqueça os suportes. Não queremos cassetes, é uma dor de cabeça arranjar espaço para os DVD, e os Blu-ray continuam a ser caros. O ideal é pagarmos uma subscrição para ver tudo o que queremos quando queremos. E isso obriga-nos a ter várias subscrições. Porque há conteúdos exclusivos nos diferentes serviços disponíveis. É assim que vamos reger o nosso acesso a filmes, séries, música… até a livros.

O fim do VHS, do qual já nem nos lembrávamos, recorda-nos que já não queremos ter os conteúdos para sempre connosco. A tecnologia deu-nos a comodidade do on demand e tornou-nos “donos precários” dos conteúdos. Algo que nunca mais vai mudar. Vou recordar para sempre os tempos de experimentação e de muita ingenuidade do início do VHS. Foram únicos…