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Tiago Reis Marques: “Com o passar da idade o cérebro tende a encolher”

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Com o ‘título’ de Melhor Jovem Investigador no currículo, Tiago Reis Marques divide a vida entre a investigação no King’s College e os doentes que atende em Londres e Portugal. O jovem psiquiatra estudou a esquizofrenia, a depressão e a relação de drogas como a canábis com a psicose.

Ricardo Nabais

Agencia Zero

Publicou recentemente um estudo que liga o consumo de canábis a um risco maior de psicose. Esta não é, afinal, uma droga leve?
É importante começar por esclarecer que esta divisão dicotómica em drogas “duras” e “leves” é apenas baseada no potencial de dependência física e, como tal, está de algum modo ultrapassada. Hoje em dia, os organismos de combate às drogas utilizam critérios mais complexos para classificar o risco associado às drogas.

Quais?
O potencial de abuso, a dependência psicológica, o risco de provocar doenças mentais, entre outros. Se olharmos para estes critérios e para as consequências do consumo de canábis, esta não é de todo uma droga “leve”. Sabe-se hoje que é um dos mais importantes fatores de risco para as doenças psicóticas, como a esquizofrenia, da mesma forma que o álcool o é para a patologia hepática e o tabaco para o cancro do pulmão. Através de um exercício estatístico, demonstrámos que se eliminássemos totalmente a canábis conseguiríamos prevenir até 25% dos casos de psicose, o que mostra a sua relevância.

Foi considerado o Melhor Jovem Investigador em 2015. Antes tinha conseguido uma bolsa para estudar as ligações entre neurónios e a genética, com vista a novos medicamentos para prevenir surtos psicóticos. Teve sucesso?
Com esse financiamento eu e a minha equipa conseguimos descobrir áreas anatómicas cerebrais e perfis genéticos que estão implicados na resposta à terapêutica nas doenças psicóticas. A compreensão de uma estrutura formada por quase 100 biliões de neurónios é, como se pode imaginar, extremamente complexa. Desde então estivemos envolvidos no desenvolvimento de um novo fármaco para o tratamento da doença de Parkinson, e muito recentemente eu e a minha equipa obtivemos um novo financiamento desta vez superior a um milhão de libras [cerca de 1,3 milhões de euros] para estudarmos formas de reduzir a inflamação cerebral, algo que sabemos hoje em dia estar implicado na maioria das doenças mentais.

A esquizofrenia tem sido muito estudada nos últimos anos, mas permanece um mistério.
Em 1988, a “Nature” publicou um editorial onde se afirmava que a esquizofrenia era a pior doença que afetava a humanidade. Passados quase 30 anos, reflito cada vez mais nesse texto e em como está correto.

Porquê?
Antes de mais, porque é uma doença exclusiva do ser humano, ao contrário da maior parte das doenças, inclusive mentais, que também existem noutros animais — por exemplo os primatas têm depressão e ansiedade, mas não têm esquizofrenia. Apenas o homem tem o cérebro suficientemente desenvolvido para a ter. Isto torna impossível a existência de modelos animais, o que faz com que a investigação básica seja limitada e os avanços mais lentos. Por outro lado, a doença interfere com o processo de pensamento e a perceção, provocando sintomas como delírios e alucinações, que são muito difíceis de quantificar e estudar.

Recentemente fez uma TED talk no TEDxOporto sobre a relação entre exercício e cérebro. O que se sabe sobre isto?
Este é um hot topic, e começam a surgir imensos estudos sobre esta relação. É preciso perceber que durante anos se pensou que as únicas consequências benéficas do exercício eram sobre o corpo. Mas existem imensas pessoas que fazem desporto regularmente e que nos vinham alertando para sensações subjetivas de bem-estar, redução de stresse e aumento da concentração após a prática de exercício. Estudos com ressonância magnética cerebral mostram, quer em modelos animais quer em humanos, que a prática de exercício tem um resultado visível nas estruturas cerebrais. Com o passar da idade, o cérebro tende a encolher, com uma diminuição do volume de estruturas cerebrais como o hipocampo, a área do cérebro responsável pela memória. Vários estudos mostram que com a prática de exercício aeróbio o cérebro consegue reverter essa redução e inclusivamente várias zonas do cérebro voltam a aumentar de volume.

Além da investigação, também exerce psiquiatria em Lisboa, Coimbra e Londres. Tem agenda cheia para marcações?
Após o meu doutoramento recebi imensos convites de trabalho para a prática clínica. A visão anglo-saxónica tem a perspetiva de que um médico, além da sua componente assistencial, tem também de investigar e assim contribuir para compreender e tratar as doenças da sua especialidade. No meu caso, acabei por aceitar um convite para trabalhar numa clínica em Harley Street, o epicentro da medicina privada em Londres. Adoro ver doentes e a recompensa pessoal de tratar alguém é algo único. Trabalhar em Londres neste tipo de local permite-me ver pessoas que vêm de todo o mundo em busca de tratamento ou de segundas opiniões médicas.

Com uma vida tão ocupada, como concilia a frequência regular de aeroportos com a investigação?
O filósofo Alain de Botton foi convidado a passar uma semana no terminal 5 de Heathrow e escreveu um ensaio muito interessante sobre esta sua experiencia, chamado “A week at the airport”. Neste, ele reflete sobre a noção mais profunda do que são e o que significam os aeroportos, acabando por mostrar que são locais muito mais interessantes do que podem parecer. Habituei-me a trabalhar em todos os sítios possíveis e quem me conhece bem sabe que raramente me desloco sem o meu computador. Aproveito o meu tempo nos aeroportos para escrever artigos, relatórios clínicos e limpar a minha caixa de e-mail. Hoje em dia, os aeroportos e aviões são locais onde consigo relaxar. Além do mais, enquanto um apaixonado pela natureza humana, os aeroportos, pela diversidade de quem os frequenta, são para mim um laboratório vivo.