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F***-se, dizer palavrões afinal faz bem

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FOTO D.R.

Hoje lembrei-me do Eder. Todos os dias são bons para recordarmos o patinho feio que virou cisne nos arredores de Paris e nos ofereceu o momento mais bonito da história do futebol português. Mas não foi por causa daquele instante em que o avançado português foi por ali meio aos trambolhões para disparar um remate que só terminou no fundo da baliza francesa que me lembrei dele. Foi por causa DESTE ARTIGO da Quartz e das palavras que o jogador deixou, já em Lisboa, na euforia da vitória: "É feriado hoje, caralho!"

Confesso que não percebi bem a indignação de uma certa brigada dos bons costumes, como nunca percebi a má fama que os palavrões gozam. Dizer um palavrão é das coisas mais genuínas que há. Porventura, haveria quem preferisse ver o futebolista ali de fato e gravata, com um discurso todo pomposo e articulado, onde a expressão mais grosseira tivesse sido substituída talvez por uma mais higiénica, como "caraças". Eu não. Prefiro vê-lo assim, com o coração na boca, a dizer o que sente, mesmo que o que diga não seja politicamente correto. Como pode alguém sentir-se melindrado com algo que, objetivamente, não pretendeu ofender ninguém?

Naquele momento, Eder, o herói, desceu ao nível de toda uma nação. O golo em Saint Denis só ele o marcou, mas aquele jovem ali, de microfone na mão, podia ser muitos de nós. Podia ser o homem que, atrás da baliza francesa, grita no instante antes do remate decisivo: "Vai, chuta daí, caralho!". E ele chutou. A taça é nossa, f***-se.

Este sentimento de comunhão é, precisamente, uma das muitas funções sociais que os palavrões cumprem, defende Michael Adams, autor do novíssimo "In Praise of Profanity" (Elogio da Blasfémia, numa tradução literal), que faz a defesa dos palavrões na sociedade moderna. Segundo o autor, o recurso a algumas palavras tidas como vulgares ou mesmo ordinárias cumpre o objetivo de "nos aproximar". Os palavrões, escreve Adams, "são inesperadamente úteis para fomentar as relações humanas porque comportam risco... Gostamos de nos safar com algumas coisas e, por vezes, fazemos isso com pessoas que pensam da mesma forma".

Muitos críticos argumentarão que as palavras grosseiras são desnecessárias: podem ser removidas sem que se perca nada. Timothy Jay, psicólogo do Massachusetts College of Liberal Arts, que estuda o tema há 35 anos, discorda. Os palavrões são uma forma de expressão insubstituível. "Não há outra maneira de dizer 'Vai-te foder!' e transmitir o mesmo nível de desprezo numa linguagem mais polida", escreve. Experimentem tirar todos as expressões vulgares aos textos de Bocage e ficarão com outra obra.

Quanto mais não seja, um bom palavrão pode até ajudar-nos a lidar com a dor, como concluiu em 2009 um estudo de psicólogos da Universidade de Keele, no Reino Unido. Por isso, quando dou um pontapé com o pé descalço numa mesa ou numa porta, disparo logo três de rajada. A minha mãe educou-me melhor e eu talvez não os devesse dizer. Mas mal não fazem e a a ciência garante que até podem dar uma ajudinha.