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Estes bichos são cá umas melgas

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Não matam mas moem... No verão, melgas, mosquitos, vespas, aranhas e outros insetos insistem em incomodar as nossas férias. Saiba o que fazer em cada um dos casos

Férias. O descanso à beira-mar, tardes longas no areal até ao pôr do sol, jantares pela noite dentro. A vida nestes momentos parece perfeita, pelo menos até chegarem as melgas. Com mais babas por metro quadrado do que pele, sem saber se os miúdos podem ou não fazer uma alergia (além das preocupações com doenças como zika, dengue e outras), lá se vão as férias tranquilas. Agora, imagine-se em destinos como a Comporta, Castro Marim, o estuário do Tejo ou a foz do Mondego, tudo zonas de sapal e arrozal. Aqui, andar ao ar livre pode ser sinónimo de estar debaixo de fogo dos insetos. “Numa hora, é possível detetar 300 a 400 mosquitos em cima de nós”, garante Teresa Novo, entomologista de 53 anos, há 19 no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, em Lisboa, que fez o trabalho de campo do seu doutoramento naquela região.

“A Comporta acumula dois problemas”, explica a especialista em insetos. “Durante o dia, tem os mosquitos Aedes caspius, e esses picam mesmo de dia e através das calças de ganga. Depois do pôr do sol, aparece outra espécie, o Culex theileri, que pica até ser madrugada.” Este artigo não tem por objetivo boicotar o turismo na Comporta, mas apenas esclarecer porque é que nas farmácias da zona os anti-histamínicos (usados para reações alérgicas) se esgotam sempre no início do verão. E ajudar os veraneantes a precaverem-se contra alguns dos insetos e bicharocos que lhes podem retirar descanso e paz durante as férias.

Portugal não é dos piores países no que diz respeito a insetos perigosos. Vivem por cá algumas espécies de aranhas, mas nada que se compare com a Austrália. Temos um tipo de escorpião (ou lacrau), mas o seu veneno é pouco tóxico. Há bichos que acarretam alguns incómodos, como a carraça ou a vespa, mas são relativamente fáceis de eliminar. Existem, no entanto, perigos escondidos. Portugal continental tem 41 espécies identificadas de mosquitos. O programa Mosquito Web foi iniciado há dois anos com o objetivo de perceber a diversidade existente mas também “de detetar precocemente a entrada de espécies perigosas no território”, como o mosquito tigre (Aedes albopictus), que existe no sul de Espanha, ou o Aedes aegypti, que se encontra na Madeira (o tal que pode ser portador de doenças graves, como dengue, zika ou chikungunya).

São quatro as principais espécies de mosquitos que vivem em Portugal: o Anopheles atroparvus, o Culex pipiens, o Culex theileri e o Aedes caspius. Os três primeiros são vetores do vírus do Nilo Ocidental, entre outros, e o último dos vírus mizoma e Tahyna (não presentes em Portugal até agora). Mas o Culex pipiens, que anda durante o ano inteiro pelo nosso país, sendo conhecido como “mosquito doméstico das zonas temperadas”, é mais perigoso do que pode parecer. Em julho de 2004, dois turistas irlandeses de férias na Ria Formosa, onde participavam em atividades de observação de aves, foram picados por um Culex pipiens e regressaram à Irlanda com sintomas de doença do Nilo Ocidental. Este vírus afeta o sistema nervoso central. Cerca de 80% das pessoas picadas não apresentam sintomas nos 3 a 14 dias após a picada. Mas uma em cada 150 infetadas irá desenvolver uma doença grave, com sintomas que vão da febre alta às dores de cabeça, rigidez do pescoço, torpor, desorientação, tremores, convulsões, fraqueza, perda de funções neurológicas e até coma.

É em boa parte uma questão de lotaria genética. A mesma que faz com que certas pessoas possam ser picadas por mosquitos e desenvolvam apenas borbulhas e outras reajam com alergias que só se curam com anti-histamínicos. A mesma que faz com que algumas pessoas sejam picadas por abelhas e não tenham qualquer problema e outras possam morrer de choque anafilático...

O que podemos fazer para nos protegermos

Quais são os grupos de risco? “Idosos, crianças e adultos com imunidades frágeis”, enumera Teresa Novo. E o que devemos fazer? Não estabelecer contacto é a primeira regra. Tentar evitar a exposição ao pôr do sol e durante a noite, ao ar livre, usar mangas compridas e repelente de insetos. Ter telas protetoras nas janelas pode ser uma solução em zonas muito carregadas de mosquitos. Os difusores elétricos, que libertam doses pequenas de inseticida, têm resultados eficazes, mas não devem ficar ligados toda a noite.

Não mexer demasiado no habitat de insetos e artrópodes (onde se incluem aranhas e escorpiões) é a regra de ouro para quem anda no campo. Aí, é importante usar calças compridas, meias e sapatos fechados ou botas, para não se ser picado nos pés. “Em regra, estes animais estão debaixo das pedras e só picam para se defender”, explica a entomologista. Há várias espécies de aranhas em Portugal: a viúva-negra mediterrânica, a aranha-violino, a tarântula ibérica, a aranha-lobo radiada, a tarântula de Porto Santo e a tarântula das Desertas. Mas o seu veneno é de baixa toxicidade — provoca a destruição de células e não do sistema nervoso central. Ou seja, o principal problema é a dor — gelo dentro de um pano e paracetamol resolvem a questão.

O mesmo não se pode dizer da carraça, outro inimigo dos passeios no campo, apesar de parecer mais inofensivo. “As carraças são perigosas porque transmitem agentes patogénicos”, continua Teresa Novo. “Geralmente, andam na vegetação, à espera que um humano passe, para se alimentarem do sangue do hospedeiro.” Os perigos principais são a transmissão de vírus e bactérias, que podem originar graves problemas de saúde, como a doença de Lyme ou a febre escaro nodular.

O Revive, rede de vigilância de vetores (mosquitos e carraças), do Instituto Ricardo Jorge, em Lisboa, está atento a estes fenómenos. Tem por objetivo monitorizar a atividade de artrópodes hematófagos, caracterizar as espécies e a sua ocorrência sazonal e identificar agentes patogénicos importantes em saúde pública. Em Portugal, conhecem-se 21 espécies de carraças, e em 2015 foram identificadas a parasitar o homem oito espécies diferentes. Ao todo, foram removidos 391 ixodídeos de humanos no ano passado.

A deteção precoce de entrada de espécies perigosas no território nacional é uma das maiores preocupações destes investigadores. O Mosquito Web foi concebido exatamente para ter um feedback mais direto por parte da população, que é sempre a primeira a sentir na pele a entrada de novas espécies. O facto de já haver mosquito tigre no sul de Espanha é um dos principais temores. Como o facto de termos Aedes aegypti na Madeira. “A questão-chave acontece se uma nova espécie conseguir entrar e sobreviver um inverno. Se conseguisse chegar até ao verão seguinte, isso exigiria medidas de controlo muitíssimo mais musculadas.”

Numa altura em que novas estimativas apontam para um universo de 93 milhões de pessoas em risco de infeção pelo vírus zika nos próximos dois a três anos, é natural que se olhe para tudo isto com apreensão. Em Espanha, nasceu o primeiro bebé com microcefalia, vítima desta doença. “As pessoas só percebem que estão infetadas se fizerem uma análise específica, através da pesquisa de anticorpos.” Por isso, todos os cuidados são poucos. Não deixe de enxotar as melgas...

Mosquitos

Há quatro espécies abundantes em Portugal continental: o Anopheles atroparvus, o Culex pipiens, o Culex theileri e o Aedes caspius. Mas o mais preocupante é o Aedes aegypti, presente na Madeira, que pode ser portador de doenças graves, como dengue, zika e chikungunya. Já o Culex pipiens pode transmitir o vírus do Nilo Ocidental. Para nos protegermos, devemos evitar estar ao ar livre ao pôr do sol, usar mangas compridas e ter um repelente à mão.

Abelhas e vespas

A picada de vespa é dolorosa, mas a de abelha comporta mais perigos. Neste caso, é importante retirar rapidamente o ferrão, que contém o veneno, e fazer um garrote acima da picada, para evitar o alastramento. Caso seja alérgico (se tiver inchaço, aumento de batimentos cardíacos e dificuldade em respirar), deve ir ao hospital, de modo a evitar um choque anafilático. Como se proteger? Não incomode as abelhas no seu habitat natural.

Formigas

Existem 126 espécies de formigas em Portugal, mas nenhuma delas é perigosa. Não injetam veneno, sendo por isso inofensivas, apesar de poderem provocar uma eventual impressão de picada. Só importunam se houver comida por perto.

Aranhas

Existem várias espécies de aranhas venenosas no nosso país, mas nenhuma é neurotóxica. O seu veneno é citotóxico, o que quer dizer que destrói apenas células e não o sistema nervoso central. O que há a fazer? Essencialmente, não mexer no seu habitat natural, que é debaixo das pedras. Usar meias e botas é uma boa precaução para evitar picadas nos pés.

Escorpiões (ou lacraus)

O Buthus ibericus encontra-se essencialmente no Alentejo e no Algarve. O seu veneno é pouco tóxico. O membro afetado deve ser imobilizado e deve colocar-se um garrote. O acompanhamento médico tem de ser o mais rápido possível, principalmente em crianças em idade pré-escolar. Como para as aranhas, é importante usar calças, camisas com mangas compridas, meias e sapatos fechados.

Carraças

Apesar de parecerem inofensivas, contêm vários perigos, pois transmitem agentes patogénicos, como vírus e bactérias, que podem originar graves problemas de saúde (doença de Lyme ou febre escaro nodular, por exemplo). Após um passeio pelo campo, deve verificar-se a roupa e o corpo. Tem de se retirar o parasita com algodão embebido em éter, o que provoca a retração da zona bucal da carraça e facilita a sua remoção total.