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Cancro, doença de sempre

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ALEXANDER JOE

Ao contrário do que a ciência pensava, o cancro não é uma doença dos tempos modernos. Foi agora descoberto, na África do Sul, o fóssil de um pé com 1,7 milhões de anos e vestígios de um osteossarcoma (cancro ósseo) no metatarso

Uma equipa de cientistas da universidade de Witwaterstand, em Joanesburgo, e o Centro Sul-Africano de Excelência em Paleociências encontraram uma prova da existência de cancro no ser-humano há milhões de anos. A 40 km a noroeste de Joanesburgo, numa gruta de Swartkrans, encontrou-se o metatarso de um pé fossilizado com 1,7 milhões de anos - e vestígios de um osteossarcoma, um tipo de cancro ósseo. Igual aos dos dias de hoje. "Examinámos este osso em particular, com esta marca de osteossarcoma moderno" e é idêntico", garante Edward John Odes, da Escola de Ciências Anatómicas da Universidade de Witwatersrand.

O pormenor do metatarso com vestígios de cancro num fóssil com 1,7 milhões de anos

O pormenor do metatarso com vestígios de cancro num fóssil com 1,7 milhões de anos

A equipa fez ainda outra descoberta de enorme importância histórica: o tumor mais antigo encontrado num fóssil humano. É um tumor benigno, alojado nas vértebras de um menino da espécie Australopithecus sediba, com 1,98 milhões de anos. Encontrava-se numa gruta de Malapa, segundo o artigo publicado na revista "South African Journal of Science".

Esta descoberta foi considerada pelos cientistas como "fascinante". Por um lado, permite-nos depreender que, ao contrário do que pensávamos, o cancro não é apenas uma doença dos tempos modernos. A ciência e a medicina tendem a acreditar que as nossas circunstâncias ambientais - poluição, vírus, toxinas, alimentação - são largamente responsáveis pela incidência do cancro no espectro das doenças modernas. E afinal não. "Os nossos estudos demonstram as origens destas doenças e que os nossos parentes padeceram das mesmas doenças milhões de anos antes de as sociedades industriais modernas terem existido", explicou Odes.

Mas o mais interessante - e surpreendente - é que não haja nenhuma diferença entre o cancro encontrado naquele pé com milhões de anos e o cancro atual. "Estes tipos de cancros, que existiram há muitos anos, continuam a ser iguais hoje em dia – embora a evolução biológica leve a que habitualmente haja variações e diferenças", continuou. Este é o novo mistério que é preciso resolver. Mas sabe-se agora, com prova científica, que o cancro é uma doença com milhões de anos. Esse facto é de grande importância histórica.

Para Nuno Miranda, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas da Direção-Geral da Saúde, "o achado é particularmente interessante", mas não o surpreende "a existência de cancros semelhantes aos da atualidade em hominídeos". "O cancro não é uma doença restrita dos humanos, encontrando-se descrito nas mais variadas espécies animais, havendo mesmo uma marcada correspondência entre espécies de tumores equivalentes. Mesmo em termos oncogenéticos, existe uma grande conservação interespécies, o que não nos espanta, atendendo a que o nosso DNA é em 99% semelhante ao dos grandes primatas e apenas difere em 2,5% com o DNA dos ratos", afirma. "Embora os fatores ambientais sejam hoje muito diferentes, e haja uma maior incidência de cancro no mundo moderno, existem outros fatores responsáveis pela doença, como infeciosos, genéticos e aleatórios", explica o médico.