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Calma: ainda é cedo para deitar o fio dentário ao lixo

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Não queremos alarmar ninguém, mas leia as próximas linhas com atenção, porque os seus hábitos de saúde podem estar prestes a mudar. Os norte-americanos deixaram de recomendar o uso do fio dentário porque perceberam que afinal não há estudos que comprovem a sua eficácia, mas é preciso ter calma: em Portugal, os especialistas insistem que este é um bom hábito que se deve manter

A notícia surpreendeu a imprensa – mas sobretudo a indústria dos produtos de higiene dentária: afinal, a famosa recomendação de usar fio dentário para evitar problemas como as cáries ou as gengivites pode não passar de um mito, sem uma verdadeira comprovação científica. O alvoroço começou esta terça-feira com a publicação de uma investigação da Associated Press (AP) que dá conta de que de repente, sem qualquer pré-aviso, a recomendação de usar fio dentário deixou de fazer parte das regras emitidas e reavaliadas a cada cinco anos pelos Serviços de Agricultura e Saúde e Serviços Humanos norte-americanos - é assim pela primeira vez desde 1979.

Em declarações à AP, o Governo dos Estados Unidos explicou a decisão, referindo que “a eficácia da prática nunca fora comprovada, como requerido”. Desde que a notícia saiu, sucedem-se opiniões de especialistas que defendem que o uso de fio dentário não é assim tão útil e até pode ser prejudicial para a saúde dos nossos dentes e gengivas – mas os especialistas portugueses não estão convencidos e pedem precaução.

“Sim, permanece a recomendação do uso do fio dentário para assegurar a remoção eficaz de restos alimentares entre as faces proximais dos dentes, mesmo que seja questionável a sua capacidade de remoção de placa bacteriana (e, mesmo assim, a ausência de prova robusta não significa a extinção da recomendação)”, explica ao Expresso José Pedro Figueiredo, médico especialista em Estomatologia e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.


A ausência de prova robusta é precisamente o que se demonstra na investigação da AP, que cita 25 estudos sobre esta prática de higiene conduzidos na última década para demonstrar que as conclusões dos estudos que recomendam que o hábito se mantenha são “fracas, poucos sólidas” e de “baixa qualidade”, tendo um risco “moderado a elevado de parcialidade”. Para mais, a agência defende que os estudos citados pela Associação Dentária Americana para defender a prática “usam métodos datados ou amostras pequenas”. “Alguns duraram apenas duas semanas, tempo insuficiente para uma cárie ou doença dentária se desenvolver. Um deles testou 25 pessoas após uma única utilização do fio dentário.”

A queda de uma indústria multimilionária?

A verdade é que, mantendo-se ou não a recomendação por parte dos especialistas, a atenção que a imprensa está a dar à investigação da AP pode significar um rombo para uma indústria de sucesso, que a agência calcula estar prestes a valer 2 mil milhões de euros já no próximo ano. Duas das empresas que produzem fios dentários já reagiram – a Johnson & Johnson defendeu os benefícios para reduzir a placa bacteriana, mas recusou comentar os estudos contraditórios citados pela AP; já a Procter & Gamble argumentou que o fio dentário previne a gengivite, mas para tal usou um estudo que durou duas semanas e foi em 2011 considerado cientificamente irrelevante.

Embora as investigações indiquem que os benefícios do fio dentário não estão comprovados pela ciência, os especialistas portugueses alertam que pode ser irrefletido deixar de usar esta ferramenta. “A desvalorização da recomendação de utilização de fio dentário não se me afigura sensata”, afirma José Pedro Figueiredo, lembrando que assistimos a um alerta geral para um “incremento adicional dos gestos de higiene oral”. “As elevadas prevalências de problemas de saúde oral dos portugueses (cárie dentária e doenças das gengivas) recomendam, isso sim, medidas proativas de informação e de formação às populações.”

Também a Ordem dos Médicos Cientistas portuguesa partilha da mesma opinião, enfatizando ao Expresso que embora o uso do fio dentário não seja a primeira recomendação a fazer, este hábito não deve ser posto de parte. “A rotina básica fundamental” recomendada pela Ordem passa por “escovar os dentes duas vezes por dia com um dentífrico fluoretado durante cerca de dois minutos e consultar um médico dentista duas vezes por ano”.

No entanto, insiste a organização, “é ainda importante, para cuidar adequadamente dos seus dentes e das suas gengivas, a higienização dos espaços interdentários com fita dentária, escovilhões interdentários e higienização profissional”. “A higienização diária dos espaços interdentários onde a escova não chega é fundamental para a remoção dos resíduos alimentares”.

Especialistas pedem cautela e precaução

As novas investigações devem ser tidas em conta, concede Maria Helena Figueiral, professora catedrática da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto, uma vez que “o conhecimento está em constante atualização”. “Temos de ser cautelosos com a enorme quantidade de informação que todos os dias nos vai chegando”, sublinha. No entanto, a especialista relembra que, por agora, “o fio dentário está indicado para a população em geral e o seu uso correto deve ser incentivado”.

Prossegue assim em Portugal a recomendação de prevenir cáries, gengivites e reduzir a placa bacteriana com a ajuda do fio dentário – Rita Alves, higienista oral da Clínica Hugo Madeira, em Lisboa, continua “a defender a sua utilização como um método complementar de higiene oral” e corrobora a opinião da Ordem dos Médicos Dentistas: “A higiene oral diária recorrendo apenas à utilização da escova manual ou elétrica não é suficiente no que se refere à eficácia de remoção de placa bacteriana, uma vez que os filamentos das escovas não conseguem alcançar os espaços interdentários” e, por isso, o fio deve ser utilizado “uma vez por dia, à noite, antes de deitar”.

Portugueses não usam fio dentário

A ideia de os benefícios poderem não estar, efetivamente, comprovados pode parecer estranha – afinal, ouvimos a recomendação do uso deste instrumento desde crianças e a sua invenção já data do século XIX. Escrevia o dentista e inventor do fio dentário Levi Spear Parmly, citado pela “Time”, em 1819: “Os restos do que comemos e bebemos ficam a acumular, estagnar e apodrecer entre os dentes e são a causa para a maior parte dos problemas dentários. [O fio dentário], embora simples, é o mais importante e deve ser passado para desalojar aqueles restos irritantes que nenhuma escova consegue remover”.

Nos Estados Unidos, a recomendação passou a ser prática geral dos dentistas a partir do início do século passado, e até hoje – mesmo passando o fio a ser feito de nylon e não de seda – mantém-se o hábito. Em Portugal, e apesar de os especialistas manterem a recomendação, o impacto da notícia não deverá ser significativo: é que segundo o III Estudo Nacional de Prevalência das Doenças Orais, conduzido em 2015 pela Direção-Geral da Saúde e pela Ordem dos Médicos Dentistas e divulgado pela Lusa, a grande maioria dos portugueses não tem este hábito. O estudo revelou que mesmo na faixa etária que mais utiliza este instrumento, dos 35 aos 44 anos, a sua utilização dá-se em menos de metade dos casos; para mais, 65% dos jovens de 18 anos não usam fio dentário e no caso dos mais velhos, com 65 a 74 anos, a percentagem sobe para 82%.

[Texto original publicado no Expresso Diário de 3 de agosto de 2016]