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No olho da rua também se trabalha (e se vive com poesia, dores e alegrias)

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Durante uma semana andámos de olho nas ruas de Lisboa, a recolher histórias de quem trabalha a céu aberto. Testemunhos de gente que luta de sol a sol para ganhar o sustento, e que aqui partilha as batalhas, feridas, paixões e sonhos de uma vida. Porque há sempre uma curiosidade, um segredo ou um ensinamento por revelar em cada pessoa com que nos cruzamos diariamente. Conheça estes cinco retratos de rua

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Texto, smartphotos e vídeo

Jornalista

A vendedora de cerejas que é uma avó-coragem

A vendedora de cerejas que é uma avó coragem

A vendedora de cerejas que é uma avó coragem

Bernardo Mendonça

Há qualquer coisa nela que atrai quem passa. A sua arte é ser genuína, honesta e trabalhadora. Chama-se Maria de Lourdes Santana, tem 55 anos e a energia de uma gaiata, mas as rugas de uma existência dura. Passou fome, começou a vender na rua aos 11 anos e tantas vezes fugiu à polícia até conseguir licença como vendedora ambulante. Este é o relato de uma avó-coragem que nunca foi criança, e ainda hoje trabalha mais de doze horas por dia para dar comida e um curso às netas, que não sabem da mãe. Lourdes é sábia e alivia as dores com um sorriso aberto e um molho cheio de piadas e ironias. A vida não a amargou. É doce e rija como as suas cerejas.

- Olha a cereja, é preta, grossa e rijaaaaaaaa. Diga amor, cerejas? São a 5 euros. Uma maravilha. São da quinta da minha sograaaaaaaa!

Aos 11 anos já andava a vender castanhas numa banca montada em cima de um triciclo a pedal. Empurrava sozinha o triciclo com as castanhas até ao Areeiro, depois continuava até à Alameda e montava a banca de venda mesmo à frente do Cinema Império, onde hoje está a Igreja Universal do Reino de Deus. Vendia o dia todo “quentes e boas” e à noite voltava sozinha para casa com o carrinho. Brincar? Nunca soube bem o que era isso. A minha vida não tem sido nada fácil. Mas estou rija e boa, como as minhas cerejas.

A venda ambulante corre-me nas veias. Venho de uma família de vendedores ambulantes. Os Pinto. Os meus pais vendiam castanhas e fruta para sustentarem os sete filhos. Vivíamos com muitas dificuldades e com medo. Recordo-me de ser pequena e de ver os meus pais a fugir à polícia porque, nessa altura, não havia licenças de venda para nós. Era tentar a sorte, vender tudo o que se podia e estar atento à bófia, e quando alguém os avistava desatar a correr empurrando os carrinhos das bancas. A polícia sempre nos tratou muito mal.

Sou uma mulher do Norte. Nasci em Salzedas. Freguesia do concelho de Tarouca, em Lamego, terra das cerejas. Mas logo com um ano de idade vim com a minha família para Lisboa, morar numa pequena barraca no Bairro do Armador, na zona de Chelas.

- Faça um quilo bem pesado por favor. Sabe, quem não chora, não mama. Olhe que eu venho comprar muito aqui.

- Você já sabe que eu peso bem. Tome lá um quilinho dos pesados. Obrigado. Até à próxima.

Éramos muito pobres. Em pequenina a minha cama era uma caixa de sardinhas com uns trapos. Quando chovia lá fora, chovia também dentro da nossa barraca e a minha mãe abria um guarda-chuva por cima do meu caixote, para não me molhar. Aos cinco anos mudámos para uma barraca maior construída pelo meu pai.

- Já não há figos. Já foram. Chamaram-lhe um figo!

Mãos de uma vida de trabalho

Mãos de uma vida de trabalho

Bernardo Mendonça

Tenho poucas memórias de infância. Recordo-me de no verão ir a banhos numa colónia de férias organizada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Fazia praia com outras crianças, na Ericeira. Do que mais me lembro dessa altura era o regresso a casa depois das férias. A minha barraca parecia de repente... tão pequena, tão pequena, tão pequena.

Nunca quis ser vendedora como os meus pais. Sabia bem que a vida que levavam era uma chatice, difícil e miserável. Sonhava ser hospedeira de bordo. Via passar os aviões por cima da minha casa e só pensava em trabalhar ali. Era a minha ideia.

- This is good?

- Good! Very nice. É da quinta da minha sogra!

Tenho seis irmãos. Cinco rapazes e uma rapariga. Só eu me dei bem com os estudos. Completei o antigo 5º ano, atual 9º ano. Eu era inteligente para a escola. Os meus irmãos apenas fizeram a 4ª classe, e mal. Muito mal.

Mais tarde ainda pensei trabalhar num banco, como um amigo do meu pai me prometera, mas engravidei aos 18 anos e casei-me. Com uma bebé na barriga deixei para trás o sonho de ser doutora e acabei por ter a vida dos meus pais.

Tenho duas filhas. A Vera, de 36 anos, e a Sofia, de 31. A mais nova é enfermeira e muito minha amiga, liga-me 50 vezes por dia se for preciso. A mais velha? Nem sei dela. Essa filha nem parece que saiu da minha barriga, de certeza que foi trocada no hospital. Mas deu-me duas netas, que são como minhas filhas: a Leonor, de 9 anos, e a Beatriz, de 4. As meninas foram-me entregues pelo tribunal. Ela e o marido meteram-se na droga e andam agora por França.Trabalhei a vida toda para dar uma vida boa às minhas filhas, um curso, um futuro melhor. Mas a mais velha não quis saber disso. Paciência.

- Queria as cerejas que estão em baixo, não me tire as de cima.

- Gosta mais por baixo?

- Não. Por acaso gosto mais por cima.

- Eu estou a falar de cerejas. E você, sua marota?

Tenho banca montada em frente ao centro comercial das Amoreiras há 31 anos, desde que o edifício foi inaugurado, em 1985. De inverno vendo castanhas, e no verão vendo fruta. No fim de semana ajudo o meu marido a vender gelados em Belém.

O meu marido não é amigo de trabalhar. Aquele homem só valeu as 40 semanas que esteve na barriga da mãe. Só sabe comer. Mas pronto, é amigo das minhas netas, dá-lhes as refeições que eu preparo de véspera. E isso já é bom. E eu trabalho e vivo para as minhas netas. Andam agora num bom colégio, pago por mim. O meu prazer é criá-las, estar com elas, vê-las crescer. A mais pequena pede-me muitas vezes para a medir aos palmos. “Mãe, conta-me os palmos. Quantos palmos eu tenho?”. Chamam-me as duas “mãe”. Mas sabem que cresceram na barriga da Vera. Espero que tenham uma vida melhor do que a mãe e a avó.

- Os pêssegos não são muito grandes, mas são uma maravilha. Chega assim? É 2 euros e 10, com desconto de cartão jovem. Vai de férias? Leve-me consigo.

Durante a semana mal vou à cama. Estou de terça a sexta com a banca montada nas Amoreiras, das nove às nove da noite. Depois passo por casa para descarregar o que restou do dia. Sigo para o MARL para comprar mais fruta e chego a casa pela uma da manhã. Nessa altura cozinho as refeições do dia seguinte para as minhas netas e o meu marido. Não paro um segundo. E durmo a correr.

Felizmente vendo bem. A minha banca tem sucesso, porque tenho fruta boa e clientes certos. Até o Tony Carreira é meu cliente. E graças a Deus consigo fazer uma vida razoável.

Em breve vou mudar-me para uma casa nova, no Prior Velho. A minha filha mais nova ajudou-me a pedir um empréstimo e finalmente vou poder ter uma casa em condições. Com ar limpo. O apartamento onde vivo agora, em Chelas, foi-nos cedido pela Câmara e tem muitas humidades. Cheira a mofo. Faz-nos mal à saúde. Quero tirar de lá as miúdas rapidamente.

Peço pouco da vida. Um dos meus maiores prazeres é ver as minhas netas sorridentes a andar de bicicleta em Belém, à volta da nossa banca. Sou feliz. À minha maneira sou feliz.

— Diz amor, um quilo? É grossa e rija. Espero que não sobre fruta. Quero ir para a praia!

O homem-estátua que faz tilintar corações

O homem-estátua que é também visto como um príncipe encantado

O homem-estátua que é também visto como um príncipe encantado

Bernardo Mendonça

Luís Melo, de 35 anos, é homem-estátua, performer, animador e distribuidor de piscares de olhos que roubam sorrisos a quem passa por ele. Por agora faz de estátuta de Marquês de Pombal e só se mexe quando uma moeda tilinta no pote. Por vezes há corações que tilintam por ele, só de o verem ali, parado, seráfico e silencioso. Paixões fugazes de mulheres que se encantam por aquela figura masculina de rosto pintado de verde e intensos olhos azuis. Será príncipe, será (como a) gente? Conheça o homem por trás da estátua.

Tudo começou quando eu andava na tropa a cumprir seis meses de serviço militar obrigatório. Teria uns 18 anos. Na altura puseram-me na posição de sentinela. Um lugar destinado aos que se portavam mal, ou que não cumpriam rigorosamente as regras e não faziam o que era suposto fazer-se. Por exemplo, eu costumava chegar atrasado ao quartel quando ao fim de semana ia a casa. Chamavam-me logo a atenção e corriam-me a sentinela.

Pediam-me para estar 15 minutos muito parado, à porta do quartel, sem me mexer. Nem sequer os olhos. E eu cumpria a tarefa sem dificuldade. Os meus colegas, na brincadeira, diziam-me que eu tinha mesmo jeito para aquilo. Que o fazia tão bem que devia era ganhar a vida como homem estátua. Estava descoberto um talento. Achei graça à ideia. Porque não?

Já na minha infância uma das minhas brincadeiras preferidas era jogar ao ‘congela’, também conhecido como ‘1,2,3 macaquinho do chinês’. Em que uma pessoa se põe a contar até 3 de olhos tapados e os outros têm que correr até uma determinada meta. Quando quem está a contar se vira para eles, todos têm que congelar os movimentos. Já aí eu era muito bom no jogo.

Mal acabei a tropa experimentei ser homem-estátua. Arranjei um fato preto com abas de grilo, um bigodezinho, um chapéu de coco e uma bengala e fiz de estátua do Charlot, no centro de Cascais. Começaram a chover moedas. Sempre que alguém se aproximava para colocar uma moeda eu fazia algumas palhaçadas ao modo do Charlie Chaplin. E as pessoas riam-se, gostavam. Devo ter feito à volta de 40 euros num espaço de uma hora e tal. Bem bom! Desde essa experiência passei a fazer de estátua esporadicamente, para ganhar uns trocos para comer e beber.

Trabalhei muitos anos como empregado de mesa em vários cafés e restaurantes. Empregos precários que fui arranjando através de agências de trabalho temporário. Ganhava pouco, trabalhava muito e não era bem tratado. Se fazia algo errado davam-me cabo da cabeça, se fazia tudo bem feito ninguém me dizia nada. Andava o dia todo a trabalhar e levava 500 euros para casa, para sustentar a minha mulher, que está desempregada, e o meu filho, Noah, de dois anos. Vivíamos com muitas dificuldades.

Há seis anos mandei esses empregos às urtigas e decidi ser homem-estátua a tempo inteiro. Escolhi fazer a minha arte e ser o meu próprio patrão. Foi o melhor que fiz. Faço o que gosto, ganho melhor, divirto as pessoas e divirto-me a mim ao mesmo tempo. Sou um pouco clown na interpretação das minhas personagens. Faço caretas, expressões malucas, palhaçadas. Alterno a minha arte entre três personagens: Mozart, Beethoven e Marquês de Pombal. A roupa é a mesma, costurada pela minha mulher e pintada por mim. Mudam os adereços e alguns detalhes. Agora estou como Marquês de Pombal, que é o que faz mais sentido nesta zona da cidade de Lisboa. Foi ele o responsável pela reconstrução da cidade após o terramoto de 1755

Uma moeda vale uma expressão e um piscar de olhos

Uma moeda vale uma expressão e um piscar de olhos

Bernardo Mendonça

Como não falo durante a minha performance, faço gestos, caretas e coloco música para atrair as pessoas, criar ambiente. Geralmente ponho a tocar Enya e Yann Yiersen, porque fazem música que dá uma certa paz de espírito às pessoas que passam nesta rua. Algumas aproximam-se e falam comigo. Chegam mesmo a fazer-me confissões. Sentem-se próximas daquele homem que não se mexe mas que vê tudo o que se passa. E eu não lhes respondo, mas oiço-as. Geralmente são problemas emocionais ou matrimoniais: ‘O meu marido trata-me muito mal. Espanca-me. Sou muito infeliz.” O que é que eu posso fazer? Continuo a trabalhar...

Estou nesta rua desde o início da tarde, pelas 15h, e fico até às 19h. Ganho cerca de 50 euros. Vai dando para viver. De vez em quando esvazio o pote. As pessoas têm curiosidade em espreitar, para ver quantas moedas tenho, e isso cria invejas. E eu não gosto nada.

O meu passado tem momentos muito tristes. O mais triste é ser fruto de uma gravidez indesejada e ter sido abandonado pela minha mãe, aos 16 anos. Ela tinha problemas psicológicos e meteu-me fora de casa sem grandes explicações. Numa idade em que ainda precisava de apoio de uma mãe, já que o meu pai falecera anos antes. Foi muito duro. Chegou a dizer-me que sempre quisera uma rapariga - não um rapaz. “Para mim não és meu filho. Esquece que eu existo. Segue a tua vida.” Nunca mais a vi. Agora só desejo que o meu filho tenha uma família feliz, como nunca tive.

Nesta vida de homem-estátua confesso que gosto quando as raparigas se apaixonam por mim só de me verem parado com este traje e maquilhagem. As mulheres românticas veem-me como um príncipe de olhos azuis saído de um conto de fadas, feito estátua por encantamento. “És muito simpático. Mesmo querido. Tens uns olhos muito azuis...”

Uma vez uma rapariga chegou mesmo a dar-me um beijo na boca. Um selo, como se costuma dizer. Eu continuei como se nada fosse. Claro que não contei nada à minha mulher, para não criar ciúmes. Encaro isto com o reconhecimento de ser bom artista. Ao fim e ao cabo sou uma espécie de ator e este é o meu palco. A rua é o meu palco. E ao fim do dia lavo a cara, retiro esta roupa e vou a correr abraçar o meu filho e a minha mulher, os meus amores.

Um marinheiro de terra que ‘pesca’ mojitos como poucos

Marco Martins usa um borrifador para se refrescar do calor a bordo da sua canoa-bar

Marco Martins usa um borrifador para se refrescar do calor a bordo da sua canoa-bar

Bernardo Mendonça

Marco Lenine Martins, de 47 anos, é um bom vivant e amante do mar. Começou a vida como barman nos Três Pastorinhos, um dos mais populares bares do Bairro Alto, nos anos 80. Passou depois pela publicidade onde ganhou muito dinheiro. Cansado da vida voraz que levava, embarcou numa canoa-bar que serve mojitos à beira-Tejo.

Nasci em Paris. Vim para Lisboa com quatro anitos. O meu pai fugira para lá com a família, para não ir combater na guerra do Ultramar. E regressámos logo após a revolução, em 74. No avião em que eu vinha, veio também o Álvaro Cunhal, que estava exilado em França. Esta situação tem graça. O pequeno Lenine (que é o meu apelido do meio) e o Álvaro Cunhal virem no mesmo avião. A esquerda em força.

Aos 18 anos fui para a Marinha, cumprir o serviço militar. E como não tinha serviços de escala punha-me a ler os jornais, a ver o que podia fazer quando de lá saísse. Foi no jornal “Público” que apanhei um anúncio que me chamou a atenção. Dizia: ‘precisa-se de empregado de bar para estabelecimento no Bairro Alto’. E no final dos anos 80 fui parar ao bar Três Pastorinhos, do Eduardo Marques. Um dos bares da moda no Bairro Alto, tal como o Tagus e o Frágil.

Eu não era muito de boémia, nem de festas, mas comecei a viver intensamente a noite. Envolvi-me no meio da moda. E nos movimentos dos after hours, o Kremlin, as madrugadas longas. Noites que se ligavam aos dias. Nessa época fiz alguns trabalhos como modelo fotográfico. Em 1994, quando Lisboa foi escolhida como Capital Europeia da Cultura, fui um dos fotografados nas imagens de promoção. Era um marinheiro a dar um grande salto. Participei também em vários filmes publicitários. Como andava nesse meio, acabo por começar a trabalhar como assistente de publicidade. Foram 22 anos dedicados a essa área. Por exemplo, fui eu que fiz a produção do videoclip do tema “Beatriz”, em que o Mário Laginha e a Maria João apareciam suspensos debaixo da ponte 25 de Abril, com um grande piano também suspenso sobre o Tejo.

Ganhei muito dinheiro, e muito stress também. Às tantas era produtor executivo e geria produções publicitárias complexas, de milhões de euros. Uma grande responsabilidade. E uma dor de cabeça e de barriga. A publicidade tem muitos lobbies. E, às tantas, cansei-me e quis sair. Mudar de capítulo, de rumo.

É aí que contacto o Eduardo dos Três Pastorinhos. Ele ligara-me tempos antes para saber se queria gerir um bar, o Terra Estreita, na ilha de Tavira, Algarve. Dissera-lhe na altura que não, mas desta vez estava disponível para agarrar um projeto qualquer que ele tivesse. É quando ele me fala da ideia de abrir uma canoa-bar junto ao Cais das Colunas. O Cais da Favorita é uma réplica das velhas canoas do Tejo que cruzavam o rio para transportar pessoas e mercadorias e que eram utilizadas também para pesca. Fiquei entusiasmado. Disse-lhe logo que sim. Estava com vontade de me reinventar. Ainda para mais trabalhar com esta vista para o mar. Sei que isto é ainda rio, mas chamo-lhe mar, porque o Tejo aqui já está a desaguar no mar. E avista-se areia daqui. E ali ao fundo está o cais do Ginjal. É o meu mundo. Que me traz muita calma.

Os mojitos são uma das especialidades do 'Cais da Favorita'

Os mojitos são uma das especialidades do 'Cais da Favorita'

Bernardo Mendonça

Eu sou um homem com mar. Tenho-o sempre debaixo de olho. Admiro-o, respeito-o e aproveito-o. Faço surf desde os 20 anos. De inverno e de verão. Conheço bem as ondas da Caparica e de Peniche. Basta olharem para a cor da minha pele. No domingo passado estive umas horas a surfar, na praia da Vieirinha, entre São Torpes e Porto Covo, com o meu filho, Martim, de 12 anos, e a minha namorada. Também adoro peixe. Se pudesse era só o que eu comia.

Gosto das relações humanas que este bar proporciona, das conversas improváveis com as pessoas que chegam ao balcão para pedirem uma bebida e uma informação qualquer. E eu gosto de ajudar. Seja a sugerir um restaurante bom para jantar ou onde fazer um passeio de barco inesquecível. Mas confesso que nesta época, à beira de agosto, os turistas são horríveis. São feios, porcos e mal educados. Trazem comida e bebidas de fora para a esplanada do meu bar. Mas resolvo sempre a situação com calma e educação. Sem gastar muitas palavras.

Chego a trabalhar 13 horas por dia. Entro às 8h30, para montar a canoa, abrir as velas, e saio pelas 21h30. Não posso dizer que tenha muita qualidade de vida. Mas gosto do que faço. E estou interessado na fase posterior deste projeto, quando esta canoa-bar passar a ser uma espécie de sala de espera para barcos que farão passeios a turistas. E aí terei outra gestão do meu tempo e também poderei navegar pelo Tejo. Por enquanto sirvo cervejas, caipirinhas e uns mojitos que são uma maravilha.

À falta de ar condicionado há um borrifador com àgua gelada

À falta de ar condicionado há um borrifador com àgua gelada

Bernardo Mendonça

Para suportar o calor que tem feito nestes dias, uso um borrifador com água que guardo na arca frigorífica. É o meu sistema de refrigeração. E que bem que sabe quando passa uma aragem quando tenho o rosto molhado.

Agora estou a contar os dias para ir ao Festival Sudoeste com a minha namorada e o meu filho. Vão ser três dias (de 3 a 7 de agosto) a ouvir boa música, a pular um bocado, a surfar e a usufruir daquele local belíssimo na Herdade da Casa Branca, em São Teotónio. Vai saber tão bem!

O rapaz dos batuques que faz a rua dançar

Gaspar Silva faz uma rua dançar ao som dos seus batuques

Gaspar Silva faz uma rua dançar ao som dos seus batuques

Bernardo Mendonça

Gaspar Silva, de 32 anos, é um one man show. Cresceu no bairro de Viana, em Luanda, lugar onde nasceu o kuduro. Veio para Lisboa estudar Direito, mas a vida levou-o por vias tortas a descobrir o seu talento e sonho maior: ser músico. O ano passado foi semifinalista do concurso Got Talent, da RTP, e enquanto procura melhores palcos é músico na baixa lisboeta, capaz de fazer com que uma rua inteira dance ao ritmo dos seus batuques. Conheça-o melhor.

Descobri este talento com os batuques numa fase menos boa da minha vida. Queria muito ser advogado, estava a estudar Direito na Universidade Autónoma de Lisboa, mas deixei de conseguir pagar as propinas e desisti. Durante uns tempos paguei o curso com um trabalho que tinha arranjado numa empresa de montagem de ar condicionado. Mas a empresa faliu e eu fiquei sem trabalho.

Um dia ao passear na zona da Baixa reparei em alguns artistas que estavam a atuar e pensei: ‘Também sou capaz disto. Posso perfeitamente fazer uma animaçãozinha”. A música não era uma novidade para mim. Aprendera a tocar batuques aos 19 anos na Igreja Universal do Reino de Deus, na Alameda, com um grupo de rapazes que animava os encontros. Desde aí nunca mais tinha tocado. Mas como estava sem trabalho e sem poder estudar, decidi retomar a percussão e ir para a rua tocar.

Foi há quatro anos. Não fui logo para a Baixa. Estava tímido. Tive alguma vergonha. Preferi ir para junto do Padrão dos Descobrimentos, em Belém. E ali fiquei, meio escondido num cantinho, a atuar para quem passava. E, para meu espanto, as pessoas aderiram. Os estrangeiros mostraram-se animados e formaram um grande semicírculo à minha volta. Dançaram, cantaram. Não estava à espera de ser tão bem recebido. Nessa primeira vez devo ter ganho 40 euros em seis horas de atuação.

Nos tempos seguintes passei a ser abordado por várias pessoas que me incentivaram a ir tocar para a Baixa. ‘Tu és bom. A Rua Augusta tem mais gente. Muda-te para lá!’ Decidi arriscar. Perdi a vergonha. E tenho-me dado bem. Toco kuduro e afro beat com djambés, panelas de inox, cornetas e algumas tarolas.

As mãos de Gaspar fazem dos batuques um show de fazer dançar uma estátua

As mãos de Gaspar fazem dos batuques um show de fazer dançar uma estátua

Bernardo Mendonça

A minha relação com a polícia é um pouco como o jogo do gato e do rato. Eles mandam-me sair, eu saio e... volto no dia seguinte. Faz parte de ser artista de rua.

Toco e canto a alegria da minha terra ao mundo que por mim passa. Gosto de pensar que lhes dou alguma felicidade através da música. Felicidade com ‘beat’ africano. Sou angolano. Nasci no bairro de Viana, em Luanda. É o bairro do Kuduro, morada de grandes kuduristas. Mudei-me com a minha família para Lisboa com 17 anos. Cheguei com os meus seis irmãos e a minha mãe, que é médica. Viemos tentar uma vida melhor. A minha mãe quis que todos os filhos estudassem. O meu pai tinha falecido anos antes. Desde aí a vida deu muitas voltas e agora estou aqui, quero ser músico - não advogado.

Passei a estar agenciado na Book Street Artist, uma empresa que representa artistas de rua. Através deles já atuei em empresas, discotecas, bares e festas.

O ano passado participei no concurso “Got Talent”, da RTP. Toquei kuduro com os bailarinos ‘Desbloqueados’ e cheguei à semifinal. Foi bom. Valeu a pena. Deu-me notoriedade. Sou frequentemente reconhecido na rua. Pedem para tirar fotografias comigo. Trocamos algumas palavras. É bom. Mas o meu sonho é sair da rua e tornar-me músico profissional. Gostava de atuar em grandes festivais de música, como o Rock in Rio. A rua é muito cansativa.

Por enquanto podem encontrar-me aqui na Baixa, seis dias por semana, de terça a domingo, entre as 18h e as 20h. Entre cada atuação páro cinco minutos, para descansar e recolher as moedas. Vai dando para viver. Dedico o resto do dia à gravação do meu primeiro disco, no qual toco e canto temas originais de afro house e kizomba. Quero lançá-lo no próximo verão. Desejo que a minha música seja ouvida em toda a parte.

Acredito que só se consegue chegar onde queremos se formos muito humildes. Atuar na rua é a minha prova de humildade. Todos os dias ponho a dançar dezenas de pessoas que me ouvem por acaso. Homens, mulheres e crianças. Doutores e desempregados. Somos todos iguais, estamos juntos, meu rei.

- When is the next show?
- In 5 minutes.

A florista que perdeu o amor aos homens

Alexandra Espírito Santo tem um mundo de flores na sua banca, no Rossio. Aqui posa com um ramo de Lisianthus

Alexandra Espírito Santo tem um mundo de flores na sua banca, no Rossio. Aqui posa com um ramo de Lisianthus

Bernardo Mendonça

Alexandra Espírito Santo, 50 anos, é uma flor solitária. Viveu durante anos uma vida de bonança com o seu primeiro marido, ex-futebolista do Sporting. O casamento terminou depois dele se meter na droga. Para se sustentar a si e ao seu primeiro filho, Alexandra teve de ir vender flores para a banca da sua mãe, onde ainda hoje trabalha. Depopis de dois relacionamentos falhados, o seu coração está fechado a um terceiro amor.

Acho que não sou da família dos banqueiros. Mas não sei. Sei muito pouco sobre as origens desse lado da minha família. A história que a envolve é um mistério. E tem contornos tristes que começaram com um amor inesperado e escandaloso para a época.

A minha avó Alda Rodrigues, mãe da minha mãe, era florista e enviuvou aos 40 anos, com dois filhos. Um dia, neste mesmo local, conheceu um rapaz chamado Vitorino do Espírito Santo, muito mais novo que ela, por quem se apaixonou. Aqui junto às flores. E, dessa paixão, nasceu a minha mãe. Conta-se que a família desse rapaz partira para o Brasil e que ele ficara em casa de uma madrinha muito rica. Sei pelos registos que a mãe dele se chamava Leopoldina do Espírito Santo. Que seria a minha bisavó.

Até aos sete anos a minha mãe, Albertina, foi criada numa casa abastada com amas e criados. Entretanto essa madrinha do meu avô morre e a minha mãe passa a viver com a minha avó e o meu avô numa casa humilde e a ter que ajudar na venda das flores. Uma vida dura, de sobrevivência. Porque consta que o meu avô se chateara com a família e abdicara da herança. Acaba depois por morrer num acidente a bordo de um navio onde trabalhava. Nunca ficamos a saber mais da família dele, nem das heranças. Zero. Imagino que quisessem encobrir a história de amor de um rapaz de boas famílias com uma florista viúva e mais velha.

Cresci a ver a minha mãe a vender flores. Ela trabalhou nas melhores floristas de Lisboa, porque era considerada muito talentosa para os arranjos florais e queriam-na para passar a técnica às novatas. Recordo-me dela a decorar grandes mansões em Sintra ou a fazer monumentais centros de mesa no Ministério da Marinha. Trabalhou até aos 76 anos.
Sempre fui a filha da florista do Rossio. A minha mãe fez questão que eu estudasse em bons colégios. Fui criada como uma betinha no Colégio das irmãs Doroteias. Completei o 12º ano e pensei tirar psicologia. Julgo que teria jeito. Leio bem as pessoas. Mas não continuei porque acabei por casar.

Foi um amor de verão na Lagoa de Albufeira. Tive por ele uma grande paixão. Ele era bonito, ‘styloso’, maluco. E... era jogador de futebol no Sporting, da primeira divisão, jogou com o Futre. Mais não quero dizer. Casei com 21 anos, mas depois tudo correu mal. Ele meteu-se nas drogas duras. Heroína e cocaína à força toda. Um mal muto comum da minha geração. Eu não passei por nada disso. Tinha aversão às drogas. Não sabia como lidar com essa situação. E separei-me do meu marido, já com um filho de oito anos nos braços.

Alexandra exibe um belo ramo de Lisianthus na praça D. Pedro IV, no Rossio

Alexandra exibe um belo ramo de Lisianthus na praça D. Pedro IV, no Rossio

Bernardo Mendonça

- Queríamos duas rosas vermelhas
- Duas são 4 euros. Três faço por cinco.
- Não. Queremos só duas. E um laço em cada uma.
- Um laço de gato? Ok...


Com o divórcio, a Xana — eu — teve que se fazer à vida e ir vender flores para o Rossio. Adoro flores, mas não gosto de vender na rua. Durante muito tempo nem quiosque tinha para me abrigar e estava à chuva e ao frio sem condições de trabalho. Mas isso é um pau de dois gumes. Porque antes de termos quiosques estávamos numa zona mais central do Rossio. Agora estamos neste cantinho, viradas para os prédios, parecemos de castigo. E as rendas que nos cobram são upa upa. 300 euros, fora a água e a luz. Chega facilmente aos 500 euros. Não ganho para isso.

A minha banca parece mais um posto de turismo, do que um quiosque de venda de flores. Passo o dia a indicar direções a turistas nas mais variadas línguas. E não recebo nada por isso. Eles não compram flores. Já viram algum turista a comprar flores para levarem para o hotel? Claro que não. E os portugueses estão em crise. Compram pouco. E eu tenho uma família que depende disto.

O que mais vendo são rosas. Vermelhas. Para celebrar paixões, amores e comemorações familiares. Mas tenho tantas flores bonitas.. Tenho alstroemérias - um nome difícil, eu sei - mas ficam muito bem numa jarra em casa, tenho lisiandros lindos, as crianças adoram as cores fortes das gerberas, tenho as coroas imperiais ou os girassóis da fertilidade. É uma imensidão de flores. As minhas preferidas são as tulipas, as dálias, as peonias e as bovardias. Gosto de flores silvestres.

O que mais gosto nesta profissão é a decoração de casamentos, festas, batizados, embelezamento de espaços. Tudo menos trabalhos funerários. Esses são sempre iguais, basta colocar flores à volta de uma coroa de espuma e um ‘eterna saudade’, mais um grande laço. Isso odeio.

A minha mãe ainda está viva e apesar da idade não perdeu o jeito para o negócio. Quando me vem visitar, com o seu jeito de vendedora antiga faz mais dinheiro que eu. ‘Oh minha querida o que vai ser? Meu amor, olhe estas flores tão lindas’ e vende muito. Com a idade vou passar a falar como as floristas antigas, perco a vergonha e passo a tratar toda a gente por ‘meus amores’ e ‘minhas queridas e meus queridos’. Já vi que o negócio rende mais.


Tenho um filho com 28 e uma filha com 18, de um segundo casamento. Ele está bem encaminhado, está casado, tem um filho, uma casa com piscina. A minha filha é que não. Quer estudar direito, mas não tem média para uma universidade estatal. E eu não tenho dinheiro para lhe pagar os estudos numa privada. O que faço? Corto-lhe as pernas? O pai dela nunca mais disse nada, há muitos anos que deixou de pagar a pensão de alimentos da filha e está desaparecido em Espanha. E o tribunal está-se nas tintas. “Procure-o por lá”, dizem-me. Eu e a minha filha dependemos disto. Das flores.

Tenho queda para os homens malandros. Por isso nunca mais quis saber de homens na minha vida. Tantas vezes me lançaram piropos aqui banca. ‘Uma flor no meio de tantas flores’. Eu nunca liguei. Não quero dar mais nenhum padrasto aos meus filhos. Estou bem assim. Tenho 50 anos. Não peço mais. A minha felicidade são eles. E que consigam o que desejam. De resto estou bem quando chego a casa e me sento no sofá a beber um gin com frutos vermelhos e canela, dou umas passas no cigarro enquanto vejo televisão no plasma. Não tenho sonhos altos. Quero apenas quebrar com o ciclo do fado das desgraçadinhas que tem sido a história das mulheres da minha família.

- Sorry, where is the ‘Elevador da Glória’?
- Go straight ahead and than it´s on your left side.
- Thank you.