Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Rio apesar de você

  • 333

CHRISTOPHE SIMON/AFP/GETTY IMAGES

Festa ou fúria? O que espera 10.500 atletas de 206 países numa cidade que já foi maravilhosa e aproxima-se a passos largos de mostrar ao mundo como se faz uma festa em pleno caos?

Os tiros ecoaram-lhe nos ouvidos, mas continuou no seu caminho. Sheila desceu a rampa da favela do Querosene para comprar uma cenoura, três batatas e um pão. Tinha de fazer uma canja para o caçula, que estava doente. No regresso do mercado, os vizinhos disseram-lhe que Dudu tinha sido baleado. Apressou o passo até que estancou, deixando cair as compras no chão com estrondo: o corpo de Carlos Eduardo, 20 anos, estava coberto por um lençol. Levantou o pano e confirmou a dor, baixou-se, molhou as mãos no sangue do filho e tingiu o próprio rosto. Com este gesto, Sheila emocionou a cidade e deixou claro que, quando nascem, os Jogos Olímpicos não são para todos.

Que cidade-anfitriã é esta onde, sem guerra declarada, 16 pessoas são assassinadas a cada dia? É o Rio de Janeiro, onde, a 5 de agosto, a festa vai arrancar, a batucada vai soar e os quadris vão rebolar, mas onde parte expressiva dos mais de seis milhões de habitantes vai ver o evento de muito longe e, sobretudo, vai questionar a utilidade das Olimpíadas para melhorar a vida da população. Muitos destes contestatários prometem estar nas ruas, não para celebrar os primeiros Jogos Olímpicos realizados na América do Sul, mas para expor uma realidade de exclusão, sem qualquer glamour. E, neste cenário tenso, a grande incógnita é saber se pela primeira vez na história os moradores das favelas descerão dos morros para invadir o asfalto e reivindicar mais direitos.

VIOLÊNCIA Sheila perdeu o filho baleado por um polícia

VIOLÊNCIA Sheila perdeu o filho baleado por um polícia

FOTO PABLO JACOB/AGÊNCIA O GLOBO

“Doeu demais ver o sangue do meu filho derramado. Aquele sangue era meu. Fiquei tão revoltada que passei no rosto. Naquela hora, não tinha medo de nada, da polícia, da morte. A minha vida já estava destruída.” Sheila Cristina da Silva não contém as palavras ao jornal “Folha de São Paulo”. Fala com a voz de quem, aos 46 anos, gerou 14 filhos e, destes, já perdeu cinco: dois para adoção, dois por doença e Dudu, que gostava de criar passarinhos, morto por uma bala perdida. O projétil terá vindo da arma de um polícia e acertou-lhe, bebendo água de coco na porta da igreja evangélica que frequentava. Para sobreviver, Sheila apanha papel e latas no lixo. Vive com os seis filhos mais novos numa casa de um quarto no centro do Rio. Ela que, do fundo da miséria, resume toda a vida numa frase: “Fazem isso porque a gente é preto e desdentado.” É como se dissesse que os Jogos Olímpicos nada significam para quem morreu em vida.

Que cidade-anfitriã é essa onde a morte tem cor e classe social, mas onde a violência explode com tanto impacto que rebenta o que encontra pelo caminho? É o Rio de Janeiro, onde entre 2003 e 2015 ter-se-ão registado 11.343 mortes provocadas por ações policiais, 645 apenas em 2015. A Amnistia Internacional explica que 99,5% destas vítimas eram homens, 80% negros e 75% tinham idades entre 15 e 29 anos. E, se considerado apenas o período entre janeiro e maio deste ano, terão sido 322 as mortes causadas pela violência policial, segundo os últimos dados do Human Rights Watch.

VIOLÊNCIA Gisele foi morta por assaltantes

VIOLÊNCIA Gisele foi morta por assaltantes

A violência carioca não escolhe ricos nem pobres, calha a todos. O carro, um Land Rover, não era blindado e este foi o seu maior erro. Blindá-lo foi uma decisão adiada que os pais e o marido de Gisele Gouvêa lamentariam no momento do seu funeral. Num sábado ao fim da tarde, há um mês, a médica levou um tiro na cabeça. Bonita e privilegiada, de nada lhe valeu. Aos 34 anos terá sido vítima de mais um assalto na Linha Vermelha, eixo fundamental da circulação rodoviária no Rio de Janeiro. Voltava para casa depois do trabalho. Não chegou ao destino, mas este não se lhe escapou. Gisele tinha dinheiro para comprar os bilhetes dos Jogos, mas não vai ver as Olimpíadas nem pela televisão.

Que cidade-anfitriã é essa onde não há esconderijo nem para quem espera pela morte num hospital? É o Rio de Janeiro, onde as autoridades já assumiram que durante os Jogos Olímpicos a cidade será invadida por 85 mil efetivos de segurança (o dobro do disponibilizado nas Olimpíadas de Londres), dos quais, de acordo com as últimas estimativas, 14 mil do Exército, quatro mil da Marinha e dois mil da Força Aérea. E onde, apesar das limitações orçamentais, a lista de compras da Secretaria de Estado de Segurança incluiu 18 mil balas de borracha, nove mil balas que soltam tinta para marcar alguém na multidão, 4500 granadas, o mesmo número de bombas de gás lacrimogéneo e 900 sprays de gás pimenta. A mesma cidade onde este ano 58 polícias foram mortos e, em 2015, o número de pessoas mortas por polícias chegou a 307.

VIOLÊNCIA Fat Family é o traficante mais procurado do Rio de Janeiro. Para o encontrar, dez pessoas já morreram. Exemplos de uma guerra não declarada

VIOLÊNCIA Fat Family é o traficante mais procurado do Rio de Janeiro. Para o encontrar, dez pessoas já morreram. Exemplos de uma guerra não declarada

O nome é de rico, a vida de tragédia. Aos 15 anos, Nicolas Labre Pereira de Jesus recebeu a primeira acusação judicial: por assassínio. Em 2003, adolescente, era já conhecido pela alcunha que o tornaria célebre, Fat Family. Marginal de pai, mãe e irmão, descende de traficantes de droga. My Thor, o irmão mais velho, era um alto quadro do Comando Vermelho, uma das mais poderosas fações criminosas do Rio de Janeiro. Há cerca de um mês, Fat Family estava internado no Sousa Aguiar, hospital público de referência nos Jogos Olímpicos, com um tiro no rosto, resultado de um confronto com a polícia, quando, de madrugada, mais de 20 homens entraram, armados com granadas, para o resgatar. Mataram uma pessoa e feriram outra. Desde então, ele está escondido, troca de esconderijo a cada dois dias e, nas ações da polícia para o encontrar, dez pessoas foram mortas. De Fat Family e dos seus 120 quilos nem sombras. Uma das razões para o falhanço das operações policiais é a falta de dinheiro para abastecer os helicópteros das forças de segurança. Nesta fuga incessante, Fat Family não terá tempo para ver os atletas brasileiros.

Com tantas, ameaças e histórias sem final feliz, como pode o Rio de Janeiro receber uma confraternização mundial como as Olimpíadas? O prefeito do Rio, Eduardo Paes, não teve pudor em afirmar à CNN que “a segurança é o assunto mais sério da cidade” e que “o estado está fazendo um trabalho terrível, falhando completamente no seu trabalho de policiar e cuidar das pessoas”. Ele, o anfitrião de 10.500 atletas de 206 países, de chefes de Estado e de governo, disse o que já se sabe, mas não se deve dizer quando a medalha a concurso é o sucesso internacional do evento. E, perante o espanto geral, explicou melhor as declarações: “Não venham esperando Chicago, Nova Iorque ou Londres. Comparem o Rio com o Rio.” Pois, mas o rosto do Brasil tropical e sorridente é vendido ao mundo como um destino feliz e esta não é a melhor altura para confrontar a cidade com a sua história, rompendo com o cliché de “cidade maravilhosa” e assumindo a gravidade das suas mazelas.

Há um ano, Lilia Schwarcz sentou os brasileiros no divã de um psiquiatra. Com Heloísa Starling, escreveu “Brasil: Uma Biografia”, livro que vai buscar na matriz colonizadora portuguesa e na história o caminho para compreender um país bem mais turbulento do que o rótulo de doces trópicos. A autora, em conversa com o Expresso, explica que aquela é uma terra “emotiva, que procura no Outro a resposta para os seus fracassos”.“A ideia de desejar ser outra coisa que não é marca a identidade brasileira e querer sediar as Olimpíadas tem a ver com isso. Assim, antes de resolver problemas infraestruturais como a Saúde, a Educação ou a Justiça, propõe-se a abrigar eventos grandiosos. É evidente que este era um objetivo demasiado ambicioso e que essa decisão mais não era do que um teatro para o exterior”. E conclui, contundente: “O que me preocupa é que o nosso presente está repleto de passado e chegou a hora de os brasileiros aprenderem a assumir as suas contradições.”

MEDO A tensão pode ser aliviada pelas medalhas dos atletas, mas os habitantes do Rio temem a explosão das favelas

MEDO A tensão pode ser aliviada pelas medalhas dos atletas, mas os habitantes do Rio temem a explosão das favelas

FOTO DANIEL RODRIGUES

Rio, 40 graus (no inverno)

Mas nem só de manifestações tradicionais será feito o dia a dia contestatário do Rio. A outra forma de exigir mudanças passa pela ocupação de espaços públicos. Jonas Medeiros, investigador da Universidade de Campinas, estuda as ocupações de escolas secundárias e explica ao Expresso que esta tendência, que já chegou aos cariocas, começou em São Paulo em novembro de 2015 e que, depois de ter atingido um pico de um milhão de alunos envolvidos, abrange atualmente centenas de estabelecimentos de ensino em 11 estados do Brasil. “Esta opção revela uma nova estratégia de contestação, que envolve uma geração muito jovem, muitos sem qualquer ligação partidária, mas insatisfeitos com a situação brasileira”, explica. Avisa, contudo, que a repressão ao movimento é brutal, sobretudo porque o atual ministro da Justiça do governo interino que substituiu Dilma Rousseff, liderado pelo vice-presidente Michel Temer, é o ex-secretário de Estado da Segurança Pública de São Paulo, um antigo chefe da Polícia Militar.

Presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Ângela Alonso tem estudado os protestos brasileiros desde a maciça invasão das ruas há três anos. E, por isso mesmo, diz que “é preciso regressar a 2013, quando tudo começou pela crítica ao reajuste do preço dos transportes públicos, para se perceber melhor o momento que o país atravessa”. Desde então, “a forma de protestar mudou, deixou de se resumir ao modelo clássico de manifestações organizadas com base nos partidos políticos, com a presença de carros de som, lideranças claras e bandeiras vermelhas, associadas a greves”.

A socióloga explica que, desde 2014, a direita apropriou-se da simbologia nacional, verde e amarela, da bandeira nacional, e afastou-se de uma forma mais radical de contestação, assumida pela oposição de esquerda, que optou, por exemplo, pelas ocupações de edifícios públicos. Com o afastamento de Dilma Rousseff do poder, a sociedade brasileira dividiu-se e a direita saiu das ruas. “As grandes manifestações de 2013 já não se vão repetir, a sociedade brasileira está muito fragmentada”, avança Ângela Alonso, para quem “os protestos vão continuar e até aumentar de frequência, embora com menor capacidade de atração individualmente”.

“O período de realização das Olimpíadas será repleto de manifestações, esperam-se movimentos diários, os grupos contestatários já se estão a organizar, falta é perceber qual será a envergadura de cada protesto”, questiona. A presidente do Cebrap explica ainda que, no Brasil, “as forças de elite estão sempre a conceber acordos para controlar os processos de mudança e quando os confrontos se aproximam da erupção de uma guerra civil, os grupos mais estáveis como a Igreja ou o Exército entram em cena para fazer um acordo capaz de estancar as mudanças”. Voltarão a mover-se desta vez?

Um dos argumentos que mais revolta têm causado entre os cariocas insatisfeitos com os Jogos Olímpicos diz respeito à expulsão de mais de 4120 famílias das suas casas para que os terrenos fossem ocupados pelas obras do evento. Guilherme Boulos, licenciado em Filosofia, filho de um dos mais respeitados infecciologistas brasileiros, abandonou o conforto da classe média e tornou-se um dos principais rostos da contestação à política de habitação do país. É o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), vive em São Paulo, mas com frequência é visto à frente das manifestações cariocas de oposição ao governo interino de Michel Temer.

Ao Expresso explicou que a estratégia das ocupações simboliza um novo ciclo de contestação, “baseado no enfrentamento”, resumindo o que Boulos diz ser um “estado de indignação” e “marcando um momento que antecede o surgimento de algo novo, que ainda não se sabe exatamente o que será”. O coordenador do MTST sabe que os movimentos serão recebidos “com forte repressão”, sobretudo porque, diz, em causa com Michel Temer está “um Governo que não foi eleito e que, por isso, não tem de prestar contas a ninguém”.

Este filho da estabilidade, que escolheu o confronto como modo de vida e que já mereceu por isso a publicação de perfis em vários jornais, assume que “o desafio é levar mais gente para as ruas”. “Há uma insatisfação muito forte, mas que para se transformar em mobilização social, precisa de algo mais, que poderá surgir durante a realização das Olimpíadas, um evento que não mobiliza ninguém e que está a ser recebido com apatia pela maioria da população brasileira”. E Boulos não acaba a conversa sem deixar um aviso, em tom de ameaça: “Vai haver luta nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.”

Deus e o diabo na terra do sol

Passo a passo, com cuidado, o discurso dos críticos do atual Governo e daqueles que estudam os comportamentos dos manifestantes aproxima-se das favelas cariocas. Vítor Guimarães é membro da equipa de coordenação da Frente Povo Sem Medo, organização que surgiu no fim de 2015 e que reúne cerca de 30 movimentos de contestação. Vítor é uma espécie de Boulos carioca, embora com menos veemência nas afirmações. Menos paixão no discurso. Mas o que lhe pode faltar em eloquência sobra em conhecimento do terreno e presença nas ruas do Rio. Explica que está a ser preparado um “grande ciclo de mobilização, que pretende aproveitar os olhos do mundo sobre a cidade para fazer retroceder o golpe em curso no Brasil”.

Sabe que o mais provável é que não se repitam as enormes enchentes das ruas brasileiras, mas promete manifestações diárias e reconhece que a reação das autoridades será contundente: “Espera-se uma repressão violenta, com muitas prisões, para retirar as lideranças das ruas e minar o movimento de contestação, mas não temos alternativas, temos de provar que o discurso de normalidade que eles querem fazer passar durante os Jogos é inaceitável.” A 5 de julho, a 30 dias do início das Olimpíadas, a Frente Povo Sem Medo avançou com uma manifestação intitulada “Calamidade Olímpica” e seis jovens foram detidos para serem ouvidos sob a acusação de destruição de património público. E, com cautela e sem neons nas palavras, Vítor Guimarães deixa no ar a maior sombra para quem vive, conhece ou pode vir a conhecer o Rio de Janeiro: “Pela primeira vez existe a possibilidade de as populações das comunidades carentes, das favelas, descerem às ruas e chegarem ao asfalto.” Será?

O perigo à espreita das Olimpíadas não resulta, contudo, apenas de ameaças nascidas dentro das fronteiras brasileiras. Sobre os sinais enviados pelo terrorismo internacional, o ministro da Defesa disse publicamente que um ataque “é uma possibilidade, mas não uma probabilidade”. Mas apesar da tentativa de passar mensagens tranquilizadoras, o Governo brasileiro também já assumiu que está a procurar o extremista sírio Jihad Ahmad Deyab, detido em Guantanamo, Cuba. Participante em operações terroristas no continente africano e de recrutamento na Europa, entrou como refugiado no Uruguai e poderá estar no Brasil há mais de um mês. No total, 100 “lobos solitários” estão na mira dos serviços de inteligência brasileiros e o jornal “Libération” avançou mesmo que um membro do Daesh estaria a preparar um atentado à delegação francesa.

Os jornais de todo o mundo não param de noticiar a grande variedade de problemas que parecem ameaçar os Jogos Olímpicos, desde um corpo desmembrado encontrado na praia de Copacabana junto ao local onde partem os triatletas aos assaltos aos desportistas, mesmo deficientes. Mas há mais sombras no Rio de Janeiro além da (in)segurança. O “New York Times”, por exemplo, publicou recentemente um artigo com um início nada simpático para a cidade. “É oficial: os Jogos Olímpicos no Rio são um desastre não natural.” Uma catástrofe como se de um tremor de terra se tratasse.

Os problemas da cidade ganharam especial impacto internacional com a imprevista epidemia do vírus zika, causador de problemas neurológicos em alguns adultos e casos de microcefalia em bebés cujas mães foram infetadas no início da gravidez e que levou a Organização Mundial de Saúde a lançar um alerta mundial, aconselhando mulheres grávidas ou com intenção de engravidar a que não compareçam aos Jogos do Rio. A expectativa, contudo, é que o ténue inverno carioca — com temperaturas à volta dos 20 graus centígrados — limite a atuação dos mosquitos Aedes aegypti. Mas apesar de as autoridades brasileiras classificarem como de quase zero o risco de infeção, vários atletas internacionais já avisaram que estarão ausentes da competição com receio da ameaça alada.

Polícias aguardam os passageiros à chegada ao aeroporto, ostentando cartazes que denunciam o atraso no pagamento dos seus vencimentos e alertando que o Rio de Janeiro não é seguro

Polícias aguardam os passageiros à chegada ao aeroporto, ostentando cartazes que denunciam o atraso no pagamento dos seus vencimentos e alertando que o Rio de Janeiro não é seguro

FOTO VANDERLEI ALMEIDA/AFP

Outra sombra de peso quase insustentável relaciona-se com as infraestruturas essenciais à realização das Olimpíadas, sobretudo a finalização da linha 4 do metro, que permite ligar a zona sul, turística, à zona oeste, onde vão ter lugar os principais eventos olímpicos. A promessa das autoridades cariocas é que a inauguração desta ligação essencial aconteça no primeiro dia de agosto, a quatro dias da abertura do evento. Os estádios estão prontos, o velódromo ficou concluído, os apartamentos dos atletas também, mas com tanta pressa levanta-se a questão da sustentabilidade das obras. Até porque a ciclovia Tim Maia, inaugurada em janeiro e que pretende acompanhar toda a orla num dos mais belos pontos turísticos da cidade, a Avenida Niemeyer, caiu no mar passados apenas três meses, matando duas pessoas.

É preciso também não esquecer o espectro da profunda crise económica que afeta o Brasil em geral e o estado do Rio de Janeiro em especial e que já foi classificada como a mais grave de que há memória. O governador declarou o desprestigiante estado de calamidade pública, usado para situações como grandes cheias, para poder aceder às verbas federais que lhe permitirão reforçar as condições de segurança, pagar salários de funcionários públicos e concluir obras essenciais ao evento. Caso contrário, assumiu Francisco Dornelles, poderia gerar-se “um total colapso na segurança pública, saúde, educação, mobilidade e gestão ambiental”.

A derrocada das contas públicas causou o colapso do sistema de saúde e até o encerramento de restaurantes populares que servem a população carenciada. Tudo devido, sobretudo, à redução da coleta dos impostos com a queda do preço do petróleo, avaliada em 60% desde 2014. E, segundo o “Financial Times”, citando um estudo da Universidade de Oxford, as Olimpíadas do Rio de Janeiro terão custado 51% acima do que estava orçamentado. As autoridades do Comité Olímpico Brasileiro negaram a derrapagem, classificando a notícia de “publicidade negativa”. Mas as novidades negativas não param. Outra baixa no legado do evento são as promessas ambientais, peça-chave da candidatura ao Comité Olímpico Internacional. As águas da Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas continuam impróprias ao contacto humano, com a recomendação de nem tocar nem beber. E uma reportagem da CNN alertou para a presença de uma “superbactéria” nas águas das praias cariocas. Tem calma, Brasil.

Depois há o resto, mas que não é de menor importância para os brasileiros, embora não lhes ameace a vida ou a saúde. O que incomoda pelas beirinhas e vai minando a relação dos cidadãos com as instituições e com os Jogos Olímpicos. Como o caso do centro ecuménico da Vila Olímpica, preparado para apoiar espiritualmente os atletas e que decidiu deixar de fora as religiões de matriz africana, de forte representação entre a população brasileira. Seguidores do cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo e budismo terão suporte religioso, mas quem professa candomblé ou umbanda, não.

Grande sertão, veredas

Pendurado entre o otimismo e o realismo, Michael Reid, jornalista do “Economist”, profundo conhecedor da situação brasileira e autor do recente “Brasil, a esperança e a deceção”, retoma o refrão de que aquele “não é um país para iniciantes”, como sintetizou Tom Jobim. Aponta o dedo a Dilma Rousseff como a principal responsável para a grave situação económica e social que o país atravessa, sobretudo por “não ter mantido as decisões introduzidas por Fernando Henrique Cardoso e desenvolvidas por Lula da Silva”. E a história parece voltar ao princípio.

O abandono das metas da inflação, o agravamento de uma política de manutenção artificial dos preços da energia ou dos combustíveis e a flutuação monetária apertaram a garganta económica do Brasil, segundo Reid. “Os investidores perderam a confiança no país e a principal culpada pela má gestão foi Dilma.” E define o momento da realização das Olimpíadas como sendo de “uma grave crise de governabilidade e credibilidade na classe política brasileira”.

Capaz de conversar num português manchado por uma mistura de sotaque inglês com os “esses” arrastados dos cariocas, Reid diz que “é triste que os olhos do mundo se fixem num Brasil com tantos problemas”. Mas, apesar das ameaças, ele que visitou o Parque Olímpico em fevereiro, acredita que as Olimpíadas chegarão a bom porto, apesar de tudo. “O problema será para os brasileiros, quando os Jogos acabarem”, alerta.

Ausentes dos Jogos estarão figuras como Barack Obama, Angela Merkel ou Vladimir Putin. Dilma Rousseff irá assistir à cerimónia de abertura das Olimpíadas num camarote do Estádio do Maracanã. Michel Temer autorizou a sua presença nestas condições. A ideia inicial do protocolo brasileiro era juntá-la com ex-chefes de Estado, mas o receio da repercussão internacional negativa obrigou à mudança de planos. Mas o camarote de Dilma será mais pequeno do que o de Temer e estará situado num andar inferior.

Quando os deputados brasileiros causaram espanto mundial ao invocar a mãe, a igreja e até um torturador para justificar a votação a favor do afastamento da Presidente, a primeira mulher a liderar o país assistia à cena pela televisão, ao lado do seu criador, Lula da Silva. Mais tarde, numa entrevista ao “Guardian”, Lula contou que ela estava tranquila, comia pipocas. Desde então, Dilma tem-se desdobrado em entrevistas, dá longos passeios de bicicleta e aguarda por uma vingança que ainda não se sabe nem quando nem como chegará. Lula está triste, os mais próximos dizem que sofre com os raros pedidos de conferências. Do metalúrgico barbudo ao “cara legal”, elogiado por Obama, foi um grande passo. De ex-Presidente a ex-ministro, desapossado no dia da posse, foi um soluço.

“No Brasil colocam-se sempre em primeiro lugar as questões privadas e só depois as políticas e institucionais, o que acaba por ter sérias consequências na formação do conceito de república, que é um direito de todos”, explica Lilia Schwarcz, a historiadora e antropóloga da Universidade de São Paulo que, juntamente com Heloísa Starling, colocou o país num gabinete de psicoterapia.

FOTO BUDA MENDES/GETTY IMAGES

Mas o trauma parece ainda ir no adro. As Olimpíadas trouxeram 120 mil novos postos de trabalho ao Rio de Janeiro apenas no sector turístico, 30 mil dos empregos foram criados na construção civil, mas deverão desaparecer com o fim dos Jogos. “A vida não é brincadeira, não marco bobeira /Eu cheguei pra ficar /Acredito que tudo tem hora /Tem o seu momento e tem o seu lugar /Pois errar faz parte, evoluir é arte /Basta acreditar, depende de você”, diz a música oficial das Olimpíadas cariocas. E assim, como manda a canção, a população vai vivendo um dia de cada vez. O espectro do falhanço já ameaçara o Mundial de Futebol de 2014, mas, para lá da derrota escandalosa com a Alemanha, nada de especialmente grave aconteceu.

As expectativas são de que 500 mil pessoas cheguem à cidade para assistir aos Jogos. Uma pesquisa de opinião realizada pela Fundação Getúlio Vargas revelou que 61% dos moradores do Rio acreditam no sucesso do evento, apesar de terem revelado receios quanto à segurança e ao agravamento do trânsito. Afinal, como se diz no Brasil, “em casa de traficante, faxineira não limpa o pó” e ninguém devia ter esperado que atrasos e desigualdades de séculos estivessem resolvidos a tempo de uma competição desportiva, mesmo que com expressão mundial. O prefeito conta os dias para o fim do evento e prometeu a um jornal que, quando tudo acabar, vai “curtir um samba e beber cerveja”. E, prometeu: “Bye-bye!”

Rio, “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. Apesar do caos, do medo, do susto, dos políticos, do trânsito, das obras, da crise económica. Dia 21 de agosto, o hiato olímpico acaba, mas o pior virá a seguir. Porque lá ninguém esquece a canção de Chico Buarque: “Quando chegar o momento /esse meu sofrimento /vou cobrar juros, juro (...) Você vai pagar e é dobrado /cada lágrima rolada /nesse meu penar”.