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A vida era um cabaré

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EROTISMO O Maxim’s, localizado no Palácio Foz, foi palco de glamorosos espetáculos de striptease

FOTO ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA

Logo após a I Guerra Mundial, Lisboa inspirou-se em Paris e abriu as portas de luxuosos cabarés, lugares de boémia, transgressão, vício, euforia e espetáculos de variedades. Os novos tempos de liberdade ditaram-lhes o fim. Mas há quem queira recriar um novo cabaré na capital

Comecemos com uma história de amor improvável entre uma corista e um empregado de um estaleiro naval que se tornara boémio dos sete costados para esquecer uma paixão falhada. Este romance errante alimentou-se num ambiente de luxúria e bas-fond. Fala Judite, a mulher para quem a noite deixou cedo de ter segredos. Conheceu o homem da sua vida na praia de Santo Amaro de Oeiras. Ela tinha 26 anos, ele 23. Foi em 1963. “Era loiro, engraçado, eu era bonita e bem feitinha. Ora andávamos ora desaparecíamos um do outro. Assim é a vida. A minha foi passada a dançar. Tinha boas pernas, mexia-me bem e durante décadas trabalhei como corista no Parque Mayer. Estreei-me aos 15 anos numa peça com o Vasco Santana e nunca mais parei. Felizmente, a minha mãe não me impediu de seguir este caminho, porque ela apreciava também a vida artística. Fui corpo de baile de largas dezenas de espetáculos, trabalhei com todos os grandes do teatro de revista. Aprendia facilmente as coreografias. E, para ganhar mais algum dinheiro, a partir dos 21 anos comecei a trabalhar em nightclubs e cabarés, onde dançava ao som de uma orquestra com piano e maestro. Estive uns anos no Maxime e no Fontória, na Praça da Alegria, e no Príncipe Negro, nos Restauradores. Belos tempos, animados, alegres, sem maldade, com respeito.” No Maxime passou a ser chamada de “Judite, a batatinha”, porque, no início, vendia cigarros e batatas fritas.

Esse espaço de diversão noturna abriu pela primeira vez as portas em 1939 e consta que era usado como refúgio de espiões, aliados e nazis, que ali à socapa realizavam reuniões secretas no início da II Guerra Mundial. O Maxime fazia lembrar o Rick’s Café do filme “Casablanca”, onde Humphrey Bogart ordenava mais música ao pianista Sam. Mas talvez fosse ainda mais requintado, com os seus veludos vermelhos e painéis dourados.

MAXIM’S Em 1920 era considerado o expoente máximo da Lisboa boémia e elegante

MAXIM’S Em 1920 era considerado o expoente máximo da Lisboa boémia e elegante

Com mais de meio século de história para contar, o Maxime marcou a capital como o mais luxuoso cabaré dos anos 40, local de festa e ócio da burguesia, intelectuais e artistas. Por ali passou Juan Carlos de Espanha e muitos outros elementos de famílias aristocráticas portuguesas. Era poiso também de turistas e senhores da província que procuravam os ares modernos e libertinos da cidade.

Uma clientela sempre engalanada, de fato ou smoking, porque o espaço exigia elegância e notas fartas no bolso para pagar champanhe do bom às meninas. Na hora do jantar havia sempre folclore, e pela meia-noite o cabaré ganhava outro esplendor e atrevimento com striptease, cantorias e ballet com coristas de pernas jeitosas. Como a Judite, ou Jú. “Veja como o tempo passa”, sussurra-nos agora num fio de voz. O rosto muito magro é um mar de rugas. As mãos engelhadas apontam para o álbum de fotografias que conta o seu passado nos teatros e cabarés. Não parece a mulher graciosa e ginasticada que noutros tempos levava com facilidade um pé à cabeça e vestia a pele de mil e uma personagens, até de uma sexy guerreira das estrelas de botas altas prateadas. Mas é.

Judite está agora deitada numa cama de hospital em lenta convalescença. As pernas que toda a vida lhe garantiram aplausos, urros e assobios faltam-lhe agora. O tempo é ingrato para o corpo. Caiu há duas semanas à beira da cama e partiu a anca, coisas de quem cruzou os 82 anos e não se privou de nada. “A noite é mais intensa e turbulenta. Tudo isso tem uma fatura. Ah, pois tem”, resume Américo Prata, o marido de Judite, 79 primaveras. Todas as tardes a visita no hospital e lhe leva iogurtes e água. “Ela parou com as danças na noite perto dos 50 anos, quando me juntei finalmente a ela. Até aí tive muitas namoradas nos intervalos. Casámos em 1985. Estávamos velhos, solteiros, éramos muito amigos e decidimos ficar juntos. Esta amizade continua. Se não fosse assim, não a aturava ainda.” Se o amor não é isto...

CORISTA Judite Prata (segunda a contar da esq.) estreou-se aos 15 anos como corista no Parque Mayer, trabalhou com grandes nomes do teatro de revista e a partir dos 21 anos atuou como bailarina nos cabarés de Lisboa até aos 50

CORISTA Judite Prata (segunda a contar da esq.) estreou-se aos 15 anos como corista no Parque Mayer, trabalhou com grandes nomes do teatro de revista e a partir dos 21 anos atuou como bailarina nos cabarés de Lisboa até aos 50

FOTO COLEÇÃO PARTICULAR

Os olhos de Judite enchem-se de brilho quando aponta para uma determinada fotografia a preto e branco. No retrato está sentada em cima de um balcão, seminua, de cabeleira afro platinada, acompanhada de outras raparigas, numa pose ensaiada e desafiante. “Foi tirada no Príncipe Negro, um pequeno cabaré ao estilo francês situado no início da subida do Elevador da Glória, do lado direito [onde mais tarde funcionou uma sex shop]. O show era uma recriação dos cabarés de Paris. Eu usava um biquíni com lantejoulas, mas não me despia. Era uma mulher alegre, se não fosse não teria ido para esta vida de artista, não é verdade?” Judite trata de explicar que o trabalho das bailarinas não se ficava pelo palco dos clubes. A maioria delas acumulava o seu baile ou canto com funções de alterne. Ou seja, muitas vezes eram convidadas a sentar-se à mesa de amigos ou clientes habituais, que lhes ofereciam uma bebida ou uma garrafa de champanhe em troca de conversa e companhia. Quanto mais os clientes bebessem maior comissão recebiam. Fazia parte das regras da casa, para abrilhantarem a sala e trazerem outro picante ao ambiente. Judite conta o velho truque desses clubes: “Frequentemente, os nossos cocktails eram servidos sem álcool, para não nos embebedarmos.” Outro esquema usado era distraírem o cliente quando pousavam o copo de champanhe cheio, que uma amiga rapidamente entornava para dentro do frappé. Vinha logo à mesa um empregado: “Vou trazer gelo mais fresco.” Isto de forma discreta para que os clientes não se apercebessem. “Mas quando me sentava junto desses amigos era com muito respeito. E se algum cavalheiro me perguntava: ‘Quer sair daqui comigo?’, tratava logo de responder: ‘Não. Não saio daqui com ninguém.’ As mulheres da rua que por lá andavam é que saíam com eles. Nós éramos as vedetas do espaço e estávamos ali apenas para animar.”

Judite conta que ganhava bem mas que não se privou dos seus vícios e de garantir conforto à filha, que tem necessidades especiais e com quem ainda hoje mora. “Na vida tive três vícios, os cigarros, a bebida e o ouro. E ainda gosto de beber whisky em casa ou de um copo de vinho branco.” Quem viveu a boémia da noite, dificilmente lhe perde o gosto.

Judite Prata

Judite Prata

FOTO COLEÇÂO PARTICULAR

Há dez anos, o falecido ator Raul Solnado contou ao Expresso como debutou no então Royal Maxime, na época em que Judite era uma jovem menina a dar à perna em palco, tal como outras tantas bailarinas espanholas. Corria o mês de dezembro de 1952. O colega José Viana tinha construído o “Sol da Meia-Noite”, um atípico espetáculo de variedades idealizado para aquele palco e do qual faziam parte cantores, bailarinos, atores e as alternadeiras espanholas, as irmanitas. “E lá estava eu, estreante, cómico dentro daquele universo. Vinte e dois aninhos completamente inebriados, catrapiscando as bailarinas, encostando-me às cantoras e passando a mão no pelo da equipa de alterne. Sete quintas”, confessou Solnado com o seu típico humor. E confirmou que nessa época o Maxime era “o grande acontecimento da noite de Lisboa”. A palavra show não existia, porque o termo ‘variedades’ chegava para o consumo interno. Recentemente inaugurado, o Maxime soava a luxo, com dois palcos para duas orquestras que alternadamente abrilhantavam o baile entre as 22h e as 5h da manhã. Solnado revelou que o esquema era o mesmo nos outros cabarés da cidade: o Moroco e o Fontória, também na Praça da Alegria, o Ritz, na Rua da Glória, o Cristal, na Avenida da Liberdade, perto do Parque Mayer, ou o Olímpia, na Rua dos Condes. Sem meias palavras, o humorista garantiu que em todos eles o estilo das ‘variedades’ pouco mudava. “Um ilusionista foleirote, um ou outro cantor já em fim de estação, por vezes um artista de circo, uma atração com um nome mais sonante para estimular o pessoal e as inefáveis espanholas, que cantavam ou dançavam e aqui chegavam sempre com as suas gordas madres, que enquanto faziam variados crochés não tiravam os olhos das suas niñas.”

O Maxime fora inspirado num dos primeiros cabarés portugueses, o Maxim’s, localizado no atual Palácio Foz, nos Restauradores, a ditar o ritmo dos loucos anos 20, com dancing, salas de jogo e roleta, bar e restaurante. Dizia o “Notícias Ilustrado”, em 1929, que o Maxim’s era o cabaré onde “pode levar-se confiantemente o mais viajado turista, sem receio de confrontos humilhantes com o que de melhor existe, no género, lá fora [...] o seu jazzband grita alegria [...] o ambiente é de luxo, conforto e comunicativa alegria”. O “Diário de Lisboa” chegou a descrevê-lo: “O clube à noite é a síntese da vida moderna: a confusão, o delírio e às três da madrugada... a cocaína!”

O romance do escritor João Ameal “Os Noctívagos”, de 1924, descreve uma sessão de dança erótica ocorrida no Maxim’s: “O quarteto lançava os compassos banalíssimos do [tema] ‘Mon Homme’ [...] E, inesperada, uma mulher surgia, detrás do biombo, ao fundo, toda coberta duma capa negra, que só deixava assomar o cabelo doirado [...] principiou uma dança lânguida, arrastada, sublinhando com quebraturas sensuais [...] desenhando uma sucessão de afagos, de arquiteturas lúbricas, de espasmos infinitos. Depois, parava momentos e atirava o refrain, numa voz ronronante e viciosa: ‘C’est mon homme... C’est mon homme’.” O Maxim’s era de facto um lugar de prazer e de excesso, de extravagâncias morais e físicas. E isso é bem aceite por vários cronistas da época. “O cabaré tem de ser sobretudo bizarro. Deve surpreender, ferindo mesmo a vista e a sensibilidade dos frequentadores”, lia-se no jornal “ABC” em 1924.

No livro “Os Nightclubs de Lisboa nos Anos 20”, de Júlia Leitão de Barros, escreve-se que esse cabaré “combinava a rigidez da decoração, genuinamente aristocrática, com um novo elemento que fornecia ao dancing laivos de modernidade e do frenesi da década de 20: o jogo de luzes. A sua cabina de distribuição elétrica, comandada diariamente por um mestre eletricista, oferecia efeitos luminosos surpreendentes para a época”. Além da dança, do jogo, do restaurante fora de horas, este tipo de clubes eram lugares apetecíveis para quem procurava a aventura de um flirt ou o prazer pago a uma mulher. As papillons dos clubes, hoje chamadas de ‘alternadeiras’, já teriam como objetivo chamar clientes às ‘casas’: borboleteavam de mesa em mesa e eram figuras de má reputação. Reinaldo Ferreira, para sempre conhecido pelo pseudónimo Repórter X, considerado o melhor jornalista do seu tempo, chega a escrever em 1927 sobre as papillons do Bristol Club, outro conceituado cabaré da mesma altura (onde depois foi a sede do Sport Lisboa e Benfica), decorado com esculturas de Leopoldo de Almeida e Canto da Maia e com pinturas de Almada Negreiros e Eduardo Viana, entre outros: “A papillon [...] é o tipo mais aproximado ao da geisha japonesa. A sua missão é puramente decorativa. Deve ser bela, deve ser inteligente, saber palestrar, fazer rir, representar, abancada a uma mesa, como se representasse no teatro. E se quer ser só papillon... o seu papel termina aí. Terminada a festa, retira-se para o seu lar.” Mas muitas não se ficavam por aí, praticando uma prostituição de elite, com requinte.

BRISTOL Inaugurado em 1918, tinha decoração modernista e era frequentado por artistas

BRISTOL Inaugurado em 1918, tinha decoração modernista e era frequentado por artistas

FOTO GABINETE DE ESTUDOS OLISIPONENSES

Em meados dos anos 40 do século XX, no entusiasmo do pós-guerra, o eixo entre os Restauradores e o Parque Mayer vai-se transformando na nova zona dos cabarés, à boleia do teatro de revista e dos restaurantes das noites longas — e permanece como destino privilegiado da folia noturna até o 25 de Abril, quando a revolução e a nova liberdade retiram, aos poucos, o fulgor ao cabaré, que passa a estar associado à prostituição e à decadência.

O músico Vitorino, de 74 anos, foi um frequentador dessas noites vorazes quando saiu do Alentejo e descobriu a capital nos anos 60. Mal ia à cama. Gostava particularmente de frequentar o cabaré do Ritz, na Rua da Glória. “Era talvez o cabaré mais barato do mundo. Custava 20 paus uma noite de ócio. Ali havia striptease, pequenos números brejeiros de revista feitos por um casal de velhotes, e havia as espanholas, que eram um must.” Vitorino, que mais tarde, nos anos 80, foi sócio do Ritz, recorda-se que lá dentro existia uma barbearia e uma florista que funcionavam toda a noite. “Chegavam da província, mal barbeados de uma longa viagem e do trabalho no campo, e preparavam-se para a conquista. Outros iam barbear-se antes de pegar ao serviço. As flores eram para oferecer às alternadeiras.” Vitorino recorda-se de personagens surreais que atuaram no Ritz, como um travesti careca que arrancava a cabeleira postiça como momento apoteótico, ou de uma stripper que tinha uma grande cicatriz de cesariana na barriga. “Eu passava a noite a observar as prostitutas. Cheguei a enamorar-me por uma e escrevi-lhe um poema que começava assim: ‘Boca fina, baton rouge, blue-jean de provocar, peito ao ritmo do descuido dos passos que dá...’” Trajado todo de branco, com boina e suspensórios creme, Vitorino mantém ainda hoje uma aura de dandy. Descreve o cabaré português como único. “Era um cabaré ingénuo, com um provincianismo rural e laivos de revista e circo.”

RITZ Entre os anos 40 e 70 teve espetáculos de cabaré, uma barbearia e uma florista toda a noite

RITZ Entre os anos 40 e 70 teve espetáculos de cabaré, uma barbearia e uma florista toda a noite

FOTO IN “LISBOA À NOITE” DE LUÍS PAVÃO

Também o músico Manuel João Vieira, líder das bandas Ena Pá 2000 e Irmãos Catita, se recorda desse ambiente felliniano que ainda existia no Ritz nos idos anos 80. Em 2006, Manuel João tentou recriar um novo cabaré português no velho Maxime, descolado do alterne. Durante cinco anos misturou concertos de artistas como Jorge Palma ou José Cid com números de burlesco para um público mais jovem e descontraído. O espaço acabou por fechar por sucessivas queixas de barulho do hotel vizinho. Agora é propriedade de um grupo hoteleiro, que terá adquirido o edifício por cerca de dois milhões de euros e que prevê a construção de um hotel de 70 quartos com abertura marcada para 2017.

MAXIME Inaugurado nos anos 40, foi um cabaré de grande gabarito em Lisboa

MAXIME Inaugurado nos anos 40, foi um cabaré de grande gabarito em Lisboa

FOTO ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA

Manuel João Vieira e os seus sócios deslocaram-se então para a zona ribeirinha do Cais do Sodré e aí abriram no ano passado o Titanic Sur Mer, um espaço de concertos que pretende também ter espetáculos de cabaré. Manuel João está obstinado nessa vontade. Devolver o cabaré a Lisboa. A prova disso foi o espetáculo “Titanic Monster Show”, que teve a sua segunda edição no passado dia 9 de julho e que misturou striptease burlesco com números de musical e variedades (acertada performance de Miss Suzie), velhas glórias do canconetismo (o cantor italiano Sandro Core foi uma agradável surpresa) e sketches de teatro do absurdo.

TITANIC SUR MER Aberto em 2015 num armazém do Cais do Sodré, quer combinar concertos ao vivo com espetáculos de cabaré

TITANIC SUR MER Aberto em 2015 num armazém do Cais do Sodré, quer combinar concertos ao vivo com espetáculos de cabaré

FOTO TIAGO MIRANDA

Manuel João chegou mesmo a atuar trajado de urso de peluche enquanto cantava com o auxílio de um cavaquinho o clássico tema de Elvis Presley ‘Love Me Tender’. Uma delícia. Mas há espaço para um novo cabaré? “Não sei. Sei que Lisboa tem uma longa tradição de cabaré e faz sentido continuá-la. Gostava de me focar na área do surrealismo, do absurdo e do inesperado.” Espera-se o melhor.