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Imunoterapia, a nova arma na batalha contra o cancro

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FOTO Ricardo Meireles

É a grande luta do século XXI. O cancro já é a primeira causa de morte em Portugal e, internacionalmente, o foco tem-se virado para novas armas de combate à sua progressão, especialmente quando os métodos convencionais não dão uma resposta eficaz

No mundo ocidental, será difícil encontrar uma pessoa que não conheça alguém que seja ou tenha sido vítima de cancro. Que tenha tentado lutar contra este, com ou sem sucesso, que tenha procurado armas de combate à sua progressão. Uns conseguem vencê-lo, com ajuda de tratamentos convencionais, outros parecem consegui-lo mas são confrontados mais tarde com a realidade da reincindência.

O cancro já é a principal causa de morte em Portugal, num contexto onde 31,7% dos portugueses morrem desta doença antes dos 65 anos, segundo avisou recentemente a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), Gabriela Sousa. É a grande luta do século XXI, que tem levado médicos e investigadores a colocar os esforços na procura de novos métodos de combate ao cancro, alternativos (ou complementares) à quimioterapia e radioterapia.

Um dos mais promissores - a imunoterapia, da qual faz parte a imuno-oncologia - procura ativar o nosso sistema imunitário na luta contra o cancro, ao contrário dos métodos convencionais que enfraquecem as defesas dos doentes, ao terem dificuldade em diferenciar as células malignas das benignas. A imuno-oncologia ajuda o nosso sistema imunitário a identificar essas células cancerígenas, identificando-as como uma ameaça e atacando-as.

“Esta é uma mudança significativa na forma como vemos os tratamentos de cancro”, diz ao “The New York Times” o médico Jedd Wolchok, diretor do serviço de melanoma e imuno-oncologia do centro de tratamento e investigação Memorial Sloan Kettering. É uma nova injeção de otimismo que os médicos e investigadores têm procurado dar aos pacientes, através de um tratamento que já tem trazido à luz do dia histórias incríveis de cancros agressivos e fatais que desaparecem ou regridem exponencialmente.

Várias pessoas, depois de terem tentado quase tudo no combate ao cancro, fazem fila para se submeterem a testes clínicos com este tipo de tratamento, numa tentativa de encontrar algo que consiga aquilo que os tratamentos anteriores não alcançaram. Apesar de promissora, a imuno-oncologia funcionou apenas numa minoria de pessoas, existindo ainda várias questões em aberto nas investigações.

Luís Barra

Substituto ou complemento dos tratamentos convencionais?

Melanomas avançados, cancro do pulmão, linfoma de Hodgkin, leucemia linfática crónica são alguns dos tipos de cancro nos quais a imuno-oncologia revelou taxas de resposta mais positivas do que os tratamentos convencionais. No entanto, esta nem sempre pode atuar como substituta destes. “A imuno-oncologia representa uma nova ferramenta extremamente importante, mas a quimioterapia pode também fucionar e tem sido a espinha dorsal dos tratamentos para o cancro do pulmão”, afirmou ao jornal norte-americano o médico Matthew Hellman, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center em Nova Iorque.

A primeira versão da imunoterapia utilizada contra o cancro, há mais de um século, teve resultados contraditórios, sem que os médicos e investigadores conseguissem entender os motivos. Atualmente, a imuno-oncologia está focada em dois tipos promissores de tratamento: células criadas em laboratório (através da qual se recolhem, multiplicam e manipulam geneticamente células do sistema imunitário do paciente, que voltam a ser injetadas neste) e inibidores de checkpoint imunológico (que bloqueiam um mecanismo, designado de checkpoint, que deixa em baixo o sistema imuntário, sendo eficazes em melanomas, linfomas Hodgkin e cancros do pulmão, rim e bexiga). Além destes, existem outras possibilidades, como a terapia com anticorpos monoclonais e as vacinas.

Apesar de terem estas ferramentas ao seu dispor, e dos estudos apontarem para efeitos promissores da imuno-oncologia, os médicos e investigadores ainda não conseguiram determinar as causas, condições e contextos favoráveis à regressão e/ou cura do cancro com este novo tratamento. Por que motivo estes tratamentos funcionam em alguns pacientes e noutros não? Devem ser utilizados como uma alternativa ou complemento aos tratamentos convencionais? Como varia isso em função do tratamento imunológico?

Segundo o “The New York Times”, vários investigadores suspeitam que os inibidores de checkpoint são mais eficazes se combinados com tratamentos que destroem células cancerígenas, já que os 'destroços' das células malignas mortas podem ajudar o sistema imunitário a identificá-las como alvo a eliminar. Mas, mesmo que isto seja verdade, levantam-se ainda questões sobre o equilíbrio certo entre as doses e timings de cada tratamento, de forma a impedir que estes tratamentos convencionais matem as células do sistema imunitário. E nem todos os doentes têm acesso a estas novas possibilidades, que podem ser proibitivas em termos de preço.