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Greve dos enfermeiros: “A profissão é maltratada apesar de tratarmos bem os outros”

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ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Enfermeiro há 13 anos, Nelson Nunes, 34 anos, é o porta-voz de um grupo de enfermeiros com contratos individuais de trabalho e horário de 40 horas semanais empenhados em unir a classe. Trabalha na unidade de cuidados intensivos do Hospital de Gaia e afirma que hoje é mais difícil exercer a profissão que elegeu. Exige-se mais por menos

No dia de mais uma greve nacional de enfermeiros — convocada para sexta-feira e que esta quinta-feira foi limitada aos distritos de Viana do Castelo, Braga, Castelo Branco, Santarém e Faro, depois do Governo ter recuado na intenção de reduzir a autonomia reconhecida a esta profissão — , um grupo de profissionais unem-se para defender a profissão e a qualidade dos cuidados à população, que dizem nem sempre ter noção das condições em que os enfermeiros trabalham no Serviço Nacional de Saúde. De Norte a Sul do país, são enfermeiros com contratos individuais de trabalho e horário de 40 horas semanais que agora se juntam para mostrar que estão ao lado dos colegas de profissão que há um mês voltaram às 35 horas.

Num documento enviado ao Expresso denunciam que há enfermeiros com 19 anos de experiência a receber o mesmo que um colega recém-licenciado, porque a sua carreira está congelada há vários anos; ou que há quem trabalhe 35 horas semanais e outros 40 para o mesmo salário, quando o serviço e o patrão são os mesmos. E não é só entre pessoas com contratos diferentes: há serviços onde os enfermeiros trabalham lado a lado, com o mesmo tipo de contrato, e cargas horárias distintas.

Por isso, garantem que vão “continuar a lutar pela criação de uma carreira devidamente estruturada que permita a todos, independentemente do seu vínculo, evoluir em função da experiência e do mérito (...), resistindo às sucessivas tentativas para fragmentarem os enfermeiros”. E deixam um aviso: “Querem-nos desmoralizados e divididos, mas unidos nos terão!”

A grande maioria dos seus colegas são enfermeiros do Estado. Trabalham 35 horas semanais ou ainda 40?
Uma boa parte tem contrato em funções públicas. Quando comecei a trabalhar, há 13 anos, quase todos os enfermeiros eram da Função Pública e fui dos primeiros contratos individuais de trabalho (CIT). Agora vai começando a notar-se que há cada vez mais enfermeiros CIT. Os colegas da Função Pública, por lei, estão todos já a trabalhar 35 horas. Voltaram a este horário, mas é preciso dizer que continuam a trabalhar como se nada se tivesse sido alterado, ficando apenas com mais horas acumuladas no banco de horas. E como não foram contratados mais profissionais, têm de continuar a trabalhar mais do que as 35 horas semanais.

No seu caso, trabalha 40 horas por semana.
Sim.

E há diferenças salariais entre os enfermeiros do Estado e os que têm um contrato individual?
Com um percurso profissional aproximado, não há uma diferença significativa na remuneração mensal. Só quem já tem um número de anos de serviço bastante superior é que tem maior distinção, porque foi contemplado em tempos. Agora está tudo congelado nas evoluções na carreira e nos aumentos salariais, como é normal.

Porque é que teve necessidade de fazer parte deste grupo em nome da união de todos os enfermeiros?
Porque há a questão importante da falta de equidade dentro da profissão, uns trabalham 35 horas e outros 40. Mas os problemas atualmente não se esgotam nesta questão, vão muito para além disso. Há uma recorrente e persistente falta de respeito e de consideração por um conjunto de pessoas, os enfermeiros, que todos os dias trabalham para o bem dos outros, numa profissão desgastante, exigente. Dia após dia, a desconsideração pelos enfermeiros está patente - e achámos que era o momento de fazermos alguma de coisa, de tentarmos demonstrar um pouco o que é a realidade da profissão, porque é maltratada apesar de tratarmos bem os outros. E tenho noção de que esta é uma questão que não passa para as pessoas. Isto é, a população não tem a real noção da forma como trabalhamos.

A população acha que a bitola do enfermeiro é como a dos médicos.
Sim, um pouco. Embora veja o médico como estando noutro patamar.

Faz greve. Mais uma entre várias sucessivas. Não receia que a população veja as greves dos enfermeiros como uma banalização?
É um risco, mas o facto de os enfermeiros e de outros profissionais da saúde terem de recorrer recorrentemente à greve — e os médicos não — tem a ver com o que cada classe consegue facilmente ou não. Quem nos dera não ter de fazer nenhuma greve, mas sentimos essa necessidade.

Esta greve será bem sucedida se permitir concretizar o quê?
A greve é sempre bem sucedida quando permite concretizar, mesmo que parcialmente, aquilo que o sindicato enunciou quando convocou a greve.

Esta greve é sobretudo pelas 35 horas para todos os enfermeiros que trabalham em unidades públicas.
Há várias questões pertinentes sobre a atualidade da enfermagem e muito há para discutir, mas esta greve é essencialmente pela equidade entre os profissionais, para que os enfermeiros com CIT também trabalhem 35 horas e para que se efetive para todos, que saia do papel. Os meus colegas que em teoria trabalham 35 horas semanais, na realidade estão a trabalhar muito mais. Há uma quantidade bastante significativa de horas que ficam acumuladas no banco, porque não foram contratados os enfermeiros necessários para colmatar os novos horários.

Preferia que as horas extra fossem pagas em dinheiro?
Não. O que a profissão quer é que sejam contratados mais enfermeiros. Acredito que é uma situação que não se resolve da noite para o dia e que o trabalho extra deve ser reconhecido. O banco de horas goza-se mediante a disponibilidade da instituição, que propõe ao profissional quando pode não ir trabalhar. O processo não parte do enfermeiro, normalmente.

No seu serviço, de que forma se reflete a falta de enfermeiros?
No número de horas a mais que todos os meses existem além do que é suposto cada profissional fazer.

E na assistência aos doentes?
Nas nossas rotinas obviamente que continuamos a dar o nosso melhor e a fazer tudo o que é possível, como não poderia deixar de ser. Mas é óbvio que os fenómenos de desconsideração do trabalho do enfermeiro poderão, a médio prazo, ter alguma implicação a este nível. Conheço ótimos profissionais que foram para outros países e situações extremas em alguns serviços, onde a sobrecarga e a falta de enfermeiros leva a situações dramáticas, tornando-se impossível dar resposta e, no limite, obrigando a fechar camas.

Há serviços mais vulneráveis do que outros?
Não. Acaba por acontecer um pouco por todos os serviços.

No seu serviço trabalha com quantos colegas?
Eu trabalho em cuidados intensivos e no turno, em média, trabalham seis enfermeiros. Mas aqui o rácio (número de enfermeiros por doente) é muito específico. Noutros serviços é diferente...

É mais difícil ser-se enfermeiro hoje do que há dez anos?
É mais difícil, sim. O desgaste já começa a ser algum e ao longo dos anos a única coisa que tem aumentado é a exigência. As condições proporcionadas aos profissionais têm piorado e a exigência aumentado.

Entrevista publicada na edição do Expresso diário de 28/07/2016