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Estudar no verão: Muito, pouco ou nada?

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Num país que tem das maiores férias escolares, a angústia com a ocupação dos filhos repete-se todos os anos. O que fazer? Arranjar muitas atividades para ocuparem o tempo? Ou dar liberdade para usarem ainda mais o telemóvel e o computador? [Artigo publicado na revista E de 16 de julho de 2016]

Faltam 61 dias para o regresso oficial às aulas. São quase nove semanas de férias. Dois meses sem horários, sem trabalhos de casa, sem ter de olhar para os livros. E se muitos adultos adorariam ter tanto tempo livre para não fazer nada, quando a questão se coloca em relação aos mais novos os termos invertem-se. É demasiado tempo. É preciso ocupá-los. Ver se os avós podem ficar com os filhos, se o amigo os pode ir buscar ao futebol ou à ginástica, levá-los para o trabalho, controlar à distância o tempo passado no sofá em frente à TV ou no quarto com o rato do computador numa mão e o telemóvel na outra. Este é o dilema vivido por muitos pais, pelo menos até à altura em que todos conseguem estar de férias ao mesmo tempo. Só que as contas não batem certo. Quem trabalha tem um mês de férias, quem estuda tem por esta altura quase três.

As férias ‘grandes’ são demasiado grandes? Os números disponíveis não fazem juízos de valor, mas indicam que Portugal é um dos países onde as aulas são interrompidas durante mais tempo: 12 a 13 semanas. Muito poucos Estados europeus iniciam o ano letivo tão tarde — normalmente, as escolas portuguesas têm até 15 de setembro para abrir, mais dia menos dia. E muitos arrastam as aulas até julho ou quase. Quem acaba mais cedo é porque tem pouco tempo para desfrutar de dias luminosos e amenos, como nos países mais a norte.

“O debate sobre a duração das férias terá um dia de ser feito. A organização do trabalho no nosso país, dificultando, por exemplo, as chamadas férias de mid-term dos pais em novembro ou fevereiro, como tantos outros países têm, leva a que as férias tenham mesmo de ser ‘grandes’. Há um rigor anacrónico dos empregadores”, lamenta o pedopsiquiatra Mário Cordeiro.

INFOGRAFIA ANA SERRA

INFOGRAFIA ANA SERRA

E lamentam os pais, que, se acreditam ser muito difícil mudar a organização do trabalho, entendem ser possível ter outra organização do calendário escolar, com as escolas a manterem-se de portas abertas durante mais tempo, como as creches que só encerram um mês. A ideia não é ter mais aulas, mas distribuir o tempo de forma mais “enriquecedora”, combinando atividades letivas com outras de carácter desportivo, lúdico, sugere Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais. “A escola seria uma espécie de supervisora das respostas, que teriam de ser preparadas com freguesias, associações, instituições da comunidade, outras escolas, com quem podiam estabelecer programas de intercâmbio entre alunos. Os do interior vinham ao litoral. Os do litoral iam conhecer o interior. Não é querer descartar os filhos. É acreditar que a escola é a instituição que melhor pode ajudar a responder às necessidades das famílias na educação dos filhos.”

Na prática, quem pode ou quem não tem outra alternativa acaba por recorrer a organizações que promovem atividades para ocupar o tempo. Nada de mal, desde que não sejam uma extensão da escola. “Explicações, manuais para férias e coisas quejandas, além de um bom negócio para quem as promove, são atividades que, na esmagadora maioria dos casos, são inúteis, maçadoras e contraproducentes. Férias são férias e, para crianças, adolescentes ou adultos, só têm efeito e eficácia se forem algo diferente do quotidiano dos restantes meses”, diz Mário Cordeiro. Não é opinião, é um facto. “O saber acerca da neurologia e da fisiologia neurológica das crianças mostra que elas aprendem em tempo de férias, mas se não estiverem a fazer ‘mais do mesmo’”, reforça.

Há especialistas em desenvolvimento da criança que vão mais longe e que dizem que em tempo de férias as crianças devem ter tempo para se sentir ‘aborrecidas’. “É crucial para que desenvolvam os seus próprios estímulos e assim desenvolver a criatividade”, declara Teresa Belton, investigadora na Universidade de East Anglia, citada pela BBC Online.

A teoria não convence Mário Cordeiro: “Estar a ‘olhar para as moscas’, aborrecidos, a maçarem os adultos ou a sentir que nada há para fazer é que os levará para os braços de atividades apelativas mas passivas, como a televisão, os computadores, as consolas, a dar cabo do seu sistema nervoso central.” Porque a tentação existe. Por parte de pais e de crianças, ainda que com motivações diferentes. Uns querem sossego, outros querem jogar ou ver mais um vídeo.

Um estudo inglês recente (“Tech and Play”) envolvendo dois mil pais de crianças até aos 5 anos concluiu que estas usavam o tablet cerca de 1h20 em média por dia. Um outro, com crianças e jovens entre os 9 e os 16 anos (“Eu Kids Online Survey”), dá conta dos sinais de dependência na utilização de smartphones (ver gráficos).

Ao consultório da pedopsiquiatra Ana Vasconcelos chegam vários casos. O que aconselha é que os pais definam uma hora do dia para os miúdos se dedicarem aos seus contactos virtuais. Mas o mais importante, diz, é “haver momentos em que estão todos juntos, pais e filhos em férias, sem relógio, sem stresse”. Podem, sugere, fazer um jogo em família. “Não podem é estar eles sempre ao telemóvel, porque perdem a legitimidade para impedir os filhos.” “Se tiverem alternativas estimulantes, ao ar livre (afinal, andam a prendê-las na escola), não vão querer saber de consolas e telemóveis”, acredita Cordeiro.

Quanto a trabalho em férias, Ana Vasconcelos não hesita: “Deve-se proporcionar um bom mês de férias. Retirá-los completamente das rotinas que marcam o tempo da escola. Mas para quem teve dificuldades durante o ano, por exemplo, não faz sentido não aproveitar os outros dois meses para trabalhar os problemas, ainda que de forma mais lúdica.”