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Lima: Quero-a só para mim

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JTB Photo

A capital do Peru não é bem uma cidade, é um país dentro de uma cidade

Ninguém cruza o Atlântico para visitar Lima. Chega-se e parte-se logo para um destino mais desejado: vai-se a Cusco, o “umbigo do mundo”, 3500 metros de altitude que não são para corações frágeis; depois apanha-se um comboio ou caminha-se durante cinco dias até Machu Picchu, o postal ilustrado que faltava na caderneta de selfies do Instagram; os amantes da literatura não dispensam um salto até Arequipa, a cidade do Nobel Vargas Llosa; os mais aventureiros talvez apanhem um avião até ao Tititaca, o lago navegável mais alto do mundo; ou para a Amazónia, para suar em bica e tentar pescar piranhas. Para milhões de turistas, a capital do Peru não é bem um destino turístico, é um trampolim para algo melhor. Não há de ser fácil ser Lima, a enjeitada.

Há quem nunca lhe dê uma oportunidade para revelar os seus segredos. Connosco também devia ter sido assim. Um dia para calcorrear a cidade e depois rumo ao que realmente interessava: Cusco, Machu Picchu, Amazónia... Mas, por causa de uma tempestade nos Andes, perdemos o voo de regresso a Portugal e demos a Lima uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão. Mais 24 horas podem parecer semanas numa cidade onde o tempo corre devagar. Sobretudo quando se está no trânsito. Com 7,5 milhões de habitantes, qualquer hora é hora de ponta. Não se avança, soluça-se.

Nelson Marques

Um dia pode mudar muita coisa. Veja-se Barranco, o distrito boémio de Lima. Chegámos lá quase por acaso. Tínhamos ouvido falar de uma varanda para o Pacífico, com casas equilibradas nos penhascos e antigas mansões de veraneio em estilo Arte Nova e Art Déco. Mas lá não encontrámos nenhum vestígio do SoHo limenho de que nos falavam, cheio de galerias, bares e restaurantes, por vezes tudo no mesmo espaço. Só ruas lúgubres e tristes, fachadas sujas de graffiti, lojas envelhecidas, uma ode à monotonia arquitetónica. Até o mar era cinzento, debaixo daquele manto branco a que os locais chamam garúa. Num parque junto ao mar encontrámos um sinal: “Barranco, um bom lugar para o amor”. Pode alguém apaixonar-se num sítio assim?

Bastou o sol. Quando ele surgiu, as moradias vestiram cores mais garridas, os graffiti ganharam vida, as árvores tornaram-se frondosas e as pessoas mais bonitas, devolvendo-nos sorrisos a cada olhar, como na canção do Palma. Ou talvez nos tivéssemos deixado enfeitiçar pelas musas do fotógrafo mais ilustre da cidade, nas paredes do Museu Mario Testino. Na Ponte dos Suspiros, caminhámos 44 metros sem respirar para poder pedir um desejo. E o que desejámos foi sentar-nos a comer ceviche e outros petiscos no Canta Rana, famoso huarique (tasca peruana) de Barranco, obra de um argentino apaixonado por futebol. Deixámo-nos perder em Barranco e acabámos perdidos por ele.

EFE/MATE

O bairro é um bom ponto de partida para descobrir aquela a que um dia chamaram “Rainha do Pacífico”. Lima é mestiça como a cultura do Peru. Não é bem uma cidade, mas uma matrioska que esconde várias cidades dentro dela: a Lima das ruínas milenares, a dos edifícios coloniais em torno da praça central, a dos modernos distritos residenciais, a das avenidas cosmopolitas ladeadas por centros comerciais e casinos, a da comida de rua e dos restaurantes vibrantes que reinventam os sabores peruanos, como o premiado Astrid & Gaston.

A capital do Peru não nos arrebata no primeiro impulso, como o tango argentino. Nem as suas mulheres são tão bonitas como as colombianas. Mas, se lhe der uma oportunidade, talvez acabe rendido como Jorge Luis Borges, que correu o mundo dizendo que a sua Buenos Aires era uma cidade horrível. “Temi que se enchesse de turistas. Queria-a só para mim.”

POSTAL

O umbigo do mundo


Quando se aterra, o ar foge-nos dos pulmões: a vida não é fácil a 3500 metros de altitude. Situada no coração dos Andes, Cusco é paragem obrigatória no Vale Sagrado dos Incas antes de se chegar a Machu Picchu. Invadida e saqueada pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro após o fim do Império Inca, em 1532, a capital histórica do Peru conserva vestígios dessa época dourada, como o muro do antigo palácio inca ou o Templo do Sol. Depois de explorar o labirinto de edifícios baixos e ruelas empedradas, vale a pena parar na Praça de Armas, com a sua imponente catedral. Antes de prosseguir viagem, a pé ou de comboio, até Machu Picchu, espreite o mastodôntico complexo de Sacsayhuamán, a cerca de dois quilómetros de Cusco.