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ATLAS, o maior estudo de sempre dos ecossistemas do Atlântico profundo

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PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images

Portugal, através do arquipélago dos Açores, participa no megaprojeto europeu, que envolve também os EUA e o Canadá e vai realizar pelo menos 25 expedições oceânicas nos próximos quatro anos

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Aumentar o conhecimento da complexidade dos ecossistemas no fundo do oceano Atlântico e prever as suas mudanças e vulnerabilidades é o objetivo do megaprojeto europeu ATLAS, que vai durar quatro anos. A iniciativa pretende também desenvolver atividades de divulgação — “Literacia Oceânica” — para melhorar o conhecimento do público sobre a importância dos ecossistemas do mar, a sua proteção e o impacto que a atividade humana está a ter no ambiente marinho.

Os números do ATLAS falam por si: pelo menos 25 expedições no Atlântico Norte, 12 universidades envolvidas, participação de dez países da UE incluindo Portugal, mais os EUA e o Canadá, e um orçamento de nove milhões de euros. É a maior e mais ambiciosa avaliação de sempre dos ecossistemas do fundo do oceano Atlântico financiada pela Comissão Europeia através do Horizonte 2020, o programa de apoio à ciência, tecnologia e inovação da UE até ao final da década.

“O Atlântico Norte foi o local onde nasceu a biologia dos fundos marinhos e a oceanografia”, recorda Murray Roberts, coordenador do ATLAS, investigador e professor de biologia marinha na Universidade de Heriot-Watt em Edimburgo, no Reino Unido. “Por isso é o local que devemos conhecer melhor, mas só nos últimos 20 anos descobrimos como os habitats do Atlântico profundo são realmente diversificados e vulneráveis.”

A expedição inicial já se realizou em junho no Banco Rockall, ao largo da Irlanda, mas as primeiras expedições verdadeiramente transatlânticas serão entre os Açores e Gibraltar e entre os Açores e os EUA. A viagem de estudo entre Gibraltar e o arquipélago português começa em setembro e vai durar dois meses de trabalho no mar, sendo feita num navio oceanográfico espanhol. Portugal participará mais tarde noutras expedições com o navio “Arquipélago” da região autónoma dos Açores.

Lançado recentemente em Edimburgo, na Escócia, o ATLAS tem 24 parceiros, incluindo dois portugueses: o polo dos Açores do MARE — Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, e a direção regional dos Assuntos do Mar do governo regional do arquipélago. O projeto vai explorar técnicas moleculares inovadoras como a sequenciação do chamado ADN ambiental, de modo a procurar amostras de água e de sedimentos de espécies conhecidas e desconhecidas do mar profundo.

O ADN ambiental é recolhido de uma grande variedade de amostras ambientais como o solo, água do mar, ar, fezes, mucos, gâmetas (células sexuais), pele, carcaças de animais ou pelos. Estas amostras podem ser analisadas por métodos de sequenciação de elevado desempenho destinados a medir e monitorizar rapidamente a biodiversidade dos ecossistemas. A análise destas amostras chama-se metagenómica.

Ecossistemas diversificados mas vulneráveis

Um dos principais objetivos do ATLAS é desenvolver uma base de conhecimento científico que possa sustentar o desenvolvimento de políticas internacionais adequadas para assegurar que os recursos naturais do fundo do Atlântico são efetivamente geridos. Este objetivo vai ao encontro da estratégia de longo prazo da Comissão Europeia (CE) para o Crescimento Azul, que aposta no crescimento sustentável do setor marítimo a nível global. A CE considera que os oceanos são essenciais para a economia europeia e têm um grande potencial para a inovação e o crescimento. Com efeito, a economia azul já representa na Europa cerca de 5,4 milhões de empregos e gera um valor acrescentado bruto (VAB) de 500 mil milhões de euros por ano — o equivalente a três vezes o PIB português. O VAB é o valor dos bens e serviços produzidos numa determinada região, indústria ou sector da economia.

O diretor regional dos Assuntos do Mar do governo regional dos Açores, Filipe Porteiro, afirma ao Expresso que “as equipas de investigação da Universidade dos Açores ligadas à oceanografia têm vindo a assumir desde há décadas um lugar de destaque a nível internacional, com a publicação de artigos científicos sobre montes submarinos, habitats de corais de águas frias (águas de profundidade), campos hidrotermais e a respetiva biologia e ecologia”. Filipe Porteiro sublinha que estas equipas “ocupam o top 10 mundial das publicações científicas” na sua área de investigação, o que significa que “têm competência reconhecida” que lhes permite participar em grandes projetos como o ATLAS.

“O que nos interessa no acompanhamento deste projeto europeu como parceiros é a informação produzida e os resultados que possam reverter para o apoio às políticas regionais dos Açores relacionadas com a gestão dos recursos naturais”, explica o dirigente regional. “Ou seja, vamos ser utilizadores da informação produzida pelo projeto e beneficiar da transferência de conhecimento para o processo de decisão política nos assuntos do mar.”

Telmo Morato, investigador do polo do centro de investigação MARE nos Açores, salienta que o grupo de investigação do mar profundo a que pertence, que vai participar no ATLAS, “é o mais conceituado a nível nacional e um dos mais conceituados a nível internacional”. Por outro lado, o governo regional está envolvido no projeto “por se ter destacado no passado no estudo e na proteção do mar profundo”. Além de aumentar o conhecimento da biodiversidade do fundo do Atlântico Norte, o ATLAS “pretende saber mais sobre o sistema de correntes marítimas e sobre a forma como se poderão comportar no futuro com as alterações climáticas, tal como a biodiversidade e a biogeografia”.

Pôr em prática tratado entre a UE, EUA e Canadá

Há também uma inovação que o projeto pretende introduzir: a gestão espacial. “Até agora tem sido pouco usada, à exceção das áreas marinhas protegidas, mas está consagrada na Diretiva Quadro da Estratégia Marinha da UE”, reconhece Telmo Morato. A gestão espacial consiste “em definir no espaço os usos que o mar tem e o seu valor ambiental, tal como se faz em terra com a gestão do território, mas a verdade é que não tem existido na mineração, nas pescas ou na navegação, áreas com potencial de conflito face à necessidade de preservar os ecossistemas”. Por isso mesmo o ATLAS “quer contribuir para uma economia azul sustentável”.

O projeto é também “o primeiro que quer pôr em prática no oceano profundo o Tratado de Galway, um tratado na área da investigação e observação oceânica assinado a 24 de maio de 2013 na cidade de Galway (Irlanda) pela UE, EUA e Canadá”, destaca Filipe Porteiro. Chama-se mais precisamente “Declaração de Galway sobre a cooperação no oceano Atlântico” e o seu objetivo é compreender melhor o Atlântico e promover a gestão sustentável dos seus recursos, bem como estudar a sua interação com o oceano Ártico, em especial no que diz respeito às alterações climáticas.

Com este tratado a UE, os EUA e o Canadá pretendem unir esforços na observação oceânica; na partilha de dados relacionados especialmente com a temperatura, salinidade e acidez do mar; na coordenação das infraestruturas de observação, designadamente navios oceanográficos e boias de medição; na gestão sustentável dos recursos oceânicos; na cartografia do fundo do mar e dos seus habitats; e na promoção da mobilidade dos seus cientistas.