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Um mergulho a mil metros de profundidade

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Nas profundezas do mar dos Açores há paisagens submersas e uma riqueza de espécies que só recentemente os investigadores começaram a desvendar. O secretário regional do Mar dos Açores mergulhou a mil metros de profundidade e conta ao Expresso o que viu e qual a sua importância

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

“A principal forma de ter soberania sobre a nossa zona económica exclusiva é ter conhecimento. Só conhecendo o que existe no nosso mar o podemos proteger. E só sabendo o que é mais vulnerável podemos saber o que podemos explorar” - a afirmação é de Fausto Brito e Abreu, secretário regional do Mar, Ciência e Tecnologia dos Açores que, na passada semana, desceu até mil metros de profundidade para observar as riquezas das profundezas marinhas, a 3,5 milhas da ilha do Pico.

Para observar o que existe nas profundezas do oceano, o governante regional e também biólogo de formação, entrou no submarino “LULA 1000” da Fundação Rebikoff-Niggeler, um dos dez dez veículos tripulados do género existentes a nível mundial.

A organização não governamental, com sede nos Açores desde 1994, tem um protocolo com o Governo açoreano para 20 horas de estudos oceanográficos por ano. E Brito e Abreu aproveitou a boleia para experimentar um dos mergulhos profundos.

O secretário de Estado Regional Fausto Brito e Abreu e a tripulante do LULA 1000, Kristen

O secretário de Estado Regional Fausto Brito e Abreu e a tripulante do LULA 1000, Kristen

A descida até aos mil metros debaixo de água levou cerca de meia hora. Fausto Brito e Abreu, que está habituado a mergulhar de escafandro até no máximo 40 metros, confessa que foi “uma excitação”. Durante quatro horas, acompanhado por dois tripulantes, pôde observar com os próprios olhos como “o mar profundo dos Açores tem uma enorme diversidade de espécies e de ecossistemas e até maior riqueza que a que encontramos na zona costeira”.

Através da janela do submarino, com 1,4 metros de diâmetro, observou paredes de lava transformadas em rocha e paredes de esponjas marinhas assim como corais vivos e corais mortos e uma variedade de espécies da fauna marinha das profundezas. “Vi peixes com camarões na boca, águas vivas, peixes fluorescentes e organismos que vivem em habitats de fontes hidrotermais, onde num espaço de 10 metros a temperatura das águas pode variar de 10 para 100 graus”, conta.

As imagens captadas são georeferenciadas, o que permite um portfólio formidável da vida marinha destas profundezas. E “o mapeamento das espécies e habitats existentes nos fundos oceânicos é essencial para conhecermos as potencialidades e os serviços que os ecossistemas marinhos nos proporcionam”, reforça Brito e Abreu.

O “LULA 1000” tem sido utilizado para expedições científicas de investigadores dos institutos IMAR e Okeanos da Universidade dos Açores, assim como para promover o arquipélago através de documentários feitos por canais de televião como a BBC ou a National Geographic.

O facto de possuir equipamento optimizado para captar imagens de alta resolução e de o seu braço robótico permitir recolher amostras para investigação científica, torna este submersível um instrumento muito útil para a observação local das profundezas do oceano. Um dos documentários, “Life at the extreme - Deep Azores”, com imagens captadas neste submersível “teve grande sucesso no Reino Unido”, lembra o governante, sublinhando também a importância que estas descobertas e os filmes têm para o turismo regional.