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Hospital de São José falhou no socorro a jovem com aneurisma fatal

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paulo vaz henriques

Entidade Reguladora da Saúde conclui que a assistência prestada a David Duarte, 29 anos, não foi adequada. O jovem foi vítima de uma hemorragia cerebral e acabou por morrer à espera de operação por falta de equipa de neurorradiologia ao fim de semana

Os peritos da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) são taxativos: David Duarte, o jovem de 29 anos que no final do ano passado morreu no Hospital de São José, em Lisboa, não teve o socorro de que necessitava. No relatório sobre a morte a 14 de dezembro de 2015, divulgado esta quinta-feira, o regulador descreve várias falhas nos procedimentos da unidade hospitalar e que agora tem de "dar cumprimento imediato à presente instrução, bem como dar conhecimento à ERS, no prazo máximo de 30 dias úteis após a notificação, dos procedimentos adotados para o efeito".

Ao todo, são seis as recomendações feitas pela ERS. Por outras palavras, meia dúzia as falhas graves detetadas e que carecem de correção sem demora. Na urgência não estava garantido, "a todo o momento, que aqueles que são aptos a assegurar de forma permanente e efetiva o acesso aos cuidados de saúde necessários e adequados à satisfação das necessidades dos utentes, e em tempo útil, independentemente de se tratar de prestação de cuidados de saúde no decorrer do normal funcionamento do serviço, como, em especial, no decurso de fins de semana e feriados".

Ainda ao nível da organização, funcionaram mal "os procedimentos de organização e funcionamento em conformidade com o prescrito com as regras e orientações a cada momento aplicáveis em matéria de cuidados hospitalares urgentes e/ou emergentes, em geral, e em especial no que toca a realização de cirurgia emergente/urgente no doente neurovascular".

As formas de divulgação das orientações não foram tidas como sendo "claras e precisas", assim como os procedimentos não foram "corretamente seguidos e respeitados por todos profissionais de saúde envolvidos". A transferência de doentes é um dos exemplos. Segundo a ERS, o hospital não possui um mecanismo "apto a poder informar, de forma imediata, a ARSLVT, o INEM e os restantes estabelecimentos da Rede de Serviços de Urgência das áreas contíguas, toda e qualquer situação de quebra de capacidade para a resolução de situações urgente e emergentes".

A falha é notória sobretudo "no que toca ao serviço de neurologia, neurocirurgia e/ou neurorradiologia" e tendente a criar "situações de dificuldades acrescidas ou anormais na prestação de cuidados hospitalares urgentes e/ou emergentes". Por isso, é recomendada "a adoção atempada de medidas adequadas, incluindo o redireccionamento de utentes, para fazer face a uma tal quebra de continuidade de prestação de cuidados de saúde".

O Hospital de São José, integrado no Centro Hospitalar de Lisboa Central, tem uma urgência polivalente, no entanto, apresentava constrangimentos na resposta, no caso na "realização de cirurgia em situação de rotura de aneurisma cerebral, por falta de recursos humanos especializados, essenciais à sua realização". Terá sido o caso de David Duarte no fim de semana em que foi internado após transferência do Hospital de Santarém por falta de resposta adequada.

A ERS conclui que as equipas de São José não atuaram corretamente perante a ausência de neurradiologistas para operar o jovem de 29 anos. Como tal, quer agora que fique garantido que o hospital "nas situações em que constata não possuir capacidade para a prestação de cuidados de saúde (...) deve assegurar que os utentes sejam encaminhados para unidade hospitalar que garanta a prestação dos cuidados necessários". E caso "se verifique a impossibilidade, clinicamente fundamentada, de proceder à transferência ou encaminhamento de utentes, deve possuir mecanismos que permitam garantir a prestação de cuidados de saúde em situação de life saving".

Pedida intervenção da Ordem dos Médicos

O regulador deixa ainda várias advertências e recomendações à Administração Regional de Saúde de Lisboa e pede a intervenção da Ordem dos Médicos (OM). O objetivo é que a OM afira "da existência ou não de fundamentação clínica para as decisões adotadas pelo Centro Hospitalar de Lisboa Central no caso concreto em análise, solicitando-se que logo que possível seja dado conhecimento à ERS das conclusões que venham a ser apuradas".

David Duarte morreu a 14 de dezembro de 2015 na sequência de uma aneurisma roto. A cirurgia para tentar minimizar os danos infligidos pela hemorragia deveria ter decorrido às primeiras horas dessa segunda-feira, mas o jovem, de 29 anos, não resistiu à espera pela equipa, ausente durante o fim de semana.

  • Carta da namorada do jovem que morreu por falta de médico ao fim de semana

    David Duarte, 29 anos, perdeu a vida na madrugada de 13 para 14 de dezembro (de domingo para segunda-feira) no Hospital de São José, em Lisboa, porque a equipa médica que o poderia salvar recusa trabalhar ao fim de semana pelo valor que o Estado paga. A namorada de David Duarte, Elodie Almeida, de 25 anos, estava com ele quando surgiram os primeiros sinais. Colocou em palavras escritas aquilo que não conseguiu contar ao Expresso de viva voz. É um testemunho raro