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Ainda é possível mudar o mundo

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Demin.Lefilm.com

Há quem não tenha desistido de travar a sexta extinção das espécies. E está viva a crença de que ainda nos podemos salvar. Isto é sobre o amanhã - todos os amanhãs

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

A maioria dos filmes sobre as ameaças que pairam sobre a Terra opta por retratar os cataclismos que conduzem ao fim do mundo a partir da intervenção de homens, zombies ou extraterrestres. “Amanhã”, o documentário que estreia esta quinta-feira nas salas portuguesas, optou por olhar de outra forma para a “corrente sexta extinção das espécies” e pegou em projetos reais construtivos que permitem um novo olhar sobre o mundo e um futuro mais sustentável para o Planeta.

Parece-lhe que é mais um filme verde, ingénuo, sem interesse, chato? Uma resposta possível: já foi visto por mais de um milhão de pessoas só em França, passou em salas de cinema de mais de 30 países e tornou-se um fenómeno social.

De Totnes, no Reino Unido, a São Francisco, nos EUA, passando por aldeias francesas e indianas e por cidades escandinavas – num total de 10 países -, o documentário mostra que “há alternativas possíveis”, já que, como diz o ativista e correalizador deste filme Cyril Dyon, em entrevista ao Expresso (a atriz Mélanie Laurent assina a outra metade da correalização), “não é realista pensar que podemos continuar a funcionar como funcionamos”. E sustenta que essas alternativas já existem no presente, “demonstrando que não se trata de uma utopia” - e aquilo que parece uma utopia já está em funcionamento.

Quiserem fazer este filme para lançar o desejo de mudar o mundo? Como é que tudo começou e o que conseguiram?
Comecei a escrever o projeto para este filme há cinco anos, quando estava à frente da organização não governamental Colibri. Há muitos anos que tentamos explicar o que vai mal no mundo, mas ninguém contava como o futuro pode vir a ser. Encontrei a Mélanie em 2011, numa campanha da Colibri, tornámo-nos amigos e ela entusiasmou-se com o projeto. Levei-a à quinta de permacultura (forma sistémica de produzir seguindo os princípios básicos da natureza, integrando plantas, animais, construções e pessoas), na Normandia, que vemos no filme. Descobri estudos da revista Nature que explicavam que se continuássemos a agir como até aqui, parte da humanidade poderá desaparecer até ao final do século. Ambos temos filhos e pensámos que tínhamos de fazer algo. Juntámos uma pequena equipa e viajámos pelo mundo em busca de soluções alternativas.

O Cyril tem dito que queria fazer um documentário que mostrasse bons exemplos de como mudar o futuro. Um dos interlocutores do filme, o inglês Rob Hopkins, ironiza a dada altura dizendo que é habitual fazerem-se filmes sobre a destruição do planeta por zombies ou aliens, mas não filmes sobre como reconstruir a humanidade e pensar na construção de um futuro de forma mais positiva...
Sim, esse é um dos principais objetivos do filme. Também adorámos o livro da escritora Nancy Huston, “L’espece fabulatrice”, que essencialmente diz que a principal atividade do ser humano é contar histórias e elaborar ficções. Passámos muito tempo a fazer histórias apocalípticas sobre o futuro e queríamos elaborar outro tipo de história, mais poderosa do que simplesmente explicar o que corre mal no mundo.

Usam histórias reais contadas na primeira pessoa. Esta é a melhor forma de chegar às pessoas?
No início também me questionei sobre o que seria melhor, se fazer uma ficção ou um documentário. Mas para um primeiro filme era importante que a história se baseasse em projetos concretos já em funcionamento e não em pura imaginação. O próximo filme será de ficção.

Como chegaram àquelas pessoas e àquelas histórias concretas?
Já conhecia algumas delas sendo um ativista há nove anos, ou conhecia pessoas que as conheciam. Foi fácil chegar até elas.

E depois do filme chegar às salas de cinema, as histórias multiplicaram-se?
Tive de selecionar estas histórias de entre milhares delas e desde que o filme estreou recebemos muitas outras história. Criámos um website (pode vê-lo AQUI) onde convidámos as pessoas a contar o que fizeram nas suas vidas desde então. Cerca de 300 pessoas já o fizeram e contam-nos os seus projetos: umas criaram jardins de permacultura, outras avançaram com a criação de moedas locais para trocas na comunidade. Há pessoas a mudar de emprego e pessoas a tornarem-se vegetarianas. O filme deu-lhes coragem para mudarem.

O filme está dividido em cinco partes: agricultura, energia, economia, democracia e educação. Mostrar a interligação entre estas áreas foi um dos vossos objetivos?
Sim. O objetivo era demonstrar como tudo está interligado e não se resolve um problema sem mexer em todo o sistema. É isso que procuramos passar quando dizemos que é necessária maior biodiversidade no mundo e que devemos ser inspirados pelos ecossistemas. Neste momento temos uma sociedade organizada como uma indústria com uma cadeia de comando. O que tentamos mostrar como visão para o futuro é um mundo mais orgânico, em rede, e como nós humanos somos interdependentes entre nós e em relação aos ecossistemas onde vivemos. É uma forma holística de apresentar esta visão do futuro.

Entre os exemplos registados neste documentário, mostram comunidades que ganharam maior poder de intervenção a nível local, criando moeda para trocas comerciais locais, ou criando hortas comunitárias para alimentar a população local. Podem ser vistos como utópicos quando pensam ser possível estendê-los a uma escala global. Quer transformar a utopia em realidade?
(ri-se) Não é utopia, porque já está a funcionar. O que não é realista é pensar que podemos continuar a funcionar como funcionamos. Pensar que a indústria agrícola vai alimentar o mundo no futuro, isso é que não é realista. Temos um perito da ONU, Olivier Schütter, a falar nisso no filme. Sabemos que não podemos continuar a destruir a floresta, a destruir o solo ou a usar químicos e petróleo na agricultura porque isso vai afetar e piorar as alterações climáticas. Então precisamos de encontrar outra solução. Não temos outras escolha, mesmo pensando que a temos. Vários estudos demonstram como a permacultura e a agroecologia são verdadeiramente eficientes e que podemos produzir muito para alimentar todo o mundo sem químicos e ao mesmo tempo restaurar ecossistemas. E os exemplos são vários, como vemos no filme. Em São Francisco, nos EUA, uma cidade de quatro milhões de habitantes conseguiu atingir o objetivo de ter zero desperdício, reutilizando, reciclando ou enviando o lixo produzido na cidade para compostagem. Porque não o podemos fazer em Paris, em Lisboa ou noutra parte do mundo? Podemos fazê-lo. Basta decidirmos.

Uma das questões que levantam no documentário diz respeito à Grécia. Passam a ideia de que a criação de dívida é uma forma de fazer dinheiro e que se a Grécia tivesse uma moeda própria, além do euro, poderia ter enfrentado melhor a crise que atravessa...
No filme ninguém defende que devíamos livrar-nos do euro, mas que devíamos usá-lo só para trocas internacionais e não para as trocas comerciais do dia a dia, para comprar pão ou azeite. O que se defende no filme é que podemos ter uma moeda europeia, uma moeda nacional e uma moeda local ou uma moeda específica para determinadas transações. E assim criaremos diversidade no sistema monetário e no ecossistema. Se, por exemplo, a Grécia tivesse uma moeda que só pudesse ser usada na Grécia, este dinheiro não sairia do país. E esse é o problema atual. Temos estudos que dizem que ao emprestarmos dinheiro à Grécia este dinheiro apenas serve para pagar todos os juros dos empréstimos anteriores. Isso é uma loucura. Temos de devolver o poder económico às pessoas.

E está otimista quanto a essa possibilidade, tendo em conta o poder da banca?
Não estou nem otimista nem pessimista, apenas sei que os seres humanos são capazes do melhor e do pior. E queremos mostrar o melhor e transmitir entusiasmo para que mudem. E eu tento fazer o melhor que sei todos os dias e espero que resulte.

A estreia do filme decorreu durante a cimeira do clima em Paris (COP 21), em novembro de 2015. Que reações tiveram?
Tivemos boas reações, quer na COP 21, quer na sede da ONU, em Nova Iorque, e em Genebra. Durante a exibição na ONU, perante 600 pessoas na sala e 15 embaixadores, houve quem dissesse que este filme devia fazer parte do treino de todos os líderes políticos pelo mundo. Tivemos uma reação fantástica da Segoléne Royal e de Laurent Fabius (ministros do Ambiente e dos Negócios Estrangeiros franceses) e de muita gente responsável de comunidades regionais e locais que assumiram que há muito para fazer.

A ministra belga do Ambiente decidiu comprar cópias do DVD e distribuí-las pelas escolas secundárias na Bélgica. O que pensa desta iniciativa? Devia ser replicada em França ou em Portugal?
(ri-se) Sim, seria fantástico. Está atualmente a correr uma petição em França, já assinada por 50 mil pessoas, a apelar ao ministro da Educação para incluir este filme no programa escolar a partir do próximo ano. Queremos que “Amanhã” seja um instrumento o mais útil possível.

Recorreram a crowdfounding para fazer o filme?
O crowdfound reuniu quase 500 mil euros e o filme custou cerca de 1,3 milhões de euros. Como não tínhamos conseguido reunir o dinheiro necessário juntos das entidades habituais, perguntámos às pessoas se achavam que o filme devia existir e se estavam dispostos a doar 5 ou 10 euros. Ao fim de dois meses conseguimos reunir 450 mil euros através do site “kiss kiss bank bank”. Foi um recorde.

Disse então que se tudo corresse bem, usaria os lucros para fazer um novo filme. Falou há pouco que está a preparar um de ficção. É sobre o quê?
Estou a escrever um filme de ficção sobre como seria termos um novo tipo de revolução nos próximos 20 anos. Quero trabalhar com Srdja Popovic, o tipo que liderou o movimento Otpor que derrubou Milosevic na ex-Jugoslávia e que agora funciona como uma espécie de consultor em revoluções. Gente de todo o mundo procura-o para saber como fazer uma revolução de forma não violenta. E gostaria de saber como seria em França. Sabemos quais as soluções, agora temos de saber como é que as pessoas se podem juntar para mudar a forma como a democracia funciona e usar outra solução para mudar o mundo.

Muitas das músicas da banda sonora foram escritas de propósito para o filme “Amanhã” pela compositora suíça Fredrika Stahl...
Foi um trabalho conjunto de canções compostas por ela para o filme e outras que lhe pedi diretamente para algumas sequências em particular. E foi mágico porque ela entendeu muito bem o filme.

Há um paradoxo numa das músicas escolhidas, com letra de Leonard Cohen e a voz de Rufus Wanright: “Everybody knows the good guys lost” e “Everybody knows that the boat is leaking”, tendo como pano de fundo os líderes políticos mundiais. Vão os “bons rapazes perder”?
Sabemos como os políticos e o poder funcionam no mundo. Há outra parte da letra que diz “The poor stay poor, the rich get rich / That’s how it goes/Everybody knows”. É uma visão pessimista da forma como as coisas funcionam agora. O capítulo da democracia neste filme é para mim o mais importante. A forma como vamos tomar decisões em conjunto e organizar-nos será um dos principais desafios dos próximos anos.

(Artigo publicado na edição do Expresso Diário de 20/07/2016)