Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Porque terá este C-130 saído da pista à descolagem?

  • 333

Base Aérea do Montijo. Duas horas depois do acidente ainda decorriam as operações de socorro

Tiago Miranda

Eis a pergunta a que o inquérito ao grave acidente que provocou a morte a três militares deixando um quarto gravemente ferido, terá de responder. Uma semana depois o Presidente da República visitará a Base Aérea n.º 6, no Montijo, e voará num Hércules da Esquadra 501

Carlos Abreu

(texto)

Jornalista

Luísa Meireles

Luísa Meireles

(texto)

Redatora Principal

Tiago Miranda

Tiago Miranda

(foto)

Fotojornalista

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

(infografia)

Infográfico

Há dias assim. Feitos de festa e drama. De alegria e morte. A última segunda-feira, dia 11 de julho, foi um desses dias. Enquanto em Lisboa milhares de pessoas comemoravam efusivamente a vitória no Campeonato da Europa de Futebol, uma tripulação da esquadra 501, que opera os C-130, cumpria mais uma missão de qualificação de um capitão como comandante de voo que acabou em tragédia. Foi o primeiro com vítimas mortais na história desta classe de aeronaves ao serviço da Força Aérea Portuguesa desde 1973.

“Toca e anda”. Assim se chama o exercício que consiste em aterrar uma aeronave para logo de seguida iniciar os procedimentos de descolagem. Era o que se preparavam para fazer os sete tripulantes a bordo de um C-130 na Base Aérea do Montijo, casa dos “Bisontes” tal como são conhecidos os militares da “501”, a mais internacional das esquadras da Força Aérea Portuguesa, que e conta mais de 70 mil horas de voo por todo o mundo.

Segundo o Expresso apurou junto de fonte conhecedora da investigação, quando o C-130 iniciou a corrida de descolagem, começou a dirigir-se para a esquerda e, em dado momento, alterou a trajetória sem que as rodas tenham saído do alcatrão, guinando à direita, até ficar imobilizado, fora da pista e incendiar-se. Os meios de socorro acudiram de imediato, mas as chamas eram de extrema violência e demoraram a ser extintas. Os destroços só foram retirados do local no dia seguinte.

Três militares perderam a vida e um quarto ficou gravemente ferido e permanece internado no Hospital de São José (Lisboa). Os outros tiveram alta logo no dia seguinte. As três vítimas mortais são o tenente-coronel-piloto-aviador, Fernando Castro; o capitão piloto-aviador André Saramago, que estava a ser treinado e o sargento-ajudante Amândio Novais, o ‘load master’ da tripulação, isto é, o principal responsável pelo compartimento de carga do avião que na altura do acidente ocupava o lugar do ‘fligh engineer’, no cockpit, entre os pilotos.

Depois de ter sido noticiado que o capitão Saramago e o sargento-ajudante Novais teriam perdido a vida a tentar salvar o tenente-coronel, a Força Aérea garantiu, porém, que “os quatro militares que conseguiram sair da aeronave fizeram-no pelos seus próprios meios, não tendo, em qualquer momento, regressado ao avião. Foi posteriormente confirmada a presença das três vítimas mortais no interior da aeronave.”

O que poderá explicar o desvio do aparelho em relação ao eixo longitudinal da pista – falha técnica ou humana – que entre outras missões esteve ao serviço da missão das Nações Unidas, no Mali, em 2014 e 2015, é para já um mistério que o inquérito conduzido pela Comissão Central de Investigação da Força Aérea terá de desvendar.

Modernização mais urgente

O acidente torna a modernização dos C-130, que já foi lançada este ano pelo ministro da Defesa, Azeredo Lopes, ainda mais urgente. Devido à nova regulamentação da UE, estes aviões de transporte estratégico ficaram desatualizados e impedidos de usar as rotas comuns sobre a Europa, com tráfego aéreo intenso, por não possuírem sistema anticolisão. Para ir de Lisboa ao Báltico, por exemplo, os aparelhos têm de voar em rotas alternativas, roçando o Ártico. Em 2015, dos seis aviões que Portugal tem, só estiveram prontos para descolar, em média, um a dois aparelhos, em parte por falta de dinheiro para manutenção.

Portugal já tinha decidido alienar um e modernizar os sistemas de comunicação, navegação aérea e vigilância (requisitos de segurança de voo) dos restantes. Devido ao acidente, a FAP terá de repensar se mantém a alienação de um dos aviões. No total, a modernização, faseada, custará 29 milhões de euros e demorará oito anos, garantindo a operacionalidade da frota até 2030. Até lá, haverá tempo para o Governo decidir a sua substituição por outros aparelhos, sejam os brasileiros KC-390 da Embraer (onde participa a engenharia portuguesa) ou quaisquer outros.

Artigo publicado na edição impressa do Expresso de 16 de julho