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Pequim: Pelos bairros adentro

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Foto 1

josé fernandes

Desbravar as ruas dos bairros tradicionais é um retrato cru do dia a dia da capital chinesa

Ruas estreitas, bicicletas a buzinar, o sol bem alto, dumplings feitos no momento e cozidos a vapor, e a sensação de que é uma hora da tarde quando na verdade ainda não passa das dez da manhã. Eis a experiência de quem aterra em Pequim logo pela manhã desejando sentir-se chinês na capital chinesa. Um dia só não dá para ver muito, até porque o que parece perto é na verdade longe, mas vale a pena começar por um dos antigos bairros — chamados hutongs — compostos por dezenas de ruas, num emaranhado de curvas e contracurvas, que nos dão um retrato cru de como vivem milhares de chineses na cidade.

E se é para se sentir chinês, há que começar por um pequeno-almoço de dumplings ou noodles vendidos na rua (foto 2). Passadas algumas horas, logo no primeiro dia, a nossa conceção de refeições diluiu-se — come-se tudo a todas as horas. Uma sugestão é sair na estação de metro de Qianmen — mesmo no meio da cidade, perto da Praça de Tiananmen e da Cidade Proibida — e seguir na direção da rua Dashilan e Yangmeizhu (foto 1). A certa altura irá perceber que já não há só restaurantes e lojas, mas cabeleireiros e esteticistas, mercearias e oficinas para bicicletas, garagens para riquexós que já não andam, drogarias e mesas montadas na rua para os jogos de tabuleiro do final da tarde. Eis um bairro chinês.

Em alguns hutongs, as únicas casas de banho existentes são públicas, espalhadas ao longo das ruas e, por isso, não é raro ver pessoas de pijama e chinelos fora de casa. Para uma experiência mais moderna (e turística) de um hutong, há o Nanluoguxiang, construído na Dinastia Yuan (1261-1378), repleto de lojas e longe do lado mais tradicional de outros bairros. Ali perto, vale a pena experimentar uma taça de “cool noodles”, um prato simples com noodles frios, molho agridoce com óleo de sésamo, palitos de pepino e alho picado, que fica por vezes a €1,5. Provar os vários pratos da comida chinesa é, só por si, uma experiência.

Foto 2

Foto 2

josé fernandes

Depois de passar pelas visitas obrigatórias — que são, em muitos pormenores, impressionantes — como a Praça de Tiananmen, a Cidade Proibida ou o Templo do Céu, vale a pena pagar dois yuans (€0,27) para entrar no Jingshan Park mesmo antes do por do sol. Há quem aproveite para fazer caminhadas (até mesmo a andar de costas), ouve-se música chinesa e veem-se as fitas coloridas de seda a girar no ar e os papagaios de papel. E apesar da poluição que tolda o sol enquanto ele se põe, é uma boa altura para parar e observar tudo o que acontece à nossa volta.

Voltar aos hutongs à noite é uma experiência diferente. E não é raro que uma família chinesa o convide para beber uma cerveja e comer uma espetada de carne — sempre bem condimentada e picante. A hospitalidade não inclui, no entanto, uma comunicação eficaz. Gesticula-se, enquanto falamos em línguas diferentes, quase nunca em inglês, imitando um comboio quando se procura a estação ou tentando explicar onde fica Portugal.

Em alternativa a regressar aos hutongs à noite, é de espreitar o mercado noturno de Donghuamen — uma rua onde se encontram as famosas espetadas de baratas, escorpiões, cobras ou gafanhotos, mas onde também há comida mais ‘normal’. Pequim é um lugar de contrastes e são precisos muitos dias para conhecer a sério a cidade (se isso, sequer, é possível). Mas uma parte real da vida de alguns chineses e do que compõe os seus dias está ali naqueles bairros.

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Para respirar bem fundo

Foto 3

Foto 3

josé fernandes

Sem ser preciso ir para muito longe da capital, há um lugar onde é possível respirar mesmo fundo, sobretudo se estiver um dia quente e abafado em Pequim. A cerca de 80 quilómetros da cidade, surge Longqingxia (foto 3). É possível lá chegar de transportes — ainda que seja preciso apanhar dois autocarros e se leve mais tempo do que o desejado. Mas compensa. É uma paisagem impressionante aquela que se vê ao longo de uma viagem de barco entre as montanhas, numa água tão verde quanto o verde da vegetação densa que preenche os rochedos de cima a baixo. O local é conhecido particularmente pelo Ice and Snow Festival, que se realiza em janeiro e fevereiro, mas pode ser visitado noutras alturas. Por enquanto, é um sítio tranquilo e com poucos turistas.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 9 junho 2016