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A ponte da fertilidade... e do diabo

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MISARELA A 'ponte do diabo' que separa Trás-os-Montes do Minho

joão paulo galacho

João Paulo Galacho relata uma viagem por terras do Barroso, à procura de Senhorinhas e de Gervásios que devem a existência à ponte da Misarela

João Paulo Galacho (texto, fotos e vídeo)

A ponte de Misarela não se esquece. Está num lugar mágico, do qual me enamorei logo na primeira vez em que lá estive. Construída no cavado vale do rio Rabagão, entre penedos e vegetação exuberante, é uma velha resistente de guerras, de enxurradas do rio, e do peso das muitas pessoas e carroças que a atravessaram.

É uma obra ousada. Pode até parecer frágil — os mais temerosos vão talvez hesitar contemplar o rio do seu tabuleiro — mas, na sua presença, todos percebemos o porquê de também ser conhecida como a 'ponte do diabo'. Parece mesmo obra do demónio.

De origem medieval, reconstruída no início do século XIX, deixou ao longo dos tempos um rasto de lendas que chegaram aos nossos dias. Os dois mitos mais conhecidos falam-nos um do diabo e de um fugitivo à justiça, e o outro atribui à ponte, e às águas do Rabagão, propriedades miraculosas que viabilizam bebés ainda na barriga das mães.

O DIABO, POIS CLARO

A fábula do diabo resume-se assim: um fugitivo, com a autoridade no encalço, depara-se com o intransponível rio. Encurralado, evoca o diabo para o ajudar a atravessar, e em troca oferece-lhe a alma. O demo aceita de imediato o pacto e do nada faz aparecer uma ponte de pedra, que o fugitivo atravessa, mas que logo depois rui com estrondo, impossibilitando os perseguidores de passar.

Mais tarde, o homem arrepende-se de ter vendido a alma ao diabo e procura um padre para o ajudar. O sacerdote, engenhoso, dirige-se ao local onde o fugitivo atravessara o rio, evoca também o mafarrico, promete-lhe a alma, e a ponte reaparece. Nesse momento o padre retira uma caldeirinha de água benta, que trazia escondida nas vestes, asperge a ponte e recita a ladainha dos exorcismos. O diabo foge espavorido, deixando intacta a ponte que ainda hoje lá está.

É uma lenda que os pais contam aos filhos, e que quanto muito estará na origem de um sono mais agitado dos petizes, com pesadelos onde o diabo e o salteador os amedrontam. E não descortino mais consequências práticas desta história na vida das pessoas.

A LENDA MATERIALIZADA

Já a lenda da ponte do Salvador teve efeitos bem concretos na vida de muitas famílias, aumentadas com o nascimento de muitas Senhorinhas e Gervásios.

Este mito aconselha as mulheres com um historial de vários abortos, e que queiram levar uma nova gravidez até ao fim, a dirigir-se à ponte da Misarela. Aí chegadas, devem esperar que alguma pessoa a atravesse para lhes batizar o bebé ainda na barriga. Esse padrinho/madrinha deve recolher um púcaro de água do Rabagão, e derramá-lo sobre a barriga da grávida enquanto diz as palavras sacramentais: “Eu te batizo, criatura de Deus, pelo poder de Deus e da Virgem Maria. Se fores rapaz serás Gervaz, se fores rapariga, serás Senhorinha.”

joão paulo galacho

QUEM NÃO TEM MÉDICO...

Nesta recôndita zona de Portugal, só com a construção das barragens do Alto Cávado e do Alto Rabagão, há pouco mais de 50 anos, começaram a aparecer estradas dignas desse nome. Antes disso, estas pessoas das serras do Barroso e do Larouco, demoravam horas, quando não dias, para chegar a um médico. Não tinham outro remédio senão recorrerem à sabedoria dos antigos, conhecedores das propriedades curativas de certas ervas, mas que também 'receitavam' rituais para alguns males. E para o mal de não conseguir levar uma gravidez avante, a Misarela era a solução.

Até alguns padres locais, conhecedores das duras condições de vida daquela gente, e da necessidade de muitos braços para amanhar aquelas terras de montanha, aconselhavam as mulheres grávidas a irem à Misarela. Senhorinha Moura, batizada na ponte, recorda: “A senhora minha mãe era muito religiosa e o padre Carvalheira, ali de Viade, sabedor da sua aflição por não conseguir vingar os filhos, convenceu-a a ir à Misarela. E olhe que depois até meu padrinho foi, lá na igreja.”

Senhorinha Moura — a sua mãe foi grávida à ponte da Misarela

Senhorinha Moura — a sua mãe foi grávida à ponte da Misarela

joão paulo galacho

O PADRE DISTO TUDO
O padre António Fontes, nascido em 1940, na aldeia barrosã de Cambezes do Rio, é conhecido pelos Congressos de Medicina Popular que organiza desde 1983 em Vilar de Perdizes. Numa entrevista ao “Diário de Trás os Montes”, em setembro de 2002, explicava estas questões: “Eu não acredito em bruxas, nem em feitiços, nem sequer no diabo. Não se pode ser padre numa região cheia de miséria e injustiça, e ficar a olhar para o lado... as gentes do Barroso nunca abandonaram o seu paganismo fundamental pois era ele que lhes dava curas, mezinhas, vida comunitária e assistência na desgraça... Aqui em Vilar de Perdizes há médico duas vezes por semana. Dizem as pessoas que não é para todas as doenças. Há males que não são do médico.”

O padre Fontes é um confesso entusiasta das lendas da Misarela — não fosse ele neto de uma Senhorinha. E partiu dele a iniciativa de promover um encontro de Senhorinhas e Gervásios, em dezembro de 1993: “Corri as aldeias todas aqui em redor à procura desta gente batizada na ponte. Compareceram perto de trinta. Havia também um grupo de cantadores ao desafio que fizeram das lendas da Misarela o mote dos seus despiques. Foi uma iniciativa muito bem recebida e o facto é que, ainda hoje, a Junta de Freguesia de Ferral organiza uma festa evocativa destas lendas.”

A FESTA DA MISARELA

Francisco Martins mora a umas dezenas de metros da ponte, em Sidrós, e é uma espécie de zelador — juntamente com José Miranda Alves, ex-presidente da Junta de Freguesia de Ferral — da Misarela e das suas lendas. Estes dois homens não deixaram morrer a iniciativa do padre Fontes, e de ano para ano têm conseguido aumentar o número de pessoas que no primeiro sábado de julho se deslocam à Misarela.

“Quando começámos nós a organizar esta celebração ainda havia escola em Sidrós. E era com esses alunos que ao longo do ano ensaiávamos uma peça de teatro. Hoje em dia a escola encerrou e temos de contratar um grupo de teatro. Damos-lhe um guião com as duas lendas, eles desenvolvem o texto, e com a nossa ajuda logística representam a peça à noite na ponte.”

E já com um brilhozinho maroto nos olhos, Francisco Martins continua: “O ponto alto é sempre quando o diabo aparece no meio dos penedos, por entre fumo e luzes vermelhas, com um som aterrador. Havia de ver no ano passado. Até os mais velhos se agarravam uns aos outros quando o mafarrico desatou a correr por entre as pessoas. As pessoas assustam-se a valer mas adoram. Escreva lá esta história no jornal e diga aos leitores para virem cá este ano à nossa festa. Vai ver que vão gostar.” Fica o convite.

Mas para o Francisco a Misarela não é só festa, é muito mais. “A ponte de Misarela não deve ser conhecida apenas pela sua lenda nem por ser um sítio de beleza admirável ou simples cartaz turístico. É um local histórico que nos honra como povo amante da liberdade e cioso do seu sagrado chão.”

joão paulo galacho

ATÉ DA UCRÂNIA...

A ponte de Misarela marca a fronteira entre Trás-os-Montes e o Minho, Vila Real e Braga, Montalegre e Vieira do Minho, Ferral e Ruivães, Sidrós e Frades. Até na localização Misarela é dual. E claro que as províncias, distritos, concelhos, freguesias e lugares que a ponte separa, a acham mais propriedade delas do que do vizinho. Mas na realidade, ela é de todos.

Sílvia Freitas, proprietária de um restaurante em Sidrós, resume numa memória a história da fé na ponte: “Estava uma noite de temporal terrível, eu estava à lareira, e qual não é o meu espanto quando vejo entrar porta dentro um casal todo encharcado. Eram ucranianos, trabalhavam nas estufas da Costa Vicentina, mal falavam português, e vinham da ponte da Misarela onde estiveram tempos sem fim à espera de um passante. A senhora já tinha tido vários abortos, estava de novo grávida, ouviram falar da lenda, e aqui estavam eles, cheios de esperança de conseguirem vingar o filho. Lembro-me tão bem deles. Até da camisola da senhora, imagine. Era de gola alta e cor de rosa...”

E não provará esta história que a Misarela é de todos os que acreditam nela?