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Sermos campeões europeus dá-nos direito a colar cartazes em Paris? #QSFD, já está!

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HOMENAGEM. Cristiano Ronaldo, Renato Sanches, Éder e Rui Patrício foram os escolhidos para responder ao mau-perder gaulês

A Kiss — The Agency foi até Paris para mostrar como se reage às provocações e ao mau perder dos franceses. A taça é nossa, mas a ideia de criar cartazes provocadores e espalhá-los por Paris foi de Pedro Batalha, diretor criativo da agência de comunicação portuguesa

Portugal comemorava a sua primeira vitória europeia depois de uma noite de emoções fortes na final do Euro 2016. O país estava em festa e houve quem não trabalhasse para saudar os campeões. Houve também quem os saudasse de outra forma, através do trabalho criativo que desenvolve. Pedro Batalha, da Kiss — The Agency, achou que não havia melhor forma de mostrar a alegria que os portugueses (ele incluído) sentiam do que partir para Paris com cartazes alusivos à seleção na mala.

“Se perdermos, que se f#$%”, disse Cristiano Ronaldo quando, na qualidade de capitão, incentivou Moutinho a marcar uma das grandes penalidades contra a Polónia. No dia seguinte, quando o áudio da conversa foi conhecido — “Anda. Tu bates bem. Se perdermos, que se f#$%! Personalidade. Vai. Personalidade. Tu bates bem. Seja o que Deus quiser!” —, não se falava noutra coisa. Entre as múltiplas manifestações nas redes sociais, umas com mais jargão do que outras, nasceu também uma hashtag, #QSFD, que se tornou a assinatura do mais recente trabalho (sem fins comerciais) de uma agência de comunicação portuguesa que gosta de provocar.

Foi exatamente nessa noite, na da vitória frente à Polónia, que Pedro Batalha percebeu que aquelas frases de Ronaldo eram mais do que uma simples palavra de incentivo a um jogador receoso da responsabilidade que estava prestes a tomar. “Senti que aqui era mais do que um vernáculo, era uma metáfora”, explica o criativo ao Expresso Diário, “que acabou por resultar como um clique, que ajudou não só João Moutinho como a Seleção inteira a mudar a maneira de pensar daí para a frente”. Na verdade, este #QSFD era “uma mensagem incrível também para os portugueses com receio de falhar”. Pode ser aplicada a tudo e Pedro Batalha espera que o seja daqui em diante, uma vez que “a conquista do Euro é uma forma de acabar com aquele síndrome de inferioridade que temos”.

A história da seleção não acabou ali e depois da Polónia, nos quartos-de-final, vencemos também o País de Gales. Estávamos a caminho da final e a agência decidiu voltar a apoiar a seleção, fazendo uma Torre Eiffel à medida de Cristiano Ronaldo. A “Ronaldeiffel” pretendia dar uma força extra ao capitão nacional, que teria de enfrentar, com a restante equipa, a seleção de Didier Deschamps. O melhor ainda estava para vir, acreditava-se, mas não era certo. “Pensámos que o nosso trabalho estava feito”, conta Pedro Batalha.

PELA SELEÇÃO. António Fuzeta da Ponte, Paulo Afonso e Pedro Batalha foram até Paris colar os cartazes

PELA SELEÇÃO. António Fuzeta da Ponte, Paulo Afonso e Pedro Batalha foram até Paris colar os cartazes

A HOMENAGEM AOS CAMPEÕES

Acabámos por ganhar, pela primeira vez, um Europeu de Futebol. Era preciso festejar (e dar uma lição aos franceses). Pedro Batalha, António Fuzeta da Ponte e Paulo Afonso partiram para França na terça-feira — “apanhámos uma low-cost e fomos até Paris”, explica o diretor criativo — e fizeram o que todos gostávamos de ter feito. Responder à altura das provocações gaulesas. Escolheram os heróis que figurariam nos cartazes — Cristiano Ronaldo, Renato Sanches, Éder e Rui Patrício — e arranjaram também um vilão gaulês para esta história (Payet, jogador francês responsável pela lesão de CR7 na final de domingo). “Quisemos dar uma resposta a toda aquela atitude de mau perder dos franceses”, explica o objetivo da ação.

Vale a pena perceber o conteúdo destes cartazes colados pelos três colegas nas duas margens do rio Sena, junto do Louvre e também nas imediações da Tour Eiffel. “Ei, imprensa francesa! Esqueçam…” — com a cara de Renato Sanches — é um aviso aos jornais franceses que deram eco à polémica instalada pelo antigo treinador francês Guy Roux, que afirmou que o ex-jogador do Sport Lisboa e Benfica vendido ao Bayern Munique teria “23 ou 24 anos” em vez dos 18 que tem na realidade.

Mas há mais. Éder, o herói improvável da final, tem direito ao lema da Revolução Francesa.“Liberté, Egalité, Edérité” é o novo slogan da Seleção, que conseguiu revolucionar a forma como os estrangeiros olhavam para a equipa portuguesa.

A fraternidade também terá ajudado ao resultado final, mas isso fica só para connosco. Depois ainda há Cristiano Ronaldo, Rui Patrício e ainda o francês Dimitri Payet, que provocou, de forma “ não intencional” (diz o próprio) a lesão de CR7.

PARIS. O centro da cidade foi o local escolhido para a campanha sem fins comerciais

PARIS. O centro da cidade foi o local escolhido para a campanha sem fins comerciais

Numa cidade muito vigiada como é Paris, nem sempre é fácil surpreender sem se ser surpreendido. O policiamento constante da capital francesa — especialmente em zonas turísticas como as que escolheram — não permitiu colar muitos cartazes, mas o objetivo foi cumprido. “Lá em Paris, houve uma altura em que tivemos de andar mais rápido”, confessa, “mas não houve stress”. O mesmo não aconteceu em Barcelona.

DEUS É GRANDE, MAS RONALDO SALTA MAIS ALTO

A ligação dos três criativos a Cristiano Ronaldo já vem de trás e é também nos momentos críticos que atuam. Há dois anos e meio, com um mundo dividido entre apoiantes do número 7 do Real Madrid e fãs de Lionel Messi, tiveram de agir. “Blatter veio a público, durante uma conferência em Oxford, dizer que preferia que fosse Messi a ganhar a Bola de Ouro”, relembra Pedro Batalha.

O vídeo revelado pelo “The Independent” era claro e Joseph Blatter, presidente da FIFA, expressou-se de uma forma que não agradou. “Leo é um bom rapaz. Todos os pais gostariam de tê-lo em casa. É um bom homem. Muito rápido. Joga muito bem, como se estivesse a dançar. ¬O outro [Cristiano Ronaldo] é como um comandante em campo” – afirmou na ‘Oxford Union Society’, no Reino Unido. Estávamos em outubro de 2013 e as preocupações (e considerações) de Blatter não caíram bem. “Um gasta mais dinheiro no cabeleireiro do que outro, mas eu não posso dizer quem é o melhor. Eu prefiro o Messi”, disse. Na altura, os membros da agência de comunicação portuguesa foram até Barcelona “porque o presidente da FIFA não podia dizer aquilo” e decidiram “colocar grafitis nos locais mais emblemáticos da cidade”. “Deus é grande, mas Ronaldo salta mais alto”, lia-se num deles. A policia catalã não achou piada à ousadia. Por cá, organizaram um buzinão de apoio a Ronaldo. Também resultou.

Descobrir a morada de Platini e ir lá chutar bolas para o jardim

Sempre prontos para reagir às polémicas de forma original, também não deixaram de responder a Michel Platini após o Mundial de Futebol de 2014. Aquele que era o presidente da UEFA defendeu, em entrevista ao canal BeIn Sports, que “a Bola de Ouro de 2014 devia ser atribuída a um jogador alemão, como prémio pelo triunfo dos alemães no Mundial do Brasil”. “Portugal e Cristiano Ronaldo não brilharam” rematou na altura. O remate dos criativos portugueses foi na morada parisiense de Platini. “Fomos a Paris, descobrimos a morada de Platini e chutámos umas bolas para o jardim da vivenda”, conta o diretor criativo, divertido com a situação. Agora somos campeões, mas a agência portuguesa promete continuar a dar os seus french kisses nas redes sociais, “até porque hoje vive-se muito do imediato”.