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Sociedade

O poder de uma imagem

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© Jonathan Bachman / Reuters

Pode uma fotografia (ajudar a) travar o racismo? Com os ânimos exaltados nos EUA, uma afro-americana repetiu o gesto de outras mulheres em contexto de manifestações agitadas

Lembra-se da rapariga portuguesa que abraçou o polícia, em 2012, em dia de violenta manifestação frente aos escritórios do FMI, na Av. Da República, em Lisboa? E de uma imagem na Suécia, em maio deste ano, de uma mulher negra, de punho erguido, fazendo frente a manifestantes de extrema-direita (no caso, membros do grupo Movimento de Resistência Nórdica)? De quando em vez, no meio do caos ou da violência, surge uma imagem icónica de resistência pacífica que fica associada a determinado acontecimento. Até porque, como dizia Mahatma Gandhi, guru da não violência: "olho por olho e o mundo acabará por ficar cego".

Foi o que sucedeu no sábado passado em Bâton Rouge, nos EUA, local do último homicídio de um afro-americano às mãos da polícia. Depois da morte de Alton Sterling no Louisiana, seguiram-se protestos em várias cidades norte-americanas. E no dia 9 decorria uma manifestação sob o lema "Black Lives Matter", mote que tem percorrido as redes sociais desde os primeiros homicídios de afro-americanos às mãos de agentes policiais.

A dada altura da manifestação, na estrada que vai até ao aeroporto da cidade, os agentes da polícia tentaram despejar a zona – mas depararam-se com muitas resistências. Até àquele momento, a manifestação estava a ser pacífica, mas a tensão crescente acabou por se saldar em 102 pessoas detidas e um polícia ferido. Mas uma imagem marcou o dia: a de uma jovem negra, muito direita, que não resistiu à detenção, não perdeu a compostura - nem ponta de dignidade. Uma jovem singela, de vestido de verão e sabrinas, contrastando com os agentes da polícia pesadamente equipados, com capacetes e mais um par de botas. O que impressionou o fotógrafo da Reuters Jonathan Bachman foi a "frente pacífica" que a jovem protagonizou. "Não foi um momento violento. Ela não disse nada. Não resistiu e a polícia não a levou de rastos."

A jovem foi algemada, detida - e libertada no dia seguinte, soube-se mais tarde. Soube-se também que se chama Ieshia Evans, que é uma enfermeira de 28 anos, mãe de um filho de cinco. E que foi precisamente porque queria "um futuro melhor" para o filho que decidiu ir de Nova Iorque para participar na sua primeira manifestação. Daqui a alguns anos, poderá mostrar ao seu filho como a imortalizaram para a História.