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O Pokémon GO já cá está. Não estranhe se vir coisas esquisitas na rua

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O jogo para telemóvel que está a transformar-se numa febre em vários pontos do mundo está disponível desde esta sexta-feira em Portugal. Deixamos-lhe aqui um guia sobre o que é e como se joga Pokémon GO e as informações essenciais para quem não vai jogar perceber algumas coisas esquisitas que poderá começar a ver por aí, nas ruas e não só

Lourenço Medeiros/SIC

É uma da manhã. O meu telemóvel mostra pela primeira vez um Pokémon perto de minha casa. Uma espécie de minhoca, ao que parece, está duas ruas mais abaixo, uns 300 metros a direito, um bom bocado mais para lá chegar sem entrar na propriedade dos vizinhos. Muitos jovens adultos já tinham saído de casa para o ir “apanhar” em vez de estarem a escrever um texto para o Expresso.

Eu se calhar só fico aqui porque já não faço parte das gerações que cresceram a ver os Pokémon, primeiro na SIC, convém que se diga. O meu último entrevistado andou entre a 1 e as 5 da manhã em Fernão Ferro a caçar Pokémon, e encontrou outros a fazer o mesmo quando o jogo ainda não tinha saído em Portugal, era preciso recorrer a manhas para o conseguir e até podia ser perigoso com uns vírus à espera dos mais ansiosos.

Tudo começou há 20 anos, com o Gameboy

Se via o Pokémon salte para o parágrafo que começa com Pokémon GO. Se não via, o resumo muito resumido é este: começou com uma série de desenhos animados japoneses e com um jogo para a consola Gameboy, em 1996. Desde então há milhões de fãs de Pokémon, houve dezenas de variantes dos desenhos animados e dos jogos, mas nunca parou verdadeiramente. Os heróis da série têm valores estranhos, o objetivo último da vida passa por ser o melhor treinador de Pokémon do mundo e arredores. Pokémon são, literalmente, Pocket Monster, monstros de bolso.

A primeira coisa que os treinadores têm que fazer é caçar os Pokémon que os acompanharão, é preciso descobrir onde andam e acertar em cada um com uma Pokébola, que o captura. Cada um tem o seu valor e as suas fraquezas, e cada um pode evoluir e ganhar novos poderes. Os treinadores de Pokémon põem à prova as suas capacidades fazendo com que os seus Pokémon deem valentes tareias nos Pokémon dos outros. É uma espécie de duelo inspirado em artes marciais mas com imensos raios e relâmpagos e golpes mágicos. Nos jogos isto traduz-se por sabermos usar os nossos melhores Pokémon (o plural é assim) para derrotar o adversário. Escolhemos os Pokémon e os golpes que deve usar, isto passa por estratégia. Antes de cada nova batalha, os nossos magoados Pokémon vão ao médico e ficam prontos para outra.

Uma “realidade” sobreposta

Pokémon GO, é basicamente o sonho tornado realidade das gerações que cresceram a ver Pokémon na TV e a jogar em pequenas consolas no quarto. Os jogadores de Pokémon GO usam os seus telemóveis como se fossem uma lente que mostra uma outra realidade sobreposta com a nossa. Dentro de casa ou na rua levantamos o telemóvel e lá estão os Pokémon prontos a serem caçados e zonas de batalha para conquistar. Ao contrário do jogo de consola em que apontamos à distância e damos uns tiros, temos mesmo que andar e ir ter com eles.

Já estacionei numa rotunda todo convencido de que ia usar o meu primeiro Pokéspot (é um sítio onde dão coisas úteis para o jogo) só para perceber que afinal o sítio era do outro lado da rotunda. Tive mesmo que largar o carro, passar duas passadeiras para ficar no local exato e conseguir meia dúzia de Pokébolas e um ovo.

Tenho alguma dificuldade em entender uma nostalgia que não sinto, mas imagino que seja como se me deixassem ir à Lua no foguetão do Tintin, ia já.

Não é só jogar no telemóvel, tem de se andar, e às vezes muito

O Pokémon Go não é o primeiro jogo que usa realidade aumentada. A mistura é explosiva. Temos a realidade e a fantasia dos Pokémon, juntamos o gosto pelo colecionismo, como no Magic, existem centenas de Pokémon para juntar, é preciso aprender bem o que faz cada um e a estratégia a usar em cada caso. O jogo tem algo de geocaching, os jogos onde se procura coisas escondidas com ajuda da tecnologia, o espírito de equipa também está lá, até o nosso gosto por consumir, tudo se combina.

Embora lançado em poucos países, o valor em bolsa da Nintendo aumentou em 6 mil milhões de dólares nos primeiros dias. Li agora mesmo que 7 dias depois do lançamento nos Estados Unidos há 65 milhões de utilizadores só neste país. Estive a usar uma versão americana para experimentar antes do lançamento oficial em Portugal, que foi segredo até à manhã desta sexta dia 15.

Agora basta ter um iPhone ou um Android atualizado para poder jogar gratuitamente. Se for o caso prepare-se para começar a gastar dinheiro a comprar coisas dentro do jogo. Poucos resistem, embora possa jogar sem gastar nada, e cuidado que as micro-transações enganam, somam-se muito depressa umas às outras.

A vantagem em relação aos jogos anteriores é que os jogadores andam mesmo muito. Conhecem novos locais, passeiam. Agora vamos andar aí uns tempos a ler sobre os tipos que foram assaltados porque foram atraídos por uns delinquentes, já aconteceu uma vez. Vamos ver as imagens de gente distraída a pôr os pés onde não devia. Já houve acidentes com vários automóveis por um condutor ter parado para jogar. Um dia destes atribuem uma morte de um tipo que escorrega numa ravina a um jogo assim e vão dizer que o jogo mata - e a culpa não é de quem foi para a ravina.

Vão crescer os protestos de gente que não quer caçadores de Pokémon por perto, já apareceram caçadores de Pokémon no Memorial do Holocausto, em Washington, em hospitais, em funerais. É uma verdadeira doença contagiosa. Já saíram os primeiros artigos com dicas para não gastar os dados de tráfego do telemóvel do mês todo em meia dúzia de dias, (na rua, tem mesmo de se usar dados móveis).

Os pais vão chatear-se com os filhos que exigem ir passear ao fim de semana para locais cheios de gente, em vez de se aborrecerem por os filhos não quererem sair do quarto no fim de semana. Os filhos vão chatear-se com os pais por eles não lhes darem dinheiro para comprar Pokébolas. Vamos ter psicólogos a discutir os benefícios - e, sobretudo, os malefícios - do Pokémon Go para as criancinhas, e agora também para os jovens adultos. Vai haver casamentos de gente que se conheceu a caçar Pokémon. Já vi este filme muitas vezes.

No fim, haverá toda uma nova categoria de jogos, uns maus outros que até podem ser pedagógicos e que misturam bem o virtual e o real. Se isso vai ser bom ou mau deixo-o ao critério de cada um, mas vai acontecer. Convém saber que os receios que agora vamos sentir já aconteceram com a imprensa, com a rádio, com a TV, com a música pop, com o punk, com os computadores, com os jogos de consolas, com os telemóveis, com as redes sociais, e devo estar a esquecer muita coisa. Vai acontecer, e teremos que aprender a lidar com novas realidades, ditas aumentadas. Já acontece noutros campos e não assusta: quando uso um GPS que me dá os dados de trânsito para além do que a minha vista alcança, isso é realidade aumentada. São dados, são bytes úteis, que somamos à nossa realidade. Porque nos é útil ou por ser divertido.

  • Que febre é esta com o Pokémon GO? (e fica o aviso: é preciso ter cuidado)

    Lembra-se de ouvir (ou talvez não) no final dos anos 1990 aquele genérico viciante que repetia “apanhá-los todos, apanhá-los todos”? “Apanhá-los” era o objetivo de qualquer aspirante a treinador dos Pokémon, as criaturas em forma de dragões, serpentes ou pássaros que habitavam um mundo virtual limitado às consolas da Nintendo. A febre está de volta - não se fala de outra coisa lá fora (porque cá dentro o Euro é tópico que seca tudo à volta). Agora joga-se em smartphones, tem realidade aumentada envolvida na experiência e quem já experimentou diz que é vício total. Mas há um outro lado - e é perigoso para a segurança (física e virtual)