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Os homens do lixo sobem ao palco

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Orquestra de percussão formada por equipa de limpeza urbana da freguesia de Arroios, em Lisboa, atua este sábado no festival Bairro Intendente em Festa. Ferramentas de trabalho viraram instrumentos musicais

Nelson Marques

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João Santos Duarte

João Santos Duarte

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Um, dois, três e... pum...pum...pum...pum, pum, pum, pum. Pum...pum...pum...pum, pum, pum, pum. Pum...pum...pum...pum, pum, pum, pum. O som ecoa com estrondo no Largo do Intendente, em Lisboa. À medida que a orquestra de percussão avança para o palco, as cabeças viram-se e as bocas abrem-se de espanto. Há quem estique a mão para cumprimentar os músicos e quem lhes bata palmas. "Estás feito um artista!", ouve-se. É que este não é um grupo normal. Percebe-se logo pelos instrumentos: em vez de bombos ou tambores, há caixotes do lixo e outras ferramentas usadas na limpeza das ruas. Mas estes também não são músicos convencionais. Ali no largo há quem os reconheça: são 14 homens e mulheres que limpam as ruas de Arroios, a freguesia mais multicultural de Lisboa.

O projeto, batizado Arroiada, apresenta-se pela primeira vez ao público às 21h30 deste sábado, penúltimo dia do festival Bairro Intendente em Festa. Esta quinta é o ensaio geral, finta-se a ansiedade. Pedro Calado, o maestro desta orquestra alternativa, corrige os últimos detalhes. "Se uma baqueta te saltar, não vais apanhá-la. Tocas só com uma. Alguém te irá entregar outra", explica a um dos artistas desta espécie de Stomp à portuguesa.

Residente no Intendente, o músico percussionista veste orgulhoso a camisola dos Toca a Rufar, o primeiro grupo que integrou. Um dia soube que a junta de freguesia local, liderada por Margarida Martins, antiga presidente da Abraço, "estava interessada em dinamizar e motivar os funcionários do serviço de recolha de resíduos urbanos". Foi então que decidiu apresentar a sua ideia a Marta Silva, a responsável pela cooperativa cultural Largo Residências, uma das impulsionadoras do Bairro Intendente: propôs usar a música para fazer brilhar "os trabalhadores mais invisíveis das nossas ruas".

"É um trabalho ingrato, porque ninguém repara neles, a não ser que não trabalhem. Por isso, quis dar-lhes ferramentas para que pudessem engrandecer-se, sentirem-se mais pessoas e conseguirem mostrar-se mais aos seus concidadãos da freguesia através da música", conta Calado, que é formado em Antropologia.

A Arroiada chega ao palco do Bairro Intendente em Festa depois de 12 ensaios semanais de duas horas nos últimos dois meses. Cada participante recebeu um incentivo (cinco euros por hora) para integrar o projeto, mas Calado garante que muitos querem permanecer no grupo mesmo que não haja recompensa monetária. "Querem continuar a ter aulas comigo, estão todos muito motivados. Já não é pelo dinheiro. Ficaram mesmo a gostar disto".

A ideia é que a iniciativa não se esgote no palco do Intendente, mas que seja apenas a primeira apresentação de um projeto mais ambicioso, o Grupo de Limpeza Urbana Musical. "Queremos envolver trabalhadores de outras freguesias da cidade e, eventualmente, até a população em geral", explica Marta Silva, da Largo Residências.

Antes de se apresentar ao público, na noite deste sábado, fazendo a primeira parte do grupo de percussão brasileiro Graveola e o Lixo Polifónico, a Arroiada promove um workshop aberto a todos os interessados, às 17h30, também no Largo do Intendente. Pode ver a programação completa do Bairro Intendente em Festa AQUI. Todos os espetáculos e iniciativas são de entrada gratuita.