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Foi de Nice que o jiadista português Luís Almeida partiu para a Síria

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STRINGER / Reuters

Luís Carlos Almeida viajou para a Síria em setembro de 2014 com a mulher, a filha de um ano e oito familiares franco-tunisinos, todos de Nice, a mesma cidade onde esta quinta-feira ocorreu o ataque terrorista que matou mais de 80 inocentes. O jiadista português, que se radicalizou nesta cidade francesa, morreu em combate no verão do ano passado no califado

No verão de 2014, Luís Carlos Almeida, 26 anos, esteve em Portugal, na casa carmim onde cresceu na Cova da Moura, Amadora. Foi despedir-se. No fim de setembro iria juntar-se ao grupo terrorista do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), na Síria, com a nova família que tinha construído na cidade francesa de Nice: a mulher tunisina por quem se converteu ao Islão, a menina de um ano que o fez pai e mais oito familiares.

Luís Carlos Almeida morreu a 30 de maio de 2015 em Sheddadi, uma localidade do nordeste da Síria junto à fronteira com o Iraque. Foi vítima de um bombardeamento do exército de Bashar al-Assad, que terá feito, naquele dia, mais baixas ocidentais. A família portuguesa recebeu a notícia por telemóvel: primeiro uma chamada e depois uma fotografia do corpo, em traje militar, para confirmar a identidade.

No Twitter, os companheiros de Jihad usaram o seu nome árabe para anunciar o novo mártir: Abu Naïla al Portugali, "um irmão de ouro".

Foi o quarto jiadista português a morrer em nome do Daesh, depois de José Parente e Mikael Batista, ambos nados e criados em França, nos arredores de Toulouse e de Paris respetivamente, e de Sandro Monteiro, rapaz de Monte Abraão (Sintra). No califado ainda permanecerão cerca de dez jovens com nacionalidade portuguesa.

Por amor a Ahlem

A mãe de Luís deixou-o ainda bebé (e aos dois irmãos mais velhos) com os avós na Cova da Moura. Quando "Piratinha" tinha onze anos, o avô morreu e o pai, emigrado em França, veio buscar os três filhos e levou-os para Nice. Só Luís permaneceu em França. "Mas a relação com o pai nunca foi fácil. Ele afastou-se e passou a viver em função de Ahlem, a namorada tunisina. Converteu-se por ela. Parecia enfeitiçado, dizia que podia ter quatro mulheres mas só a queria a ela, que era simples como a avó." "Estava tão feliz", conta uma familiar.

Casaram-se há três anos na Tunísia. "E aí o Luís começou a mudar. A conversa de quem nos queria converter, a fazer comentários sobre a minha roupa. Até o corpo mudou: vinha musculado, teve treino militar antes de partir. Mas não tirou as tatuagens como lhe pediram. Morreu com os nomes da avó e do avô tatuados nos braços", acrescenta esta familiar.

Em Nice, a família Ben Chaib organizou meticulosamente a fuga em direção à Síria sem ser detetada pelas autoridade. Oussama, o cunhado do português, liderou a operação, ajudado por contactos nas células salafitas do sul de França. A matriarca, Saloua, também uma radical, convenceu o resto do clã a alistar-se com eles no EI. Ennen, a outra irmã de Oussama e Ahlem, acabou por se juntar ao grupo.

Contando com os dois genros e a nora de Saloua e com as quatro crianças (entre um e seis anos), onze pessoas viajaram de França para Itália, depois para a Grécia e Turquia em duas viaturas (uma carrinha e um Peugeot 5008) alugadas em dois rent-a-cars no sul de França. Partiram a 26 de setembro de 2014.

No dia seguinte, Vera, a madrasta de Luís Carlos, alertou as autoridades para o seu desaparecimento. A casa estava vazia. Nos últimos dias tinha vendido o carro e todo o recheio da casa em sites da internet. Idênticas participações foram feitas por familiares dos outros viajantes. Mas a polícia só agiu quatro dias depois, após um novo alerta. A passagem dos dois carros foi detetada na Turquia a 4 de outubro. Já foi tarde. No dia seguinte, a família Ben Chaib passou a fronteira para a Síria, onde se juntou à organização terrorista.

Três familiares que continuam a viver em Nice contrataram um advogado para que os ajude a encontrar pistas sobre o paradeiro do grupo e pressione o Estado francês para os ajudar a trazê-los de volta. Argumentam que alguns não partiram voluntariamente, mas que foram "sequestrados" por Oussama, e culpam as autoridades de nada terem feito para travar a sua saída, apesar dos vários alertas. Oussama era monitorizado pelas secretas francesas há pelo menos dois anos, suspeito de pertencer a grupos extremistas.

Ainda assim, ninguém desconfiou da partida quando pôs à venda todos os bens e imóveis. Luís Carlos Almeida também estava referenciado pelas secretas europeias há alguns meses. A ligação à família tunisina Ben Chaib alertou os investigadores franceses que passaram a informação a Lisboa.

O Expresso sabe que os voos do rapaz da Cova da Moura entre França e Portugal eram seguidos com atenção especial, mas concluiu-se que, ao contrário de outros radicais portugueses que hoje combatem em nome do EI, o jovem emigrante não alimentava nenhuma rede ilegal de envio de jiadistas para o Estado Islâmico. Na sua última viagem a casa, em setembro, "Piratinha" renovou o passaporte já com intenções de o utilizar fora do espaço Schengen. "Ele começou por dizer que ia viver para a Tunísia, que ia ser pastor. Mas mentia mal, as coisas não encaixavam e acabou por admitir que ia para a Síria. Aquela família fez-lhe uma lavagem cerebral, não há outra explicação. E aquele Oussama?! Ele casou com a irmã do Diabo", desabafa esta familiar.

"Estou a levar com bombas..."

Durante os nove meses que esteve nas fileiras do Daesh, Luís nunca cortou o contacto com a família da Cova da Moura. "Longe da vista mas perto do coração", repetia à exaustão. Todos os dias, por volta das sete da manhã enviava uma mensagem a um dos irmãos antes de "ir trabalhar". Dizia que era polícia na fronteira entre a Síria e o Iraque. Existem imagens que o colocam ao lado de um pelotão de decapitação na Síria. Está de rosto coberto mas as secretas francesas creem que se trata do português.

Luís falava por WhatsApp, mandava fotografias da filha, mostrava os seus primeiros passos. De vez em quando enviava ficheiros de áudio. A tia guarda-os religiosamente no telemóvel. Num dos últimos, em tom bem disposto dizia: "A minha vida já começou a andar. Estou a levar com bombas dos americanos mas não se passa nada. Estou fixe". Morreu alguns dias depois.

A notícia chega primeiro à família próxima, o portal Papia Kriolu (DYPK) expande-a depois pela comunidade cabo-verdiana, o passa-palavra fá-la chegar a cada beco da Cova da Moura. O "Piratinha" estava morto.