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Autonomização das armas: a terceira revolução da arte da guerra

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As armas autónomas têm sido referidas como a terceira revolução na arte da guerra, capazes de identificar e atacar alvos sem intervenção humana

O desenvolvimento tecnológico, não obstante os grandes contributos para a sociedade nas mais diversas áreas, desde sempre esteve também ligado a uma corrida incessante ao armamento. “A evolução tecnológica é inevitável, assim como é inevitável a busca de conhecimento”, afirmou o investigador e presidente da Organização dos Trabalhadores Científicos (OTC), Frederico Carvalho, durante uma sessão de debate, realizada esta terça-feira, na Unicepe, no Porto, subordinada ao tema “Armas robóticas e outras aplicações bélicas do trabalho científico”.

As sociedades, frisou o especialista, “são moldadas pelo objetivo dado ao trabalho científico”. Como exemplificou durante a apresentação, esta não é uma tendência presente apenas na era moderna. Desde o carro de guerra, desenvolvido no Antigo Egito, até aos mais recentes drones, utilizados para atividades do quotidiano mas também em cenários de guerra, o aproveitamento dos avanços tecnológicos sempre andou de mão dada com a procura de novas armas.

Na opinião de Frederico Carvalho, a ciência continua ligada “aos grandes interesses, nomeadamente aos do armamento”. Ao longo da apresentação, o presidente da OTC fez referência a um documento, subscrito por mais de 20 mil investigadores de todo o mundo, intitulado “Autonomous Weapons: An open letter from Artificial Intelligence and robotics researchers”.

A terceira revolução da guerra

No referido texto, anunciado a 28 de julho de 2015, durante uma conferência realizada no âmbito do International Joint Conference on Artificial Intelligence, pode ler-se que “as armas autónomas têm sido referidas como a terceira revolução da guerra, depois da pólvora e das armas nucleares”.

O documento alerta que se “as maiores potências militares continuarem com o desenvolvimento de armas de inteligência artificial, a corrida global ao armamento é inevitável e o desfecho desta trajetória tecnológica é óbvia: as armas autónomas irão tornar-se nas kalashnikovs de amanhã”.

A carta aberta refere igualmente que “as armas autónomas são ideais para levar a cabo assassinatos, destabilizar nações, subjugar populações e matar seletivamente um determinado grupo étnico”.

Perante a inteligência artificial todos passam a ser suspeitos

O robot pode abater alguém de aspeto suspeito, seja lá o que for um aspeto suspeito”, prosseguiu Frederico Carvalho. “Estas armas levantam as mais sérias questões éticas e legais, nomeadamente no que respeita à atribuição de responsabilidades”, acrescentou.

O investigador sublinhou ainda que o negócio das armas, assim como o da droga e o tráfico de seres humanos, são dos “mais lucrativos e desenvolvem-se à margem das leis, da ética, da moral e dos direitos humanos e ambientais”.

Em declarações ao Expresso após a sessão, o presidente da OTC ressalvou que “um investigador pode interessar-se de tal modo por um projeto e, com isso, não estar a dar importância às consequências que daí podem advir e da utilização que pode ser feita dos seus resultados”.

Um dos exemplos mais célebres é o de Robert Oppenheimer, o físico responsável por liderar o Projeto Manhattan e que levaria ao desenvolvimento das armas nucleares utilizadas para bombardear as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Após aperceber-se do poder incrivelmente destrutivo da sua criação, Oppenheimer fez um discurso que ficou célebre, no qual recita uma passagem da escritura hindu Bhagavad Gita. “Now I become Death, the destroyer of the worlds” (em português: “Agora eu tornei-me na Morte, o destruidor dos mundos”).

Frederico Carvalho fez também a diferenciação entre armas autónomas e armas automáticas. “As armas autónomas são aquelas que, por si, perante determinados dados que recebem nos seus censores, decidem o que vão fazer a seguir, se vão disparar ou não contra um determinado alvo. Isto sem que esse tiro, digamos assim, seja controlado por um operador humano. As automáticas são aquelas que só atuam de acordo com o comando humano”, explicou.

A educação e a cultura da paz

O investigador fala de uma certa “banalização da violência” na sociedade contemporânea” e apela a uma maior “consciência coletiva”. O presidente da OTC referiu ainda a existência de uma “guerra mediática”, que, na sua opinião, vai ao encontro “de grandes interesses de pessoas, entidades e grandes corporações, no sentido de que a guerra é má, mas é um negócio lucrativo”.

Também presente na apresentação esteve a presidente da direção do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), Ilda Figueiredo, que olha “com preocupação” para o desenvolvimento científico ao serviço da guerra. “Tendo em conta o desconhecimento que a maioria das pessoas têm desta área, nós [CPPC] procuramos a divulgação da sua existência e denunciar o investimento de meios materiais e científicos, que falta para a investigação ao serviço da humanidade e do progresso, para apostar na destruição da humanidade”.

A dirigente explicou ao Expresso que “o CPPC procura realizar debates em escolas do ensino básico, secundário ou superior. Estamos a tentar sensibilizar os professores para se tornarem educadores para a paz.” Tudo seria “mais fácil”, denotou Ilda Figueiredo, se toda a orientação nacional fosse nesse sentido.

“É preciso criar uma educação e uma cultura para a paz”, concluiu.