Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Verão: como manter o perigo à sombra

  • 333

getty images

O calor traz com ele a promessa de dias felizes, mas é preciso ter cuidado para não transformar esta época num pesadelo. Só em 2014, 290 pessoas morreram por cancro da pele e 78 por afogamento

Nelson Marques

Nelson Marques

Texto

Jornalista

Ana Serra

Ana Serra

Infografia

Chega o verão e o ritual repete-se: corpos estendidos ao sol, mergulhos no mar, em rios e em piscinas, bolas de Berlim e gelados no areal, bebidas bem frescas na esplanada. Venham de lá as férias para gozar isto tudo. O problema é que, quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga. Por vezes, uma fatura demasiado pesada. Só no início desta semana, dois jovens, uma rapariga de 15 anos e um rapaz de 20, perderam a vida em duas praias do norte do país. Não há campanha de sensibilização mais eficaz do que o duro embate com a realidade.

Obcecados com o sol, ignoramos muitas vezes o perigo que espreita quando menos esperamos. Olhemos os números: entre 2010 e 2015, 66 pessoas perderam a vida nas praias portuguesas, a maioria em praias marítimas não vigiadas e em praias fluviais. São casos tanto de afogamento como de morte súbita, devido a congestões ou a paragens cardiorrespiratórias, por exemplo.

As vítimas são sobretudo homens, “que têm uma maior propensão para se exporem ao risco”, explica Nuno Galhardo Leitão, porta-voz da Autoridade Marítima Nacional e subdiretor do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN). Das 14 mortes ocorridas nos dois últimos anos, só uma foi de uma mulher; e apenas uma vítima tinha menos de 28 anos — um rapaz de 6 anos que se perdeu dos pais junto ao rio Lizandro, em Mafra, e que foi encontrado já cadáver na margem.

Qualquer vida perdida é de lamentar, mas os números são “incrivelmente baixos”, afirma Leitão, considerando o aumento significativo da afluência às zonas balneares portuguesas: o oficial da Marinha estima que só este verão serão realizadas 270 milhões de visitas às praias nacionais, que originarão 63 milhões de exposições ao risco. Apesar disso, os óbitos têm evoluído em sentido inverso ao da afluência: em 2014 e 2015, foram quase metade (7) dos registados em 2013 (12). E, no ano passado, pela primeira vez, não houve notícia de qualquer morte em praias marítimas vigiadas.

“Portugal é um dos países do mundo com a menor taxa de mortalidade registada nas praias, com uma eficácia acima dos 98% de vidas salvas”, afirma o subdiretor do ISN. Além do aumento da vigilância e do dispositivo de segurança nas zonas balneares, a Autoridade Marítima Nacional patrulha, em zonas de risco, várias praias não vigiadas, com o recurso a viaturas 4x4 operadas por militares da Marinha. Paralelamente, tem reforçado as campanhas de sensibilização para promover uma cultura de segurança junto dos veraneantes. O objetivo é trabalhar para que nenhuma pessoa morra esta época numa praia portuguesa.

O responsável do ISN aconselha toda a gente a escolher praias vigiadas, a respeitar a sinalética, a cumprir as indicações dos nadadores-salvadores e a não mergulhar em sítios desconhecidos. “Temos tantos casos de miúdos tetraplégicos que mergulham de pontões sem verificar a profundidade e que têm lesões gravíssimas na coluna cervical... Basta ir a Alcoitão para ver o flagelo que isto tem provocado.”

Ter a noção dos riscos é fundamental para prevenir acidentes, alerta a psicóloga Isabel Lourinho Peixoto. No caso do mar, isso torna-se difícil, porque este, muitas vezes, “só é olhado pela parte positiva: o barulho das ondas que relaxa, a água que refresca”. É precisamente quando o organismo não está alerta que uma fatalidade pode acontecer. “Por exemplo, quando uma pessoa vai sozinha para o mar, se algo acontece, não tem quem a possa acudir ou ajudar.” Para a psicóloga, são os adolescentes e jovens adultos que correm mais perigos. “Existe neles a crença de que nada lhes acontece, o que origina mais comportamentos de risco. Isto passa-se no mar e na praia como com o álcool, as drogas, o tabaco ou a condução.”

Particularmente vulneráveis são também as crianças, pelo que é fundamental não desviar os olhos delas. Qualquer distração pode levar a um afogamento. Nuno Galhardo Leitão dá um exemplo ocorrido já este ano, numa zona não vigiada da lagoa de Albufeira, em Sesimbra: “Dois pais estavam com uma criança de 2 anos, levantaram-se, deixaram-na na toalha e foram comprar gelados. A miúda foi para dentro de água e afogou-se. Felizmente, tínhamos nas proximidades uma carrinha 4x4, tipo as das ‘Marés Vivas’, e foi possível dar todo o apoio, evacuar a criança com pulso para o hospital e salvá-la.”

Apesar de parecerem mais tranquilas e mais seguras do que as praias marítimas, as zonas fluviais não o são, bem pelo contrário. “São muitíssimo perigosas”, alerta o responsável. Não só frequentemente não são vigiadas como têm fundões e obstáculos que são arrastados pelas correntes. Além disso, a água doce torna “mais difícil as pessoas manterem-se à superfície”, e os rios são em geral mais frios do que o mar, pelo que qualquer um pode ter uma cãibra, uma congestão ou entrar em hipotermia.

CRIANÇAS COM MENOS DE 4 ANOS SÃO AS QUE MAIS SE AFOGAM

Mas o perigo não espreita apenas na praia. Considerando todos os casos de afogamento e submersão acidentais, em praias, rios, albufeiras, barragens, piscinas e outros ambientes aquáticos, os números são bem mais expressivos: 79 vítimas em 2013 e 78 em 2014, o último ano com dados disponíveis, o que representa um aumento de quase 60% face a 2012.

Nas crianças, o afogamento é a segunda causa de morte em Portugal, atrás dos acidentes rodoviários e à frente das quedas. Segundo os dados da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), a partir de notícias publicadas na imprensa, entre 2002 e 2014, 215 crianças e jovens até aos 18 anos morreram vítimas de afogamento. O maior número de casos (54) ocorreu com crianças até aos 4 anos. Ao contrário do que se poderia pensar, não é a praia o principal perigo: mais de metade das situações ocorreu em piscinas (27%) ou em rios, ribeiras e lagoas (27%); só cerca de um quinto (21%) foi em praias.

ana serra

Para reduzir o risco de afogamentos, é importante não deixar qualquer recipiente com água acessível aos mais pequenos: uma criança de 4 anos nunca deve ficar sozinha na banheira, a água deve ser despejada mal acaba o banho, piscinas, tanques e poços devem ser vedados, alerta Helena Sacadura Botte, secretária-geral da APSI. As barreiras verticais devem ter, pelo menos, 1,10 metros de altura, com um portão que abra para o exterior e com um trinco automático. “Perto da água deve haver sempre um adulto que saiba nadar, e de preferência com formação em suporte básico de vida, a vigiar as crianças.”

Nas crianças mais crescidas, a partir dos 8, 10 anos, aumenta a probabilidade de afogamento em espaços naturais, pelo que é importante ensiná-las a nadar, mas mantendo uma vigilância próxima. “Devemos ensinar-lhes que nunca devem ir nadar sozinhas e que devem manter-se sempre perto das margens. E que não devem mergulhar em pontões ou em zonas onde desconhecem a profundidade da água ou se há rochas submersas ou desníveis.”

UMA PITADA DE SOL, MAS Q.B.

Outro dos grandes perigos desta época resulta da exposição prolongada ao sol. Obcecados com um bronzeado perfeito, muitos portugueses esquecem-se das recomendações dos especialistas, em especial para prevenir o cancro da pele. A incidência da doença tem vindo a aumentar em todo o mundo, e este ano estima-se que serão diagnosticados mais de 12 mil novos casos, cerca de mil dos quais serão de melanoma, a forma mais agressiva da doença — quando detetado numa fase inicial, é tratável e na maioria das vezes curável, mas em fase avançada é de difícil tratamento e cura.

Apesar de existirem inúmeros fatores de risco, o cancro da pele é geralmente causado pela radiação ultravioleta (UV) emitida pelo sol, pelo que a exposição excessiva é a causa mais comum. Mais em risco estão as pessoas de pele clara e cabelos ruivos, adultos que tenham sofrido queimaduras solares quando jovens, trabalhadores da pesca e agricultores, crianças, que devem ser bem protegidas, e bebés, que nunca devem ser expostos a radiações ultravioleta.

“A exposição solar em excesso é perigosa, independentemente da idade e da cor da pele, pois é cumulativa”, explica Vítor Veloso, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro. “Quando passamos muito tempo ao sol, os raios começam a danificar o ADN da pele e os tecidos. Na melhor das hipóteses, isso causa envelhecimento prematuro da pele e aparecimento de rugas. Na pior das hipóteses, estes danos levam a um enfraquecimento permanente e, eventualmente, ao cancro da pele.” O oncologista sugere uma cábula para lembrar o que deve ser vigiado — é só pensar nas letras ABCD: é preciso vigiar sinais Assimétricos, com Bordos irregulares, Cor desigual e aumento de Diâmetro.

ana serra

No caso do melanoma, pode ser detetado, numa fase inicial, quando um sinal existente “sofre ligeiras alterações, como, por exemplo, quando se forma uma nova zona negra”, explica o oncologista. Outros sintomas comuns são o aparecimento de pequenas crostas e/ou comichão num sinal existente. Num melanoma mais avançado, a textura do sinal pode modificar-se, tornando-se este duro ou com protuberâncias.

Apesar disso, quando feita de forma correta, a exposição ao sol também tem benefícios para a saúde: os raios UV-B estimulam a produção de vitamina D3, que é essencial “para uma boa saúde. crescimento e ossos fortes”. O oncologista alerta, porém, que não é necessário mais do que uma pequena dose de exposição solar por dia.