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Seremos viciados na net?

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Um estudo realizado em Portugal concluiu que mais de metade dos inquiridos têm níveis de dependência preocupantes

Basta recuar dez anos no tempo. Nessa altura, não havia smartphones com ligação à internet que nos permitiam, a toda a hora ou em qualquer lugar, estarmos conectados. Tão pouco havia WiFi em casa, que possibilitasse consultar a toda a hora sites, e-mails, redes sociais e afins. É bastante seguro dizer que nunca como hoje houve tanto tempo de ligação à internet. Demasiado, talvez.

Numa investigação feita a 641 internautas portugueses, entre agosto de 2014 e maio de 2015, mais de metade dos inquiridos apresentaram um “risco elevado e médio de adição à internet”, com “vários prejuízos negativos” na sua vida pessoal e profissional. Quem o garante é o coordenador do estudo, Halley Pontes, investigador da Universidade de Nottingham Trent, no Reino Unido, que foi publicado na revista científica “Computers in Human Behavior”. 12,6% dos inquiridos revelavam “riscos elevado” de desenvolver habituação à internet, o que na prática significaria, algo como 1.330.834 pessoas em risco. Isso acontece devido a um “contexto comunicacional único oferecido pela internet”, e a “um uso excessivo e problemático” de conteúdos para adultos, apostas online, videojogos, entre outros, explica o autor.

O que mais preocupa Halley Pontes são os cibernautas que usam a internet como forma de “automedicação”. “Utilizam-na para se sentirem melhor e fugirem a estados de humor desfavoráveis ou depressivos”. Usam a internet “de modo compulsivo ou desregulado” e estão constantemente atentos e preocupados com esse assunto. O sexo masculino é o mais atreito a esta dependência. São os rapazes e os homens que mais utilizam a internet “com elevada intensidade diária”, apresentando problemas de depressão, ansiedade e stresse, avisa Halley Pontes.

O psicólogo Paulo Gomes, investigador da equipa Aventura Social, explica como distinguir os utilizadores dependentes da internet dos “saudáveis”. “Os dependentes da internet têm frequentemente problemas com a gestão do tempo, dificuldade em adormecer, faltam às refeições, tornam-se apáticos e irritados quando se encontram offline, têm um investimento diminuído noutras atividades, mentem sobre o tempo gasto online, e dão respostas desagradáveis quando confrontados sobre o excesso de tempo despendido na internet”.

Contudo, Paulo Gomes não considera este tema alarmante, já que, num estudo desenvolvido em 2014 pelo Health Behaviour in School-aged Children em conjunto com a Organização Mundial de Saúde, “os adolescentes portugueses demonstraram algum abuso, mas não dependência da internet”. Essa investigação abarcou 3869 jovens do 8º e 10º anos, e numa escala de dependência entre os 9 e os 45 valores, a média portuguesa situou-se nos 18. Mas é importante estar atento a esta nova forma de dependência, a da utilização das tecnologias de informação.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 julho 2016