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Sardenha: Na ilha das cabeças cortadas

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Foto 1

Faz lembrar a nossa Arrábida, mas com águas turquesa e gente de carácter mais vincado

Beber uma cerveja local deveria ser um hábito obrigatório de qualquer viajante. Estas contam histórias. Na Sardenha, provar uma Ichnusa é ao mesmo tempo degustar uma bebida centenária (existe desde 1912), e pousar os olhos na bandeira da ilha, quatro cabeças de mouros cortadas, com uma cruz vermelha a dividi-las. Este é um bom ponto de partida para descobrir a Sardenha, que tem na natureza em bruto e nas características indomadas do seu povo parte da sua essência. Conta-nos um sardo de meia idade, em Porto Torres — à porta dos ferries que partem da ilha, eram 4h30 da manhã — que a bandeira, com 900 anos de vida, celebra a vitória sobre uma das invasões árabes tentadas, em 1014. As quatro cabeças cortadas, com brincos nas orelhas e lenços na cabeça, como piratas, representavam as regiões em que a Sardenha estava dividida, em quatro reinos italianos. E revelam bem a raça do povo sardo.

Sucessivamente invadida por fenícios — que chamaram à ilha Ichnusa, o nome que a cerveja adotou — cartagineses, romanos, árabes, bizantinos, espanhóis, saboianos e italianos, a Sardenha ficou pejada de vestígios históricos de todas as épocas, um pouco por todo o lado. Isto significa que qualquer praia onde dê banho ao corpo pode, muito facilmente, ter vista para um castelo ou torre. Como o da praia de La Pelosa, na região de Stintino, onde iniciamos a nossa roadtrip. Ali, o primeiro mergulho nas águas azul-turquesa da Sardenha faz-se debaixo da vigia de uma torre do século XVI, na ilha dos Asininos, antiga colónia penal.

Foto 2

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Foto 3

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Como um tesouro da cor das águas, a Costa Esmeralda, no nordeste da ilha, é a região onde se concentram as maiores belezas. Não só as conhecidas terras de Porto Cervo (foto 3) e Porto Rotondo, onde os iates de luxo e as mansões denunciam a riqueza dos seus habitantes, mas uma série de outros segredos que se estendem pela costa. A aldeia de San Pantaleo, com cerca de 4000 habitantes, frente às montanhas Gallura, mantém o charme do imaginário dos filmes italianos dos anos 50. A praça central, a Piazza della Chiesa, é um microcosmos do melhor da Sardenha: genuinidade, simplicidade, bom gosto.

A natureza em bruto é outro ponto forte da ilha. Giestas e arbustos vergados pelo vento, pedras de granito empoleiradas no cimo das montanhas, contrastam com as inúmeras enseadas, lá em baixo, que escondem pequenas praias de mar turquesa e areia branca. Para bem de quem visita, muito mantém-se intocado. E as casas — honra lhes seja feita — fazem questão de se camuflar na vegetação, deixando o protagonismo para a paisagem. Estão por todo o lado — lindas, em tons de terra e rosa, de reboco grosseiro —, mas de tal modo integradas que só são visíveis a poucos metros.

Dois sítios a não perder: o Capo Coda Cavallo, em San Teodoro (foto 2), um conjunto de casas encavalitado num morro, com uma vista deslumbrante sobre o mar, onde o jantar é inesquecível, no restaurante Punta Est; e o arquipélago de La Maddalena (foto 1), Reserva Natural, onde a roadtrip permite tantas paragens quantos mergulhos. Na ilha de Cabrera, há praias de cortar a respiração. De regresso a Palau, onde o barco aguarda, há tempo ainda para jantar em Castel Sardo, uma aldeia na encosta de uma montanha, com um castelo do século XIII a coroá-la. Aqui, qualquer paragem é garantia de charme, História e vistas para um cenário azul-turquesa. Com a garra sarda no sangue.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 julho 2016