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As outras estrelas do Euro

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Glamour. Ludivine Payet, mulher do avançado francês Dimitri Payet, Sephora Coman, casada com o avançado Kingsley Coman, e Tiziri, mulher do defesa Lucas Digne, posam para uma selfie durante o jogo dos oitavos de final do Euro-2016 entre a França e a República da Irlanda, em Lyon

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Eles entram em campo para jogar, elas roubam os flashes nas bancadas. As vidas das mulheres dos jogadores de futebol vão das excentricidades ao sacrifício

Um grupo de mulheres com uns vertiginosos saltos altos de sola encarnada e justos vestidos curtos passeiam em lojas de marcas de luxo como se estivessem numa cadeia de supermercado. De cada boutique saem com os braços carregados de sacos. Entregam-nos aos seguranças que os levarão ao hotel. Não é necessário andarem carregadas. Têm todas um aspeto semelhante. Cabelo comprido, graças às extensões artificiais, levemente ondulado, pestanas postiças, unhas de gel, silicone precocemente usado nos lábios e nos seios. Os decotes e um falso bronzeado laranja saltam à vista. Nas mãos uma Louis Vuitton. As suas roupas e acessórios ultrapassam os 50 mil euros. Caminham lado a lado, como se pertencessem a uma equipa. Não há espaço para a discrição. Sabem que estão a ser fotografadas mas não se importam. Até gostam.

À frente do grupo, fotógrafos e paparazzi tentam captar todos os seus movimentos. Querem imagens de um dia a dia de excentricidades. A única coisa que as separa da imprensa são uns óculos de sol que usam sempre que saem à rua. De dia e de noite são fotografadas. Seja a que hora a câmara as apanhar estão sempre arranjadas como se fossem ser fotografadas para uma revista de moda. Apresentamos-lhes as Wags (wives and girlfriends of high-profile professional athletes, mulheres e namoradas de jogadores de futebol). Uma designação que foi criada durante o Mundial de 2006, na Alemanha, depois do espetáculo que as cônjuges dos atletas ingleses protagonizaram em Baden-Baden, o local onde a seleção então comandada por Sven-Göran Eriksson estava instalada.

O comportamento das Wags inglesas deu de tal maneira nas vistas que o pub do centro da cidade passou a abrir ao domingo para os tabloides terem matéria de primeira página para segunda-feira. Enquanto os maridos e namorados treinavam, elas usavam o cartão de crédito (sem limite) a uma média de 60 mil euros por dia, cada uma. Houve recordes de 7 mil euros em menos de uma hora. Os filhos estiveram por perto, entregues a amas vestidas de branco, que os entretinham até as mães regressarem das manhãs de compras e dos almoços prolongados em esplanadas.

Independentemente do resultado da equipa, as noites eram passadas nos restaurantes da moda e nas discotecas fechadas para festas privadas, mas cujas imagens, surpreendentemente, surgiam na imprensa. O sucesso do grupo de Baden-Baden prolongou-se além da estada da seleção inglesa.

Todas as excentricidades daqueles dias — nesse ano a Inglaterra foi eliminada por Portugal nos quartos de final e já nas grandes penalidades — chegaram sempre aos jornais tabloides e as Wags tornaram-se até mais referenciadas do que os próprios feitos da equipa. Carma, um grupo de análise de media, concluiu que as Wags tiveram mais atenção do que a maioria das seleções de outros países. O grupo liderado por Victoria Beckham, a rainha mestra e mulher do capitão David Beckham, e Coleen McLoughlin, então namorada de Wayne Rooney, Cheryl Cole, então mulher de Ashley Cole, Alex Curran, mulher de Steven Gerrard, nunca se escondeu ou pediu recato à imprensa. Contou mais tarde o gerente do hotel que, um dia, no início da competição, mandou instalar umas cortinas junto à vedação da piscina para lhes dar alguma privacidade. As Wags ordenaram-lhe que fosses retiradas.

Luxo. Victoria Beckham levou 60 pares de óculos de sol para acompanhar o marido durante o Mundial de 2006. Mesmo assim ia às compras todos os dias. Coleen McLoughlin (em baixo) era uma das suas companhias diárias. Depois desse campeonato escreveu um livro e foi capa da “Vogue”, por ser mulher de Wayne Rooney

Luxo. Victoria Beckham levou 60 pares de óculos de sol para acompanhar o marido durante o Mundial de 2006. Mesmo assim ia às compras todos os dias. Coleen McLoughlin (em baixo) era uma das suas companhias diárias. Depois desse campeonato escreveu um livro e foi capa da “Vogue”, por ser mulher de Wayne Rooney

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A exposição das Wags compensou. Cheryl Cole lançou um perfume, Coleen McLoughlin escreveu um livro e apareceu na “Vogue”, e o fato de treino amarelo usado por Alex Curran esgotou e continua a vender, apesar de a empresa ter fechado. Victoria Beckham, a mais conhecida e o ícone do grupo, fez furor quando emigrou com o marido para Los Angeles. Houve conferência de imprensa. É a exceção do grupo. Para ser reconhecida e identificada pela imprensa não precisa de ter o nome e a seguir uma vírgula e a expressão ‘mulher de’ — ela é uma ex-Spice Girl, uma célebre girls band do final dos anos 90. Surgiram programas de televisão e reality shows sobre as Wags. E nos EUA tentou-se adaptar o fenómeno com a série VH1 Basketball Wives e Footballer’s Wives (neste caso os jogadores são de futebol americano).

Ser uma Wag tornou-se uma ambição e aspiração para muitas jovens no Reino Unido. O patamar de um estilo de vida fácil, fútil e luxuoso. “O meu sonho é casar com um futebolista, engravidar e fazer compras e divertir-me para o resto da vida”, disse Abigail Clancy, mulher do jogador Peter Crouch, do Stoke City. Casados desde 2011, têm sido presença constante na imprensa. Em eventos sociais e através das fotos de férias que costumam aparecer nas páginas dos tabloides. Sabemos, por exemplo, que Peter quase deixou cair Abigail quando dançava com ela às cavalitas numa rave em Ibiza. Abbey, como é tratada pela imprensa, desabafou nos jornais o seu desgosto quando descobriu que o marido a traiu, durante a gravidez, com uma prostituta. E basta escrever Peter Crouch no Google para o motor de busca sugerir a mulher.

Dez anos depois, e com uma nova competição em marcha, as mulheres e namoradas dos jogadores de futebol continuam a ter a atenção dos fotógrafos e da imprensa. Antes da competição começar fizeram-se listas de quem eram e do que faziam. Sempre que foi possível, elas surgiam em biquíni ou lingerie. Independentemente das profissões, como é o caso da mulher de Pepe, que é médica. “São vítimas das circunstâncias. Têm tempo livre e ocupam-no de uma forma lúdica ou fútil e são apanhadas pela comunicação social. É o que conhecemos delas, mas é uma coisa muito superficial, que dá uma visão muito simplista”, defende Carlos Nolasco, sociólogo e investigador do Centro de Estudos Sociais. O especialista em migrações no futebol reforça que essa visão tem um responsável. “A comunicação social é que as dá a conhecer, a forma ostensiva como gastam o dinheiro.” Criaram-se páginas na imprensa tabloide para falar das Wags e surgiu até um livro para ajudar a encontrar um jogador como namorado. No Facebook, o grupo ‘When I grew up I want to be a Wag’ (‘Quando crescer quero ser uma Wag’) dá umas dicas. “Detesto, mas percebo o estereótipo da mulher do jogador de futebol. O que não percebo é as mulheres terem de gostar de jogadores”, conta Margarida Neuparth, mulher de Adrien Silva, capitão do Sporting.
A atenção que as Wags obtiveram beneficiou também do fenómeno de cultura de massas em que uma pessoa é conhecida apenas porque surge na imprensa. Um produto de fama instantânea que a televisão impulsionou. “Elas eram vistas juntas em festas, a fazer compras, a divertirem-se, na boa vida, o que se atribuiu a um estilo de vida aspiracional. Os jornais tabloides aproveitaram isso”, explica Vanessa Craft, do blogue Kickette, que se dedica ao tema.

Baden-Baden fez sobressair uma realidade que até aí já existia. Não é só desde 2006 que as mulheres e namoradas de jogadores de futebol aparecem nos jornais e nas capas de revistas. A diferença é que até aí estavam associadas a um conceito de lar. Eram o suporte e as mães de família e não se sabia quanto gastavam por dia em compras. As mulheres de jogadores de futebol como acessório do homem másculo e macho em pleno século XXI. Sempre altas, magras, produzidas e com acessórios caríssimos a tiracolo. “É um estereótipo, mas é o que temos à nossa volta. Do ponto de vista sociológico, de grupo, as mulheres têm tendência a encontrar um parceiro com um capital intelectual e físico igual ou superior. É normal ver um médico com uma enfermeira, mas o contrário já é raro. Ou o empresário com a doméstica, mas não se encontram empresárias com domésticos”, explica Ana Santos, investigadora do Centro em Rede de Investigação em Antropologia e professora da Faculdade de Motricidade Humana na Universidade Nova.

No futebol, os papéis sociais são cimentados pelas regras do jogo. “Um vasto leque de mulheres se inclui na categoria de ‘mulheres de futebolistas’, cada uma desempenhando um papel diferente na vida do atleta macho, contribuindo de diferentes maneiras para o masculinizar. Da mulher de uma noite à esposa e mãe devotada, a mulher que este estudo encontrou tem tendência para incorporar estereótipos culturais que associam feminilidade a fraqueza, dependência e submissão”, lê-se nas conclusões de uma tese inglesa sobre o papel das mulheres de jogadores assinada por Ben Clayton e John Harris.

Do outro lado do estereótipo

Ana Santos frisa o quanto a imagem da mulher acessório é redutora e errada. E recua no tempo para dar o exemplo de Flora, mulher de Eusébio. Vinha de uma família com capital económico, influente, e tinha estudado. “Pertencia a uma geração em que há uma mulher para a vida e depois há vários casos. Hoje as mulheres já não aturam isso. Há uma aposta no indivíduo, a consciência de que só se tem uma vida.”

O estereótipo também tem outro lado. Mulheres que abdicam da carreira, mudam de país, de cidade consoante a época desportiva e veem o marido assediado à sua frente por dezenas de mulheres. Um barman em Liverpool contou, em 2010, ao jornal inglês “The Guardian” que há raparigas que se sentam ao balcão só à espera que cheguem os jogadores. E que pagam aos funcionários para lhes dizerem quais são os melhores ou, simplesmente, para os apontarem quando chegarem, já que muitas nem sequer sabem quem são. “Até mesmo quando chega um jogador da reserva é a loucura: as miúdas atiram-se completamente a ele. É ridículo.” É o que os brasileiros chamam — já muito antes do mundial de 2006 — de Maria Chuteira, jovens desconhecidas que se aproximam dos jogadores de futebol para terem fama e depois do relacionamento continuam a usá-lo para se promoverem. A revista “Veja” elegeu Rebeca Loos, ama dos filhos do casal Beckham, e Nereida Gallardo como duas das dez maiores do mundo.

Em Portugal, o fenómeno tem menos impacto. Há menos tabloides, há menos assédio. À nossa pequena escala, Margarida Neuparth lida diariamente com o estigma e com o assédio. “Ainda há pouco tempo fomos a uma discoteca e, quando vínhamos a sair, o gerente veio atrás de nós e disse: Adrien, há ali uma amiga minha que quer conhecer-te. Eu — a mãe dos filhos dele — ali ao lado.” Foi como se nem existisse.

Os ciúmes ainda contam, mas Margarida já se habituou. Irrita-a mais a ideia preconcebida que têm dela quando a veem sem a conhecer. “Acham sempre que as mulheres de jogadores de futebol são como as Wags inglesas. Que não queremos trabalhar, que só pensamos em compras e dinheiro.” Não há cultura de andar em grupo como em Inglaterra. “Até tenho pena, porque há quem esteja sozinha”, conta Margarida, uma simpática jovem de 28 anos que não se deslumbrou com o salário do marido. “Sempre fui habituada a poupar. Se for ao supermercado levo um papel higiénico mais barato. No outro dia a mulher do Slimani gostou de uma mala minha e perguntou-me se era de um anúncio, mas eu tinha-a comprado na Bershka.”

Num grupo no WhatsApp chamado Família Sporting, as mulheres dos jogadores não combinam idas às compras nem a Alvalade mas trocam indicações práticas, como pediatras e escolas. A uma escala nacional, num grupo do Facebook chamado Experiências Futebolísticas, mais focado em clubes da segunda divisão, as mulheres trocam informações sobre managers e cidades.

“Olham para nós como burras, que não querem trabalhar nem fazer nada. Podemos ter um trabalho normal das 9h às 17h, mas abdicaríamos muito do tempo juntos. O dinheiro que ia ganhar era o que ia gastar para alguém tomar conta dos miúdos nos dias em que o Adrien não pode.”

Do outro lado da fama e da vida sem preocupações económicas existe uma sombra. Na senda do sucesso do grupo de Baden-Baden, Alison Kervin, uma jornalista desportiva, decidiu explorar em livros a vida das Wags. E encontrou um mundo sem o glamour que as fotografias mostram. Dos vários testemunhos que recolheu, ouviu histórias de desprezo. Como taxistas que saíam do carro para abrir a porta ao marido, mas a fechavam na cara da mulher; fãs que as abordavam, sem sequer as cumprimentar apenas para perguntarem em que clube o companheiro ia estar na época seguinte.

Apesar de se ser o número dois do casal, a mulher de alguém, mesmo que se tenha uma carreira paralela, há uma exposição permanente que, muitas vezes, se torna no mais importante. A vinda de Iker Casillas para Portugal ficou reduzida ao espaço informativo desportivo. Já a suposta recusa de Sara Carbonero, a jornalista com quem se casou, em mudar-se de Madrid para o FC Porto foi mais falada (e criticada) do que a transferência. “Vem atrás do marido, mas mantém a sua rede de contactos que ativará se voltar a Espanha. Contraria o estereótipo”, frisa Ana Santos.

A verdade é que Sara, independentemente do sucesso e independência, deixou a vida em stand by para acompanhar o marido. Tirou uma licença sem vencimento na estação de televisão onde trabalha, manteve os projetos de moda paralelos e entre idas e vindas, engravidou e foi mãe pela segunda vez. “Para eles, a família é uma dimensão muito importante, para a estabilidade emocional. A mulher funciona como fator de estabilidade”, sublinha Carlos Nolasco. Talvez por isso, a médica e mulher de Pepe o acompanhe, tal como a modelo sueca Helen Svedin tenha mudado de país consoante o clube em que o marido, Luís Figo, jogava. “Até agora tenho tido sempre muita sorte, porque moro em Lisboa e ainda não saímos daqui. Tenho a minha mãe ao pé”, diz a Margarida Neuparth. No telemóvel mostra as fotografias de Alexis Montero, mulher de Fredy Montero, que refez a vida na China com duas crianças pequenas. Uma mudança radical, que Margarida não saberia como fazer.

Dos muitos casos de jogadores emigrados que o sociólogo Carlos Nolasco tem estudado, a opinião das mulheres é um denominador comum quando se trata de escolher novo clube. “Elas têm muita importância nas decisões profissionais que eles tomam, como a permanência no estrangeiro ou a escolha do destino. Alguns managers dizem que é mais difícil lidar com elas do que com eles.” A vida nos clubes é controlada pela entidade patronal, para que o jogador não se disperse, e é em casa que o atleta deixa de ser apenas atleta. Aí, contam com a mulher para tudo. Margarida, licenciada em gestão hoteleira e habituada a trabalhar desde os 16 anos, é esse suporte do capitão do Sporting em casa. Ainda não abdicou de muito, diz.

Mas cada vez que aparece nas notícias costumam ir buscar uma fotografia sua em lingerie para ilustrar o artigo. “Quando o Paulo Bento não convocou o Adrien para a seleção, no último Mundial, eu fiz um post no Instagram a dizer que ele se tinha esforçado muito. O ‘Correio da Manhã’ fez uma notícia com uma foto minha em lingerie, de quando tinha 15 anos.” Nas redes sociais a crítica veio de outra forma: “Tu querias era ir para o Brasil e não fazer nada e apanhar sol”.

É um abanão na cara do feminismo. Como se recuássemos no tempo e a mulher estivesse sempre um passo atrás e só viesse para o centro da vida social se o homem, o marido, a convidasse. “Existe uma hierarquia horrível nos jornais [tabloides]: ser mulher é melhor do que ser namorada, e ser a mulher do jogador mais bem sucedido é melhor do que ser a do menos bem sucedido. É como no século XVIII e XIX, a ideia de mulher a quem é dado valor pelo relacionamento que tem com o homem, e quanto mais sucesso ele tem, mais sucesso ela tem”, escreveu a escritora feminista Natasha Walter sobre o fenómeno Wags.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 julho 2016