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‘Volta algarviana’ à mesa

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Restaurante Pezinhos na Areia

Nuno Botelho

De Vila do Bispo a Monte Gordo sem perder de vista os melhores pratos

A rota pedestre Via Algarviana permite descobrir o Algarve não turístico através de um extenso percurso contínuo ou de pequenas rotas que cruzam a região desde o barlavento ao sotavento com grande incidência na zona interior do Barrocal. Em complemento aos que se aventuram a palmilhar os cerca de trezentos quilómetros do trajeto, sugerimos uma espécie de ‘volta algarviana’ à mesa para conhecer a riqueza de uma cozinha que brota profunda do Barrocal até nos mimar as papilas com peixes e mariscos nas melhores praias de Portugal.
Partida do barlavento com uma interpretação atual da cozinha regional na Eira do Mel em Vila do Bispo com cataplanas diversas, entre as quais a de ‘polvo com batata-doce’, bons pratos de tacho onde pode surgir javali, e doces elegantes com figo e alfarroba. Em Lagos, a discreta localização do restaurante Comidinha não faz adivinhar a mesa farta e a garrafeira de grande nível que ali se abrigam. É garantido que encontrará o néctar certo para as ‘lulas cheias’, a ‘feijoada de polvo’ o ‘rabo-de-boi estufado’, e até um vinho tranquilo para o ‘pudim de gengibre’. Ainda na tónica da comida envolvente e consistente, a Tasca do Petrol em Marmelete deixa-o no coração do Barrocal à mercê de saborear umas couves caseira tenras de doces, para emparceirarem com os ‘piques na banha’ (nacos de porco com pimentão), ir pelos raros ‘milhos com feijão’ adubados com carne de porco, e ainda o ‘cabrito assado’, e por fim o luzidio pudim de mel. A casa regressa de férias a 1 de julho, para não parar até ao fim do verão.

Voltando a ter o mar mais perto, O Charneco, em Estômbar, garante um pequeno festim a preço fixo onde a ‘salada de ovas de choco’, as ‘cavalas alimadas’, ou as ‘amêijoas à Bulhão Pato’ deixam memórias impressivas. Já com as vistas marítimas a preencherem parte da refeição... e da conta, a singela Casa Lamy na praia de Benagil tem nas ‘lulas recheadas’ (por encomenda) um dos seus pratos emblemáticos, no entanto a ‘sopa de peixe’, o ‘xerém com amêijoas’, ou o ‘arroz de tamboril’, cumprem com satisfação a tarefa de não estragar uma vista de eleição. Na baixa-mar pode aceder-se pela praia até à cúpula natural sem vitral que é o Algar de Benagil.

Em Loulé, no Alto do Relógio, há um poiso recente que começa a fazer o seu caminho. No Mèm o neologismo convida ‘mesmo’ a ir lá olhar para um vale encantado, enquanto se saboreia a ‘bisque de camarão’, a incomum ‘feijoada de barriga de atum’, ou a inusitada ‘mousse de chocolate com cogumelos, whiskey e café’, tudo no embalo de música ao vivo em alguns jantares. A cantarolar até Almancil é um instante para se conhecer a cozinha cintilante do São Gabriel. O guia vermelho premiou a nova vida deste histórico da cozinha de autor, agora com o cozinheiro (como gosta de ser tratado) Leonel Pereira como principal ator desafiando-nos com a irreverência do ‘salmonete de Sagres com orelhas de judas (cogumelos) e quiabos’, ou da ‘dobrada de chocos, favas e chícharos’. Ainda em Loulé é preciso escalar o sopé da serra do Caldeirão para visitar a A Tia Bia em Barranco do Velho, onde uma hospedaria à margem do caminho serve iguarias que valem a viagem, como o denso ‘galo à chefe’ (guisado em vinho tinto) ou o tenro ‘javali estufado’. Uma torta de laranja dá a frescura final necessária e depois pode até dar-se uma caminhada exploratória na Via Algarviana que tem ali ponto de partida do seu sexto troço.

É tempo de refrescar a viagem e voltar à atlântica margem composta pela Ria Formosa. Em terra de polvo e pescadores, o Vincent em Santa Luzia optou pelo contraditório. Escondido numa travessa junto ao famoso Capelo, um gaulês instalou-se há alguns anos a fazer cozinha de bistrô. Portanto, para desalinhar dos peixes e mariscos, pode encontrar aqui a clássica ‘sopa de cebola gratinada’, o ‘entrecôte com molho béarnaise’, e os clássicos ‘tarte Tatin’ e ‘crepes Suzette’. A próxima paragem é em Vila Nova de Cacela onde a entrada na praia de Manta Rota convida a um Chá com Água Salgada. Instalações confortáveis a poucos metros do mar e uma cozinha criativa com bons produtos onde os ‘lingueirões à Bulhão Pato’, a ‘cataplana de peixe com alface-do-mar’, ou o ‘peito de pato com pera’ são opções a ter em conta. O final da viagem pode ser um pouco mais à frente, antes de chegar a Monte Gordo, ficando-se com os Pezinhos na Areia, sem ter sequer de se tocar nela. As instalações requintadas e o conforto do espaço permitem alcançar aquilo que de melhor se pode perder: a noção do tempo. Desde a ‘tapa de ovas de bacalhau’, o ‘camarão de Monte Gordo frito’, ao ‘arroz de marisco com carabineiros’ fechando com as ‘3 delícias do Algarve: amêndoa, figo e alfarroba’.

Vale cerca de 260km esta ‘volta algarviana’ à mesa, para se ter a certeza de que por terras algarvias há qualidade, variedade e abundância de produtos nos mais inesperados e diversos recantos. O geógrafo francês Jean Brunhes dizia que “comer é incorporar um território”. No caso do nosso rico e ‘mediterrânico’ Algarve, seja na orla costeira ou no âmago do Barrocal é um privilégio ‘incorporar’ uma parte da identidade de Portugal.